terça-feira, 23 de julho de 2013

SOBRE A OBEDIÊNCIA


Um dos textos que mais me impressionou no começo de minha graduação foi o relato da experiência realizada por Stanley Milgran, em 1961. Milgran, cientista social e doutor em psicologia, conduziu em Yale uma pesquisa para verificar como pessoas comuns, sem antecedentes de violência poderiam cometer atos cruéis e atrozes.

A partir dos questionamentos sobre as pessoas “de bem” que haviam colaborado com os horrores do  holocausto, Milgran criou a suposição de que qualquer pessoa seria obediente a pressão de uma autoridade.

Para verificar sua hipótese, selecionou 40 voluntários homens para sua pesquisa que deveriam fazer o papel de um professor que arguiria um aluno. Explicando que a pesquisa era sobre punição no aprendizado, Milgran instruiu que a cada resposta errada o professor deveria dar um choque elétrico no aluno, em intensidades crescentes, incentivado por um cientista que coordenava esta pesquisa.  O aluno e o cientista eram contratados e  parte da pesquisa.

A sessão de tortura era uma encenação, mas o voluntário “professor” não sabia disso, o ator fingia levar choques cada vez mais potentes e implorava para o “professor” parar. Mas 65% desses participante chegaram a dar “choques” de  450 volts, média mantida em testes posteriores em outros países e com mulheres.

Nunca nenhum voluntário, em nenhuma das repetições da pesquisa, interrompeu o teste para ajudar o “aluno” e apenas uma pequena percentagem abandonou a pesquisa mas sem prestar auxilio ou denunciar os torturadores.

A pesquisa “os perigos da obediência” apresentou assim os riscos da submissão a uma autoridade, pois os sujeitos não conseguiam romper com a pressão de uma hierarquia, bem como revelou a não responsabilidade do sujeito pelo seus atos, uma vez que este alegava estar obedecendo a um terceiro, seguindo e submetido ao desejo deste. Afirma o autor que:

“O problema da obediência não é somente psicológico. A forma e a configuração da sociedade (...) Logicamente, toda sociedade tem de incutir hábitos de obediência em seus cidadãos já que não podemos ter uma sociedade sem alguma estrutura de autoridade. Aprendemos o que significa a obediência na família e na escola, mas principalmente quando passamos a integrar o mundo do trabalho. Trabalhando num escritório, numa fábrica ou no exército tem-se, necessariamente, de abandonar um grau de julgamento individual para que esses sistemas maiores possam operar com eficiência. Em tais situações de trabalho, a pessoa não se considera responsável pelas suas próprias ações, mas sim como um agente que executa os desejos de uma outra pessoa.

Lembrei desse texto impressionante a partir da recentes manifestações e dos fenômenos que se iniciaram no Brasil a partir do pleito pela suspensão do aumento da passagem de ônibus e o seu bordão “não é pelos 20 centavos” e toda a insatisfação de uma nação desgastada pela corrupção, pelos desserviços do estado na saúde, na educação e na sociedade como um todo.

Imediatamente lembrei desse texto e associei o perigo dessa obediência ao desempenho da PM no Rio de Janeiro ante às manifestações. É uma instituição militar e hierárquica, formada para o combate e repressão ao crime. É isso que eles aprendem em sua formação no curso do CFAP: a seguir ordens da autoridade, de seu superior sem questionar e aprendem também a reagir com violência. E são obedientes.

Lembro também de um filme também impressionante: “A morte e a donzela” (1994) , filme de Roman Polanski que se passa em um país qualquer da América Central saído da ditadura e versa sobre Pauline, mulher que se auto exclui da sociedade refugiando-se em sua isolada depois de sua experiência traumática como presa e torturada política.

Um dia seu marido auxilia um médico cujo pneu fura na estrada, que vai devolver estepe emprestado. É quando Pauline ouve a voz do visitante e reconhece a voz de seu maior torturador. A trama toda se desenvolve no embate entre Pauline e o médico, ela afirmando que ele é o seu algoz e ele negando veementemente sê-lo. Invertendo os papéis, Pauline torna-se a algoz daquele que julga seu seu torturador. É um filmaço, Sigourney Weaver dá um banho e o médico é Ben Kingsley, impecável. QUEM QUISER PRESERVAR O DESENROLAR DA TRAMA PARE DE LER OU PULE O PRÓXIMO PARÁGRAFO!

            Na apresentação do personagem do médico, sua doçura, educação, a vida que ele apresenta vemos a dúvida se instaurar no espectador: como aquela pessoa pode ser um torturador tão cruel? Voltamos ao texto de Milgran e aos perigos da obediência: a servidão ao outro autoridade... Sim, o médico era obediente...

            É complexo e paradoxal que uma pessoa de bem, decente, com princípios assuma a posição de um cruel algoz de outro ser humano. Se Stanley Milgran constata essa obediência psicológica, Sigmund Freud complementa a compreensão dessas violências ao afirmar a inerente existência de pulsões antissociais no individuo e a necessidade de contê-las em prol da sociedade.
   
           Em textos como Totem e tabu, Futuro de uma ilusão e Mal estar na civilização podemos encontrar as principais explicações de Freud sobre o sujeito e a cultura.  Resumidamente, Freud explica que a civilização se constrói sobre a renúncia pulsional, a renúncia dos desejos incestuosos, parricidas, homicidas, violentos e etc.

No mito de Totem e tabu Freud supõe uma mítica civilização ancestral parricida e luxuriosa que a partir da instituição do tabu do incesto e da exogamia organiza-se como sociedade construída sobre a lei simbólica. A renúncia desses desejos é o próprio Mal estar na civilização do qual sofre o sujeito, mas que entende que é necessário para sua proteção e sobrevivência na cultura. Mas estes textos, junto com o Psicologia das massas e análise do eu, trazem para o primeiro plano uma figura importantíssima: a figura do líder.

O líder é uma figura fundamental para entendermos a adesão cega, obediência e submissão a uma ideologia ou instituição. Cabe assim nos questionarmos sobre os lideres que promovem essa obediência em nosso momento social.

Amplio assim minha questão para outros lideres que não um governador, prefeito ou presidente, das autoridades como vemos nas situações que relatei da PM ou do torturador do filme, que não as situações somente de violência. Estamos em plena Jornada Mundial da Juventude, com o Papa Francisco participando do evento no Rio de Janeiro, com cerca de dois milhões de inscritos no evento. Manifestações religiosas, manifestações politicas, todas elas seguem o líder, pacificamente.

Como pensar as lideranças em nosso momento histórico, onde a adesão a qualquer movimento parece ser tão impulsiva e frágil, próprio das massas. Como pensar cada sujeito e sua sôfrega necessidade de adesão quando vemos o crescimento absurdo de religiões fundamentalistas, bem como o crescimento de xenofobias, homofobias e outros posicionamentos de grupos contrários a outro grupos em lideranças radicais?

Como nos tornamos tão desejosos de obediências que aderimos cegamente a um líder, seja um chefe de operações do Bope, a um grupo como o Anonymous, a uma religião, replicando mandamentos sem questionar, sem subjetivar?  

Você é obediente?


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