segunda-feira, 31 de março de 2014

SOBRE O SILÊNCIO E O DESMENTIDO

Importante lembrar:  houve uma ditadura sim, chamada de regime de exceção, mas foi realmente uma ditadura violenta que durou muitos anos no Brasil. Em 64 começou um período de muita repressão e perseguição a todos aqueles que se opusessem ao regime e que perdurou longo tempo. 
Isso é fato inegável. Ditadura que fez inúmeras vítimas. Isso também é um fato inegável.  E ainda existem muitos silêncios traumáticos que ecoam em nossa vida social e política. E é sobre isso que precisamos falar. Sobre o silêncio e sobre o desmentido.
O que busca-se resgatar agora – o mais importante de tudo – é que seja revelado o que aconteceu com as centenas de desaparecidos e mortos durante esse período triste da história. É que a história seja revelada.
Longe dos maniqueísmos de bom ou mau, de direita ou de esquerda, temos que admitir que numa ditadura só existe uma verdade e que a imposição da verdade dos militares de direita nos anos de chumbo foram bastantes danosos para nossa cidadania e patriotismo. Digo militares de direita, pois existiam também os militares de esquerda. É disso que estou falando: as coisas eram e são bem mais complexas do que parece.
Da herança do silêncio e da opressão vemos a nossa dificuldade na conscientização politica, da discussão de direitos e deveres do estado e do cidadão, na ojeriza à politica e coisas do gênero. Anos de silêncio imposto sobre a liberdade de se pensar que deixaram sequelas graves nos brasileiros.
As atitudes foram extremas de ambos os lados, alguns argumentam, afinal os “terroristas”  de esquerda roubavam bancos para financiar suas lutas, sequestravam embaixadores para trocá-los pela vida dos presos políticos torturados e mortos nos porões da repressão,  assassinavam quem atravessava suas ações.  Ações radicais sem dúvida.
Mas o que dizer da prisão, morte e tortura daqueles que simplesmente discordavam do regime? Quantos relatos e histórias de pessoas que simplesmente por serem “de esquerda”, sem jamais terem pego numa arma, sem jamais terem se engajado em nenhum grupo de luta armada sofreram nas mãos desse regime, simplesmente por simpatizar com a idéia de um estado de direito com justiça e igualdade social?
Imagine um novelista que tem que mudar a história da novela das oito pois os censores disseram que um dos personagens estava insuflando rebeldia na trama? Essa foi Janete Clair. Imagine um  cantor com musicas censuradas por incitar a questionar? Escolha um da MPB nos anos 60... Imagine um professor universitário que tinha espião em suas turmas para evitar que qualquer nome de autor ou pensamento perigoso ao regime fosse mencionado? Escolha qualquer um na década de 60 e 70. E assim vai.
Esqueça por uns minutos os terroristas e lembre de pessoas comuns, como eu e você. Éramos nós, é de nós que estou falando. Pessoas como eu e você que do nada sumiam, morriam. Sem se saber direito onde, como ou porque.
Imagine não saber exatamente a confirmação do óbito de alguém de sua estima: pai, mãe, filho, filha, irmã, irmão... Imagine nunca saber de um corpo que confirme essa morte. A dor desse morto vivo sendo atualizada diariamente. Esse silêncio é traumático.
Conforme explica Aldir Blan, autor junto com Joao Bosco da música “o bêbado e o equilibrista” choram “marias e clarisses” choraram por décadas sem saber, viúvas Manoel Fiel e de Vladimir Herzog. Se a dor da perda de um amado já é imensa, torna-se incomensurável sem um corpo para velar, chorar, se despedir. É uma despedida que nunca se acaba, dor que se atualiza sem nunca ficar no passado.
Em 1979 veio a anistia “ampla, geral e irrestrita”, uma negociação para que todos os acusados de crimes políticos, exilados, presos e etc pudessem ter direito à liberdade de retornar à vida suprimida no Brasil – pelo exílio, pela cadeia, pela cassação dos direitos de cidadão. Isso quer dizer que de ambos os lados foi combinado que não haveriam sanções pelo passado.
Se foi o combinado, deve valer para ambos os lados, Mas não punir não significa silenciar, calar, omitir ou mentir.  Pois, como se diz, um povo que não conhece seu passado está condenado a repeti-lo.
A idealização de uma ditadura militar é um exemplo disso . Com a censura as informações às quais o brasileiro tinha acesso eram filtradas: não se noticiava violência, crime ou corrupção. O falseamento da realidade inventa uma nostalgia de uma realidade que não existiu, quase de um idílico – como todo passado nostálgico é – mundo de faz de conta.
Não repetir a ditadura. Sim, porque não vivemos uma ditadura: temos a liberdade de expressão e uma democracia em um estado de direito. Não importa o quão ruim é o nosso governo, ou se nossa presidente foi terrorista, não vivemos uma ditadura. Quem fala isso não sabe o que é uma ditadura.
Mas vivemos por décadas uma ditadura que foi devastadora, é devastadora para todos que foram direta e indiretamente atingidos por ela. Dizer que não existiu é mais danoso que tudo que se viveu. 
Conforme afirma o psicanalista Sandor Ferenczi em sua teoria do trauma, é o desmentido do ocorrido que se torna mais traumático que o fato em si, a negação da violência vivida pelo sujeito é que se torna desestruturante.
Por isso que temos que falar – muito e ainda-  sobre isso, nomear, significar, traduzir aquilo que ficou silenciado, não dito, sufocado, negado, para que possamos prosseguir. E superar . E não repetir. 
Conforme afirma Hannah Arendt, toda a dor pode ser suportada se sobre ela puder se contar uma história. E é sobre a nossa história que temos que falar.