Na Modernidade Tardia vivemos uma era de incertezas e de
desmoronamento dos valores da Modernidade. Do “sólido” ao “líquido”, como diria
o sociólogo Zygmunt Bauman, vivemos a gradativa diluição de certezas, a
falência de instituições e da corrosão de ideologias. Esse cenário provoca
grande fragilidade no sujeito e suscita uma significativa sensação de
desamparo.
Em meio a este panorama global, a nível nacional vivemos um
tenso e conturbado momento político com determinante impacto no cotidiano e na
subjetividade hodiernas. Se, de um modo geral, o indivíduo se sente cada vez mais
fragilizado e desamparado no mundo de hoje, em nosso país isso parece assumir
contornos mais acentuados.
Em contextos como o que vivemos, de desamparo e insegurança, a defesa
extrema e radical que alguns sujeitos adotam é a adesão quase
totalitária e fanática a determinados líderes e ideologias. Em meio a uma
sensação de se estar a deriva, líderes radicais e “verdades” absolutas servem
com uma espécie de bússola e arrebata seguidores desejosos de algo/alguém que
lhes traga um rumo ou certeza, de um grande pai absoluto e protetor.
Se observamos esse fenômeno de maneira mundial, vemos esse quadro se
acirrar violentamente aqui no Brasil. Adesões quase cegas a polarizações,
radicalidades e extremismos na sustentação de argumentos diversos passam a ser
uma defesa possível ante à insegurança. Que, repito, assume contornos assustadores
no âmbito da política, com difusão a outros âmbitos de nossas vidas. Quanto
mais “indefesos” mais os sujeitos radicalizam suas posições sem dialetizar,
problematizar ou questionar sua verdade absoluta e maciça que
supostamente lhe ampara.
E como isso a afeta a clínica e o trabalho do psicólogo na condução de
uma psicoterapia? Em minha experiência, de maneira inédita, a crise
politico, social, econômica e moral que estamos vivendo vem se tornando uma
constante na fala da esmagadora maioria dos analisandos. A partir de diferentes
perspectivas as questões políticas - e seus derivados - vem se tornando tema de análise e de muito
sofrimento psíquico, seja com a queda de lideranças, seja com a perda da ilusão em diversos âmbitos, seja no desalento com crise que se antevê nos próximos
anos/décadas.
Nesse contexto emergem várias questões para o clínico: como manejar esse
material sem incorrer em debates que seriam mais adequados em ambientes
sociais? Como evitar partidarismos ou defesas pessoais durante uma consulta?
Como seguir o Código de Ética dos Psicólogos sem incorrer em subversões? Como
extrair desse material – a exemplo de qualquer outro trazido na sessão – aquilo
que diz respeito aos sentimentos e ao sofrimento do paciente? E, o mais
importante talvez nessa reflexão: como não contratransferir negativamente na
clínica?
O Código de Ética é claro quando explica no Art. 2º que ao
psicólogo é vedado: “b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais,
ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de
preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais”. Ou seja, cabe
ao psicólogo cuidar da opacidade de sua própria subjetividade na condução
de um tratamento psicoterápico no que concerne às suas opiniões pessoais sobre os mais diversos temas.
No método de psicoterapia preconizado pela Psicanálise, Freud concebe a
clínica psicanalítica recomendando a neutralidade do psicanalista, postulando
que este deveria mostrar o mínimo de si ao paciente, que deveria ser opaco,
como um espelho que não mostra/reflete mais ao sujeito do que aquilo que foi
por ele apresentado. Freud preocupava-se que a eficiência do manejo do processo
analítico pudesse ser comprometida pela contratransferência, que faria
obstáculo, atrapalharia à compreensão das questões do paciente.
O psicanalista Roland Chemama no Dicionário de Psicanálise Larousse
explica que a contratransferência é um conjunto de reações afetivas conscientes
ou inconscientes do analista para com seu paciente, com reconhecido e
importante lugar no tratamento psicanalítico. A contratransferência constituiria
aquilo que, do lado do psicanalista, poderia perturbar o tratamento.
Essa é uma noção importante e de crucial importância no manejo do método
psicanalítico, pois Freud chegou a afirmar em carta a Ludwig Binswanger
(segundo Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, no Dicionário de
Psicanálise, essa correspondência data de 1913) que este é um dos problemas
mais difíceis da técnica psicanalítica. Ou seja, tendo em vista o bem estar do paciente e o sucesso do tratamento psicoterápico, devemos estar extremamente
atentos aquilo que no psicólogo ou psicanalista pode interferir/atrapalhar a
condução do tratamento, ou seja, atentos à contratransferência.
É claro que um profissional do campo psi tem suas angústias, suas
dúvidas, suas inseguranças, ideologias e posicionamentos em relação ao campo do
político-social. Inclusive isso é legitimado pelo código de Ética em
seu terceiro princípio fundamental quando afirma que “o psicólogo atuará com
responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade
política, econômica, social e cultural.” Ou seja, esta prática clínica não
pode ficar alienada do contexto no qual a psicoterapia se insere, pelo
contrário, o psicólogo deve estar antenado no seu entorno político e suas
interpenetrações sócio-econômicas-culturais.
O grande desafio é a capacidade do profissional manter a isenção de sua
posição política, de ser capaz de - a despeito de suas questões – se manter
opaco e privilegiar a fala, o discurso, o desejo, o sofrimento do analisando.
Sabemos que para clinicar devemos estar sustentado no tripé de análise,
supervisão e estudo. O profissional tem que passar pelo seu processo analítico
e ser conhecedor de suas próprias questões para poder manejar um tratamento já
conhecedor de seus “pontos cegos” como diz Freud. A supervisão de um
profissional experiente também permite, complementarmente, que o psicanalista
possa observar sentimentos contratransferenciais prejudiciais à neutralidade e
opacidade necessárias à clínica.
Porém os psicólogos são humanos, independente de sua abordagem teórica,
e isso não tem “cura”, digamos assim. Estarmos atentos e dedicados é
fundamental para não descuidar da Ética e do juramento feito. Mas e quando o
profissional se depara com algo que lhe é insuportável, como agir? Como
conduzir o tema com a devida escuta isenta?
Digamos que o paciente na primeira entrevista conte que é pedófilo e
descreva o que faz na sua doença com criancinhas. Ou que apareça um sujeito que defende e pratica tortura. Ou então que o sujeito conte como sua vida é
construída sobre roubo e corrupção. Será que o psicólogo tem que trabalhar a
sua contratransferência ou aceitar suas restrições morais e pessoais a
determinado tipo de demanda clínica? Passemos então para exemplos mais próximos
de nossa reflexão: e se o incômodo se relacionar à uma ideologia política?
Recentemente saiu nos noticiários que uma médica brasileira declinou
atender em seu consultório pediátrico uma criança cujos pais possuem uma visão
politico-partidária diferente da sua. Vale ressaltar que a médica não estava em
exercício numa emergência ou plantão e que ela não incorreu nem em falta de
Ética ou falta de profissionalismo ao recusar o atendimento nesse contexto. Ela
declinou atender a criança e se reservou ao direito de recusar um paciente no
seu consultório. Direito que lhe é facultado. Naturalmente que essa conduta vem
gerando muita discussão, a favor ou contra.
Seguindo esse questionamento: pode/deve um psicólogo declinar atender um
paciente cujo o posicionamento político lhe incomoda/desagrada/ofende logo nas
primeiras entrevistas? Pode/deve esse profissional encaminhar , já em
atendimento, esse caso para um outro colega?
Claro que vale analisar inicialmente o quanto do insuportável da
diferença é uma questão mal resolvida para este profissional. Ou o quanto este
profissional se depara com algo além ou aquém de seus limites ou
disponibilidade. Mas, por outro lado, não seria muito mais ético e profissional
o psicólogo reconhecer suas limitações na condução correta desse tratamento e
fazer um encaminhamento para outro profissional?
Afinal, não é da responsabilidade do psicólogo admitir e lidar com suas
restrições, limitações, ideologias e desejos de forma Ética e seguir assim o
Art. 1º do Código profissional que preconiza como deveres
fundamentais “b) Assumir responsabilidades profissionais somente por atividades
para as quais esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente”?
Como explica o psicanalista Donald Winnicott, na contratransferência os
aspectos “neuróticos” do analista minam as atitudes profissionais e perturbam o
curso do processo analítico. Se o “pessoal” do analista passa a afetar o
tratamento cabe a ele, em sua própria análise e supervisão, saber como se
posicionar eticamente, tanto no pessoal como no profissional, com respeito e
reconhecimento da alteridade, da diferença e da democracia. E de lidar com seus
limites narcísicos...

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