Importante
lembrar: houve uma ditadura sim, chamada
de regime de exceção, mas foi realmente uma
ditadura violenta que durou muitos anos no Brasil. Em 64 começou um período de
muita repressão e perseguição a todos aqueles que se opusessem ao regime e que
perdurou longo tempo.
Isso é fato
inegável. Ditadura que fez inúmeras vítimas. Isso também é um fato inegável. E ainda existem muitos silêncios traumáticos que
ecoam em nossa vida social e política. E é sobre isso que precisamos falar.
Sobre o silêncio e sobre o desmentido.
O que busca-se
resgatar agora – o mais importante de tudo – é que seja revelado o que aconteceu
com as centenas de desaparecidos e mortos durante esse período triste da
história. É que a história seja revelada.
Longe dos maniqueísmos
de bom ou mau, de direita ou de esquerda, temos que admitir que numa ditadura
só existe uma verdade e que a imposição da verdade dos militares de direita nos
anos de chumbo foram bastantes danosos para nossa cidadania e patriotismo. Digo
militares de direita, pois existiam também os militares de esquerda. É disso
que estou falando: as coisas eram e são bem mais complexas do que parece.
Da herança do
silêncio e da opressão vemos a nossa dificuldade na conscientização politica, da
discussão de direitos e deveres do estado e do cidadão, na ojeriza à politica e
coisas do gênero. Anos de silêncio imposto sobre a liberdade de se pensar que
deixaram sequelas graves nos brasileiros.
As atitudes foram
extremas de ambos os lados, alguns argumentam, afinal os “terroristas” de esquerda roubavam bancos para financiar suas
lutas, sequestravam embaixadores para trocá-los pela vida dos presos políticos
torturados e mortos nos porões da repressão, assassinavam quem atravessava suas ações. Ações radicais sem dúvida.
Mas o que dizer
da prisão, morte e tortura daqueles que simplesmente discordavam do regime? Quantos
relatos e histórias de pessoas que simplesmente por serem “de esquerda”, sem
jamais terem pego numa arma, sem jamais terem se engajado em nenhum grupo de
luta armada sofreram nas mãos desse regime, simplesmente por simpatizar com a
idéia de um estado de direito com justiça e igualdade social?
Imagine um
novelista que tem que mudar a história da novela das oito pois os censores
disseram que um dos personagens estava insuflando rebeldia na trama? Essa foi
Janete Clair. Imagine um cantor com
musicas censuradas por incitar a questionar? Escolha um da MPB nos anos 60...
Imagine um professor universitário que tinha espião em suas turmas para evitar
que qualquer nome de autor ou pensamento perigoso ao regime fosse mencionado? Escolha
qualquer um na década de 60 e 70. E assim vai.
Esqueça por
uns minutos os terroristas e lembre de pessoas comuns, como eu e você. Éramos
nós, é de nós que estou falando. Pessoas como eu e você que do nada sumiam,
morriam. Sem se saber direito onde, como ou porque.
Imagine não
saber exatamente a confirmação do óbito de alguém de sua estima: pai, mãe,
filho, filha, irmã, irmão... Imagine nunca saber de um corpo que confirme essa
morte. A dor desse morto vivo sendo atualizada diariamente. Esse silêncio é traumático.
Conforme
explica Aldir Blan, autor junto com Joao Bosco da música “o bêbado e o equilibrista” choram “marias e clarisses”
choraram por décadas sem saber, viúvas Manoel Fiel e de Vladimir Herzog. Se a
dor da perda de um amado já é imensa, torna-se incomensurável sem um corpo para
velar, chorar, se despedir. É uma despedida que nunca se acaba, dor que se
atualiza sem nunca ficar no passado.
Em 1979 veio a
anistia “ampla, geral e irrestrita”, uma negociação para que todos os acusados de crimes políticos, exilados,
presos e etc pudessem ter direito à liberdade de retornar à vida suprimida no Brasil
– pelo exílio, pela cadeia, pela cassação dos direitos de cidadão. Isso quer dizer
que de ambos os lados foi combinado que não haveriam sanções pelo passado.
Se foi o
combinado, deve valer para ambos os lados, Mas não punir não significa
silenciar, calar, omitir ou mentir.
Pois, como se diz, um povo que não conhece seu passado está condenado a
repeti-lo.
A idealização de
uma ditadura militar é um exemplo disso . Com a censura as informações às quais
o brasileiro tinha acesso eram filtradas: não se noticiava violência, crime ou corrupção.
O falseamento da realidade inventa uma nostalgia de uma realidade que não
existiu, quase de um idílico – como todo passado nostálgico é – mundo de faz de
conta.
Não repetir a
ditadura. Sim, porque não vivemos uma ditadura: temos a liberdade de expressão e
uma democracia em um estado de direito. Não importa o quão ruim é o nosso governo,
ou se nossa presidente foi terrorista, não vivemos uma ditadura. Quem fala isso
não sabe o que é uma ditadura.
Mas vivemos por décadas uma ditadura que foi
devastadora, é devastadora para todos que foram direta e indiretamente atingidos
por ela. Dizer que não existiu é mais danoso que tudo que se viveu.
Conforme afirma o psicanalista Sandor Ferenczi em sua teoria do trauma, é o desmentido do ocorrido que se torna mais traumático que o fato em si, a negação da violência vivida pelo sujeito é que se torna desestruturante.
Conforme afirma o psicanalista Sandor Ferenczi em sua teoria do trauma, é o desmentido do ocorrido que se torna mais traumático que o fato em si, a negação da violência vivida pelo sujeito é que se torna desestruturante.
Por isso que
temos que falar – muito e ainda- sobre
isso, nomear, significar, traduzir aquilo que ficou silenciado, não dito,
sufocado, negado, para que possamos prosseguir. E superar . E não repetir.
Conforme afirma Hannah Arendt, toda a dor pode ser suportada se sobre ela puder se contar uma história. E é sobre a nossa história que temos que falar.
Conforme afirma Hannah Arendt, toda a dor pode ser suportada se sobre ela puder se contar uma história. E é sobre a nossa história que temos que falar.

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