quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Recomendações aos jovens psicólogos clínicos


Na semana de comemoração do dia do Psicólogo, pensei sobre os 25 anos formada – um quarto de século - e lembrei dos ganhos e aprendizados ao longo desses anos de clínica. Como professora, supervisora, orientadora tenho escutado algumas dúvidas e me inspirei em Freud quando escreveu o texto “Recomendações ao médicos que exercem a psicanálise” (1912) passando um pouco de sua experiência e resolvi falar brevemente sobre a minha própria experiência como psicóloga clinica.

Nas palavras de Freud "as regras técnicas que estou apresentando aqui alcancei-as por minha própria experiência, no decurso de muitos anos, após resultados pouco afortunados me haverem levado a abandonar outros métodos(...) Minha esperança é que minha observação delas poupe (...) muito esforço desnecessário e resguarde-os contra algumas inadvertências"Freud explica ainda que este é o seu modo de trabalhar, que tem a ver com sua personalidade, sua história, sua forma de se relacionar e diz ainda que alguém que tenha outra formação poderia adotar uma outra e própria visão da clínica.

É dessa maneira que proponho que o psicólogo clínico em início de profissão leia este artigo, como uma experiencia que eu tive e compartilho com vocês, com a qual podem ou não se identificar, mas que sirva de inspiração para cada um pensar sobre sua prática e percurso.

Para começar a falar de psicologia clínica relembro o famoso tripé que sustenta a clínica, sugerido para qualquer que seja a abordagem clinica: análise pessoal, supervisão e estudo.

É fundamental que o psicólogo tenha feito psicoterapia, para que se conheça e saiba como é passar por um processo terapêutico, que conheça suas luzes, sombras e domine seus pontos cegos de modo a ser capaz de conduzir um tratamento sem que projete o que é seu em seus pacientes.

Afinal, sabemos que durante a condução de um tratamento podemos eventualmente nos deparar com situações que nos remetam a vivências mais ou menos dolorosas que possamos ter passado, ou mesmo com situações semelhantes que se não forem devidamente conhecidas pelo psicoterapeuta podem trazer possíveis danos tanto no manejo do tratamento - afetando o paciente - quanto no próprio terapeuta, com os mesmos riscos.

Igualmente importante é que tenhamos em nossa caminhada inicial um profissional que admiremos e que tenhamos confiança para que sejamos supervisionados em nossos atendimentos iniciais, de modo a termos quem nos guie no manejo da relação terapêutica, no estabelecimento do contrato com o paciente, na condução do tratamento terapêutico. E que possa nos orientar no manejo da teoria e da técnica psicoterapêutica que for de nossa escolha.

Esse profissional é importante não somente nos primeiros estágios profissionais, bem como no início da clínica, possibilitando que o psicoterapeuta adquira a confiança e o conhecimento minimamente necessários para alçar um “vôo solo”, digamos assim. Um supervisor permite que possamos ver refletida a nossa prática de maneira crítica, construtiva e bem guiada nesses caminhos inéditos do começo da psicologia clínica.

Isso nos leva ao terceiro pilar que sustenta a clinica: o estudo. Estudar sempre e para sempre. Isso não acaba nunca, digo por experiência própria. Até porque quando gostamos do que fazemos queremos sempre aprender mais, não é? Fazendo as contas, descobri que estudo psicologia, psicanálise e afins há três décadas!!! Para a clínica isso é particularmente importante, visto que a cada leitura, a cada releitura, significamos e ressignificamos a nossa prática.

Inclusive, à medida em que vamos lendo e relendo, é a partir da prática que somos capazes de realmente alcançar a compreensão de determinados conceitos teóricos. Vou exemplificar com um conceito de minha abordagem teórica, a psicanálise. O conceito de transferência que pode ser perfeitamente entendido na teoria, ganha uma outra dimensão e amplitude quando passamos pelo processo transferencial com nosso analista, nosso supervisor e especialmente quando a conhecemos através de nossos pacientes.

Cumprido esse “básico”, de análise, supervisão e estudo, falemos agora em sobre como começar a clínica particular, sonho de grande parte dos estudantes de psicologia. Sempre digo que a clínica pode ser uma experiência solitária, daí a importância da troca em supervisão, grupos de estudo, especializações – estas últimas sempre recomendo e por vários motivos. Vou justificar.

A especialização te torna – parece óbvio – um especialista. Isso quer dizer que depois de terminar a graduação, já tendo em seu final de graduação decidido pela ênfase e etc., a gente sai da faculdade ainda com inseguranças e com a sensação que ainda está inexperiente. Em uma pós graduação -  realizada em uma boa instituição - , o psicólogo tem a chance de estudar uma área com exclusividade e ainda ter a prática supervisionada, bem como a experiência de desenvolver a escrita e o exercício de transmissão de saber através dos trabalhos de conclusão das matérias.

A confiança para clinicar vai assim se desenvolvendo. Sempre sustentada no tripé. Essa pode ser uma oportunidade de estar em contato com pessoas diversas da área de interesse, permitindo a formação de uma rede de conhecimentos que abre a chance de indicações profissionais, bem como de  novas possibilidades de estudo e trabalho no campo.

Além disso, ter no começo da clínica a experiência de uma instituição que sirva como “holding” e proteção é sempre boa indicação. Uma infraestrutura de atendimento com local, agendamento, a presença de profissionais no apoio é bastante motivador. A troca nos grupos de supervisão, os grupos transdisciplinares e etc. são uma experiência extremamente enriquecedora para um profissional em formação.

Quer atender no consultório particular, ter o seu próprio espaço? Avalie se vale a pena alugar um espaço com colegas com os quais dividirá as despesas, os horários, a decoração e administração do espaço – certifique-se que são colegas com os quais tenha diálogo e respeito.  Lembre-se que o dia a dia implica fazer acordos e concessões em diversos aspectos, desde horários até a cor da parede do consultório.

Mas também pondere se é mais vantajoso inicialmente sublocar um ou mais horários para ir investindo aos poucos na clínica, enquanto aumenta a demanda de horários, sem a responsabilidade de custos mais altos ou da administração do espaço. Dá trabalho quando o ar condicionado pifa ou quando um cano estoura no banheiro, coisinhas que demandam tempo na administração e que pode tornar mais prático sublocar.

E por falar em custos, cobre pelo seu trabalho. Esse é um assunto que pouco falamos na graduação. A maior parte dos estágios em psicologia clínica não são remunerados – o que acho muito estranho, aliás – somos de alguma maneira meio que acostumados a trabalhar de graça nos SPAs e nas instituições que estagiamos em clínica. Isso já favorece a dificuldade futura em receber dinheiro pelo seu trabalho...

O dinheiro também é tabu na nossa cultura, parece cobiça – ou até pecado, conforme nossa cultura cristã! – querer receber bem pelo nosso trabalho. Mas cobre, ainda que seja um valor abaixo do mercado ou da tabela sugerida pelo conselho de psicologia, valorize a sua profissão. Lembre que sua profissão é fruto de sua dedicação, seu estudo, de sua supervisão, de sua psicoterapia , do espaço que você paga para trabalhar. Você merece receber pelo seu trabalho, por respeito próprio e por direito de trabalhador. Mas lembre-se: o primeiro a se valorizar e acreditar na sua clinica tem que ser você.

Isso foi apenas um pouco do que aprendi até agora. Espero ainda aprender muito nas próximas décadas nesse apaixonante exercício da psicologia clínica...