sábado, 12 de agosto de 2017

SOBRE (ALGUMAS) MÃES E O DIA DOS PAIS

Baby, de Gustav Klimt, 1917
Ontem fui buscar meus filhos na escola – sexta é o único dia da semana que consigo fazê-lo e faço questão desse momento. Coincidentemente foi o dia da comemoração do dia dos pais na escola.

Chego a escola e encontro muitos pais saindo da comemoração com seus filhos, cartões, cartazes, presentes e .... com  a mãe das crianças. Muitas mães, mesmo, saindo com os pais. 

Um dos pais me cumprimenta, aponta para a esposa e comenta comigo, brincando,  “essas mães querem estar em todas”. Como diz o ditado, é brincando que se fala a verdade...

Uma mãe passa e pergunta porque eu não fui na comemoração, explico que estava trabalhando – não é bem isso mas não vou polemizar com aquela simpática mãe tão contentinha que filou a festa do dia dos pais. Trata-se principalmente de respeitar um momento de paternidade, pois a data não era para celebrar a maternidade, mas enfim...

Enquanto aguardo comento com uma querida professora que estava ali na entrada da escola que estava impressionada com o número de mães no festejo da data da escola e a professora – que eu saiba tem pelo menos 15 anos de sala de aula - me responde “é engraçado que as mães querem todas vir na comemoração dos pais, mas pai nunca vejo em comemoração do dia das mães, só em casos excepcionais”.

A situação aparentemente parece bem bacana, louva a participação em um evento familiar e tem um lado positivo da integração familiar  mas, por outro lado, aponta também para um fato que observo como bastante nocivo em alguns casos: a onipresença da mãe na vida criança e sua invasão na relação da criança com o seu pai.

E traz à cena uma danosa modalidade de maternidade, digamos assim, de mães que frequentemente se consideram indispensáveis para seus filhos e desqualificam e invalidam qualquer outra relação que a criança estabeleça que não seja com elas inseridas. E assim essa mãe tem que participar de tudo na vida da criança, inclusive de espaços que não lhe são próprios e que ela invade.

Sabemos o quão fundamental, primordial, constitutiva e necessária é essa relação mãe/bebê, mas sabemos também que para essa criança se desenvolver de maneira saudável essa mãe deve “desgrudar” gradativamente do filho(a) para permitir que ele/ela possa desenvolver a sua própria subjetividade, desejos e etc. Com o tempo é necessário que a criança possa ter seu próprio espaço e experimentalmente ir criando seu próprio limite emocional e corporal que a constitui e a define.

Para isso é importante que o pai - ou um “terceiro”  da relação como diz a Psicanálise - possa entrar para “ separar” esse dupla fundida da relação mãe/bebê. Esse terceiro “liberta” a criança da presença maciça, unívoca e onipresente da figura materna devoradora. Esse terceiro permite que a/o bebê possa advir como um sujeito.

Mas para que um “terceiro” possa entrar nessa relação – e esse terceiro pode ser o pai, pode ser o nascimento de um outro filho, pode ser o trabalho, enfim, simbolicamente seria qualquer outro objeto de libido da mãe – essa mãe tem que permitir, essa mãe tem que se afastar e dar esse espaço para entrarem outros objetos possíveis com os quais a criança possa se relacionar e interagir.

Ou seja, essa separação tem que ser trabalhada e construída pela mãe para o bem da criança, mas muitas mães com sua onipotência, narcisismo e vaidade pensam que o ”bem” da criança está depositado todo em sua magnífica e exclusiva presença.

Essa construção da onipotência de determinadas mães é traçada a partir de sua história pessoal, de suas experiências na filiação de seus pais, pelos discursos do entorno, determinações da cultura e assim como pela escolha do parceiro nessa empreitada.  E ensejam a constante desqualificação da figura do pai, que nesse tipo de contexto acaba sendo conotado como aquele incapaz de cuidar, amar, zelar pelo seu filho/filha.

Vou dar um exemplo que escutei na clínica na semana passada, quando chega ao consultório uma gestante recomendada pela sua obstetra para um acompanhamento terapêutico, pois está tendo crises hipertensivas de fundo emocional. Com mais de 30 semanas de gestação adentra na sala uma primípara de quase 40 anos, segura, independente, bem sucedida que pontua que quer basicamente manejar o estresse do final da gravidez para manter baixa a pressão arterial.

Lá pelas tantas ela começa a descrever como será o pós parto, como ela terá que cuidar do filho, amamentar, colocar para arrotar, trocar fraldas, dar banho,  e etc acrescentando que como o pai do filho é muito desajeitado e bagunceiro ela  “sabe” que terá que fazer tudo sozinha pois “ele não vai saber nada”. Detalhe, essa mulher ama e admira o seu marido, vale destacar.

Trago esse caso para ilustrar como uma mulher que nunca foi mãe e nem conviveu com crianças já assume um lugar de domínio total sobre um contexto fantasístico no qual – antes mesmo do filho nascer – essa mãe já previamente desqualifica o pai de seu filho antes mesmo de conhecer seu desempenho na função paterna, já profetizando que ele será um pai incompetente que não será capaz de cuidar do filho do casal.   E o que se rascunha nesse exemplo é uma potencial mãe onipotente e narcísica que esvazia e deprecia qualquer outro que não seja ela mesma como suporte e amparo de seu bebê/criança. Esse “desenho final” do pai incompetente vai ser finalizado – ou não, espero eu – no decorrer da infância dessa criança.

Quero problematizar aqui o quanto vários discursos correntes que desqualificam e subestimam o papel dos pais na criação dos filhos são oriundos de falas maternas, falas que não são capazes de dar ao pai um lugar que ele possa ocupar e criar de acordo com sua maneira de ser e de existir, no seu formato e singularidade.

São mães que somente aceitam que os pais sejam subalternos e coadjuvantes em suas maternidades, hierarquizando a paternidade como menor, inferior. São pais que não podem vestir os filhos a partir de sua concepção de vestuário,  por exemplo, pois a mãe vai dizer que ele escolheu errado a roupa, o calçado, o penteado. Como esse pai vai poder aprender e criar sua própria forma de cuidar – como a mãe o fez – se não lhe é permitido o desempenho de suas funções?

Essas mães onipotentes e narcísicas são médicas, são  vendedoras de loja, são professoras.  E levam para o exercício de suas funções esse mesmo olhar desqualificante que perpetua a desqualificação e incapacidade dos homens serem pais.

Vou dar um exemplo disso.  Devido à clínica e à docência sempre trabalhei em horários que estendem a minha jornada de trabalho do horário convencional.  Durante os primeiros anos de vida de meus filhos lecionava Psicologia em turmas diurnas e noturnas de uma faculdade particular, sendo que a aula da noite ia ate 22h. Desta maneira era frequente que o meu marido e pai de meus filhos sempre chegasse antes de mim em casa, sendo assim o primeiro a encontrar as crianças e acolher suas necessidades.

Com raras exceções nesses primeiros anos era frequente ser o pai quem ia ao pronto socorro pediátrico e, de todas as vezes em que ele foi, não teve nenhuma ocasião na qual não lhe fosse perguntando ou que fosse perguntado a criança “onde está a sua mãe?”.  A mesma pergunta que pediatras e outras especialidades faziam ao pai de meus filhos em tratamento ambulatorial. Eu - quando levava nossos filhos - nunca ouvi de nenhum desses especialistas a pergunta “onde está o pai?” Acho que isso fala um pouco de nossa cultura, ao invés de ser louvado que um pai está cuidando de seus filhos, sempre existe um apontamento que quem “deveria” estar lá – a mãe - não está ...

Que fique claro que grande parte do espaço que a essa mãe narcísica e onipotente da qual estou falando ocupa é permitido/consentido/desejado por muitos pais. Muitos pais usufruem dessa onipotência materna para sequer se engajar minimamente em suas funções. Mas esse é um outro tema que em um outro momento conversaremos.

Nesse momento quero pensar como algumas mães – e muitas delas tenho certeza que não se dão conta do desserviço que fazem e pensam que estão fazendo o melhor para todos – acabam assumindo um lugar onipresente e aprisionam filhos/filhas em uma relação de poder e supremacia que aprisionam não somente os filhos, como os pais e a elas mesmas em situações de dependência e sofrimento que perduram a vida inteira.

Tendo como base o adágio romano “mater semper certa est, pater semper incertus est” outorgou-se um gigantesco poder para a mãe, para o bem e para o mal, – que acarretou ganhos e perdas para a mulher e para o homem nesse processo. Fazendo um trocadilho besta, depois do DNA a paternidade não é mais incerta e sabemos exatamente quem é a mãe e quem é o pai.

Novos tempos, novas ofertas tecnológicas e sociais, novas configurações familiares ensejam novas formas de ser homem e ser mulher, assim como a construção de papéis como ser pai e mãe vem sendo reconfigurados ao longo da história.

Que possamos construir maternidades e paternidades plurais, mais saudáveis, prazerosas e parceiras.   

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