quinta-feira, 31 de março de 2016

Sobre a contratransferência: o psicólogo e o manejo da política na clínica






Na Modernidade Tardia vivemos uma era de incertezas  e de desmoronamento dos valores da Modernidade. Do “sólido” ao “líquido”, como diria o sociólogo Zygmunt Bauman, vivemos a gradativa diluição de certezas, a falência de instituições e da corrosão de ideologias. Esse cenário provoca grande fragilidade no sujeito e suscita uma significativa sensação de desamparo.

Em meio a este panorama global,  a nível nacional vivemos um tenso e conturbado momento político com determinante impacto no cotidiano e na subjetividade hodiernas. Se, de um modo geral, o indivíduo se sente cada vez mais fragilizado e desamparado no mundo de hoje, em nosso país isso parece assumir contornos mais acentuados.

Em contextos como o que vivemos, de desamparo e insegurança, a defesa extrema e radical que alguns sujeitos adotam é a adesão  quase totalitária e fanática a determinados líderes e ideologias. Em meio a uma sensação de se estar a deriva, líderes radicais e “verdades” absolutas servem com uma espécie de bússola e arrebata seguidores desejosos de algo/alguém que lhes traga um rumo ou certeza, de um grande pai absoluto e protetor.

Se observamos esse fenômeno de maneira mundial, vemos esse quadro se acirrar violentamente aqui no Brasil. Adesões quase cegas a polarizações, radicalidades e extremismos na sustentação de argumentos diversos passam a ser uma defesa possível ante à insegurança. Que, repito, assume contornos assustadores no âmbito da política, com difusão a outros âmbitos de nossas vidas. Quanto mais “indefesos” mais os sujeitos radicalizam suas posições sem dialetizar, problematizar  ou questionar sua verdade absoluta e maciça que supostamente lhe ampara.

E como isso a afeta a clínica e o trabalho do psicólogo na condução de uma psicoterapia?  Em minha experiência, de maneira inédita, a crise politico, social, econômica e moral que estamos vivendo vem se tornando uma constante na fala da esmagadora maioria dos analisandos. A partir de diferentes perspectivas as questões políticas - e seus derivados - vem se tornando tema de análise e de muito sofrimento psíquico, seja com a queda de lideranças, seja com a perda da ilusão em diversos âmbitos, seja no desalento com crise que se antevê nos próximos anos/décadas.

Nesse contexto emergem várias questões para o clínico: como manejar esse material sem incorrer em debates que seriam mais adequados em ambientes sociais? Como evitar partidarismos ou defesas pessoais durante uma consulta? Como seguir o Código de Ética dos Psicólogos sem incorrer em subversões? Como extrair desse material – a exemplo de qualquer outro trazido na sessão – aquilo que diz respeito aos sentimentos e ao sofrimento do paciente? E, o mais importante talvez nessa reflexão: como não contratransferir negativamente na clínica?

O Código de Ética é claro quando explica no Art. 2º  que ao psicólogo é vedado: “b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais”. Ou seja, cabe ao psicólogo cuidar da opacidade de sua própria subjetividade na condução de um tratamento psicoterápico no que concerne às suas opiniões pessoais sobre os mais diversos temas.

No método de psicoterapia preconizado pela Psicanálise, Freud concebe a clínica psicanalítica recomendando a neutralidade do psicanalista, postulando que este deveria mostrar o mínimo de si ao paciente, que deveria ser opaco, como um espelho que não mostra/reflete mais ao sujeito do que aquilo que foi por ele apresentado. Freud preocupava-se que a eficiência do manejo do processo analítico pudesse ser comprometida pela contratransferência, que faria obstáculo, atrapalharia à compreensão das questões do paciente.

O psicanalista Roland Chemama no Dicionário de Psicanálise Larousse explica que a contratransferência é um conjunto de reações afetivas conscientes ou inconscientes do analista para com seu paciente, com reconhecido e importante lugar no tratamento psicanalítico. A contratransferência constituiria aquilo que, do lado do psicanalista, poderia perturbar o tratamento.

Essa é uma noção importante e de crucial importância no manejo do método psicanalítico, pois Freud chegou a afirmar em carta a Ludwig Binswanger (segundo Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, no Dicionário de Psicanálise, essa correspondência data de 1913) que este é um dos problemas mais difíceis da técnica psicanalítica. Ou seja, tendo em vista o bem estar do paciente e o sucesso do tratamento psicoterápico, devemos estar extremamente atentos aquilo que no psicólogo ou psicanalista pode interferir/atrapalhar a condução do tratamento, ou seja, atentos à contratransferência.

É claro que um profissional do campo psi tem suas angústias, suas dúvidas, suas inseguranças, ideologias e posicionamentos em relação ao campo do político-social.  Inclusive isso é legitimado pelo código de Ética em seu terceiro princípio fundamental quando afirma que “o psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural.” Ou seja, esta prática clínica  não pode ficar alienada do contexto no qual a psicoterapia se insere, pelo contrário, o psicólogo deve estar antenado no seu entorno político e suas interpenetrações sócio-econômicas-culturais.

O grande desafio é a capacidade do profissional manter a isenção de sua posição política, de ser capaz de - a despeito de suas questões – se manter opaco e privilegiar a fala, o discurso, o desejo, o sofrimento do analisando.

Sabemos que para clinicar devemos estar sustentado no tripé de análise, supervisão e estudo. O profissional tem que passar pelo seu processo analítico e ser conhecedor de suas próprias questões para poder manejar um tratamento já conhecedor de seus “pontos cegos” como diz Freud. A supervisão de um profissional experiente também permite, complementarmente, que o psicanalista possa observar sentimentos contratransferenciais prejudiciais à neutralidade e opacidade necessárias à clínica.

Porém os psicólogos são humanos, independente de sua abordagem teórica, e isso não tem “cura”, digamos assim. Estarmos atentos e dedicados é fundamental para não descuidar da Ética e do juramento feito. Mas e quando o profissional se depara com algo que lhe é insuportável, como agir? Como conduzir o tema com a devida escuta isenta?

Digamos que o paciente na primeira entrevista conte que é pedófilo e descreva o que faz na sua doença com criancinhas. Ou que apareça um sujeito que defende e pratica tortura. Ou então que o sujeito conte como sua vida é construída sobre roubo e corrupção. Será que o psicólogo tem que trabalhar a sua contratransferência ou aceitar suas restrições morais e pessoais a determinado tipo de demanda clínica? Passemos então para exemplos mais próximos de nossa reflexão: e se o incômodo se relacionar à uma ideologia política?

Recentemente saiu nos noticiários que uma médica brasileira declinou atender em seu consultório pediátrico uma criança cujos pais possuem uma visão politico-partidária diferente da sua. Vale ressaltar que a médica não estava em exercício numa emergência ou plantão e que ela não incorreu nem em falta de Ética ou falta de profissionalismo ao recusar o atendimento nesse contexto. Ela declinou atender a criança e se reservou ao direito de recusar um paciente no seu consultório. Direito que lhe é facultado. Naturalmente que essa conduta vem gerando muita discussão, a favor ou contra.

Seguindo esse questionamento: pode/deve um psicólogo declinar atender um paciente cujo o posicionamento político lhe incomoda/desagrada/ofende logo nas primeiras entrevistas? Pode/deve esse profissional encaminhar , já em atendimento, esse caso para um outro colega?

Claro que vale analisar inicialmente o quanto do insuportável da diferença é uma questão mal resolvida para este profissional. Ou o quanto este profissional se depara com algo além ou aquém de seus limites ou disponibilidade. Mas, por outro lado, não seria muito mais ético e profissional o psicólogo reconhecer suas limitações na condução correta desse tratamento e fazer um encaminhamento para outro profissional?

Afinal, não é da responsabilidade do psicólogo admitir e lidar com suas restrições, limitações, ideologias e desejos de forma Ética e seguir assim o Art. 1º do Código profissional que preconiza como  deveres fundamentais “b) Assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as quais esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente”?

Como explica o psicanalista Donald Winnicott, na contratransferência os aspectos “neuróticos” do analista minam as atitudes profissionais e perturbam o curso do processo analítico. Se o “pessoal” do analista passa a afetar o tratamento cabe a ele, em sua própria análise e supervisão, saber como se posicionar eticamente, tanto no pessoal como no profissional, com respeito e reconhecimento da alteridade, da diferença e da democracia. E de lidar com seus limites narcísicos...