Entro no elevador e me deparo com a extravagante e serelepe
vizinha que inicializa um monólogo onde enaltece seus 72 anos, se compara à
atriz Susana Vieira e sua animação. O monólogo se estende à garagem e quando
ela está acabando de contar que a atriz idosa só “pega garotões” ela se volta
para o garagista e diz:
- “Fulano vc quer ser meu garotão?”
O rapaz olha desconcertado para mim sem saber o que responder,
sorri sem graça, abaixa a cabeça e nada fala. Um motorista ali sentado
esperando a madame reproduz o mesmo olhar perplexo ante ao non sense da cena.
Na sequência ela me diz:
- "Você não está achando o clima entre os
funcionários mais descontraído?"
Eu:
- "Não, estou achando o mesmo clima agradável
de sempre, porque?"
Aí me lembrei que ela acabou de ser eleita para o novo
staff que vai gerenciar o condomínio do prédio onde moramos!
Então captei a mensagem: ela estava se autoelogiando e dando a entender como o clima de brincadeiras proporciona um melhor gerenciamento de funcionários, é isso mesmo?!
Eu já tinha achado a cena com o jovem mancebo desnecessária e constrangedora, mas quando entendi que quem tinha se dirigido ao garagista fazendo uma brincadeira de cunho sexual foi a subsíndica fiquei realmente preocupada. Não somente pela cena em si, que poderia passar por uma simples brincadeira. Mas pela crescente disseminação e naturalização de situações como essa de desrespeitoso assédio...
Ando escutando nos mais diversos âmbitos de nossa sociedade (acadêmicos, institucionais e etc) descrições semelhantes a essa, caracterizadas pelo assédio moral: assimetria de poder, abordagem constrangedora e desagradável por parte de pessoa que ocupa posição hierarquicamente superior, situação de opressão.
A falta de profissionalismo, a informalidade, a descontração, a falta de limitação dos papéis, a simpatia e sensualização de tudo nos mais diversos contextos, todo esse clima enfim provoca um profundo mal estar mas que fica de alguma maneira “diluído” em uma cultura como a nossa tão acolhedora e descontraída.
No ambiente profissional, acadêmico, social, as pessoas estão perdendo a noção do que é público e o que é privado, daquilo que é particular e do que é do social. Assedio moral, assédio sexual, como discernir o que são esses constrangimentos em uma cultura cada vez mais erotizada e voltada para a espetacularização de si mesmo e da intimidade?
Passa ser normal assediar sexualmente seu porteiro em uma cultura onde o sexo é banalizado e tornado uma mercadoria presente em todos os espaços de convívio.
Explico em exemplos cotidianos: vou em uma festa infantil em uma
dessas casas especializadas para este público, com brinquedos e animadores para
entreter os pequenos. Ou seja: uma casa especializada e voltada para o público
infantil. E na trilha musical meus filhos - crianças! - escutam:
“Uísque àgua de côco pra mim tanto faz... eu fico louco de tesão e cada vez eu quero mais... corpo quente suado vem melar e vem lamber” (Naldo)
Na sequência:
“Cheguei na balada doidinho
para biritar... faz o tchu tcha tcha (sic) ... é uma dança sensual...” (Gustavo
Lima)
Lamber, melar, biritar: que
explicações que se dá a uma criança que quer "entender" a letra com
6-8 anos? Como assim, casa infantil de festas? Porque em minha casa ainda posso
controlar o que é visto-ouvido filtrando as diversas mídias. Mas estamos no
mundo, como censurar o modus vivendi de uma cultura?
Nessa bagunça e confusão, pego um taxi à noite para ir à festa e
sou obrigada a escutar o taxista contar "causos" sobre a mulher, a sogra e a
igreja o qual insere os mais cabeludos palavrões que existem em nosso
vocabulário na conversa com um cliente. Nada de mais, certo? Errado. Muito
errado ao meu ver. Não sou obrigada a ouvir baixarias e palavrões quando estou
contratando algum serviço. Mas cada vez mais cotidiano.
Valores que se perdem, como educação, respeito à intimidade e à
privacidade, passam a imperar em nosso dia a dia. Não se trata de tabus ou de
moralismos. Trata-se de regras mínimas de boa convivência e respeito ao próximo
que vão caindo em desuso, tornando-se obsoletas e caretas.
Como afirma Paula Sibilia em O show do eu: a intimidade como espetáculo, assistimos agora a um declínio da interioridade. A autora, partindo de Richard Sennet em Corrosão caráter quando este trabalha a "tirania da visibilidade", explica que os eixos que sustentam o sujeito contemporâneo passam a ser deslocados para um processo de globalização, digitalização e espetacularização da vida.
Em que momento a conquista da liberdade sexual se tornou uma tirania da sexualidade é uma questão que venho me fazendo...
Sabemos como a sexualidade tornou-se um discurso e dispositivo de controle no social, como aponta Michel Foucault na História da sexualidade, desde o século XVIII. A psicanálise está entre estas disciplinas que vão normatizar e legitimar o "uso dos prazeres". Legitimar que somos seres sexuais, que somos todos perversos polimorfos, uma vez que nosso desejo e prazer infantis se satisfazem das mais diversas formas: pulsão oral, anal e etc.
Mas parece que nos tornamos cada vez mais perversos: exibcionistas, voyeuristas, impondo a sexualidade ao olhar e submissão do outro. No Brasil, com toda a nossa malemolência, exotismo e sensualidade para exportação, "yes, nós temos bananas", isto vai assumindo contornos cada vez mais estranhos e perigosos...
