O Big Brother
Brasil está em sua 12ª edição, desconheço os números do Ibope e a audiência,
mas o fato que o programa ainda tem fôlego e público. Na verdade esse tipo de
programa vem se multiplicando em variações sobre o mesmo tema tanto no Brasil
quanto no exterior.
Contando com
participantes anônimos ou com pessoas conhecidas através da mídia, os realities shows se multiplicam, monitorando
grupos de pessoas confinadas em um determinado ambiente ou outras pessoas cujas
vidas são acompanhadas pelas câmeras em seu cotidiano: viciados, anões, obesos,
noivas, famílias, etc.
A recente “polêmica”
do programa – que obviamente alavancou a audiência – foi por conta de um dos participantes
ter cometido atos sexuais com uma moça desacordada pela excessiva ingestão de
bebida. De inédito na repercussão do
episódio aponto o poder das redes sociais e seu impressionante poder de
mobilização e repercussão - que culminou na expulsão do rapaz do programa. Esse
foi um grande diferencial na mobilização ante uma ocorrência dentro da “casa” devido
ao poder multiplicador das redes.
Não quero aqui
explorar o tema BBB e abuso, pois envolve muitos elementos complexos e como não
assisto o programa não sou uma comentadora competente ou abalizada. Mas sabe-se
que o BBB é um programa com roteiro e edição, existe direção, elenco escolhido,
patrocinadores. Sabe-se, pelas edições anteriores, que o álcool é estimulado de
modo a permitir mais “ação”, com o nível de censura dos participantes nocauteado
pela droga. Sabe-se também que o sexo - apelo poderoso em nossa cultura - é um
mote bastante explorado no BBB.
Homens e
mulheres são expostos como mercadorias sexuais - vi uma chamada em um site de
notícias dizendo que fulana e fulana hoje conversavam sobre posarem nuas depois
do programa – acho que isso já ilustra o “tom” do programa. Não assisti essa
edição, mas de uma maneira geral parece um açougue, com as carnes em exposição
em closes ginecológicos. Quem se inscreve para participar do programa sabe do
que se trata. E quem assiste também. E isso é livre arbítrio.
Essa breve
descrição é para esboçar o cenário onde ocorreu o abuso. Fica difícil filtrar
isso tudo sem a manipulação do canal e o poder da massa pressionando, não
sabemos o todo do ocorrido, talvez no pay
per view, mas ainda assim acho que devemos manter cuidado nos julgamentos.
Mas acho estranho que os telespectadores só tenham “percebido” isso agora,
depois de tantas edições e repetições similares. O programa é mesmo um abuso ao
telespectador, é sobre isso que se sustenta o programa, mas essa é outra
discussão...
Claro fique
que, independente do cenário, abuso
sexual ou estupro é uma coisa muito séria que deve ser denunciada e
criminalizada. Acho também muito grave que a mulher continue sendo acusada por
todos os pecados relacionados ao sexo - desde Eva que o feminino carrega essa
pecha! O homem ainda é uma pobre vítima, um Adão engendrado nos ardis da Eva
pecadora.
Sem dúvida que
a moça bolinada não é inocente sobre o significado de participar do BBB, de se
embriagar até chapar e etc, mas não pode ser culpada por incitar um abuso, isso
é retrocedermos violentamente em todas as conquistas que as mulheres penaram
para conseguir em séculos de opressão.
Na verdade, todo
esse preâmbulo sobre o BBB foi para falar sobre o fascínio que estes programas exercem
sobre o público. Sem juízo de valores,
acho importante refletirmos o que leva o ser humano a assistir apaixonadamente
esses programas, independente de faixa etária, sexo, nível de instrução, poder
aquisitivo, religião ou afiliação política.
A democracia
sustenta que somos livres para que possamos fazer nossas escolhas na sociedade
sejam elas quais forem. A TV a cabo incrementou o espectro de escolhas de
canais, a internet criou um novo universo a ser explorado, DVDs de filmes e
músicas, livros e outras inúmeras atividades estão disponíveis ao sujeito. Mas as
pessoas escolhem assistir avidamente esses realities
shows.
Em outra
linha, mas com um fundamento semelhante, se multiplicam noticiários que
exploram longa e exaustivamente casos policiais ou dramas de vida real na
televisão aberta. Existe um vasto público que consome esses programas. Ainda em
outra perspectiva de análise, consumimos também muitas novelas, um de nossos
canais exibe cerca de cinco por dia! São vidas e histórias que arrebatam o amor
e o ódio do telespectador, que vive aquelas ficções intensamente, como fossem reais
ou como se fizessem parte de suas vidas.
Tem um filme
que gosto muito, “O show de Truman”, com o Jim Carrey, que ilustra muito bem
esse fascínio em viver a vida alheia. Nesta ficção um bebê é adotado pelo
diretor/produtor de um reality show e
colocado no cenário de uma cidade fictícia, onde todos – família, amigos, moradores
- são atores contratados. A vida do personagem desde o “nascimento“, infância, adolescência
até a adultez é televisionada e compartilhada com os telespectadores. Vale
assistir e atentar para o comportamento dos telespectadores ao final do filme,
sem estragar surpresas para quem não assistiu.
Mas qual a
função que estes programas assumem na vida do telespectador? Entretenimento
apenas? O que será que o telespectador quer/precisa ver nesses programas? Voyeurismo
e exibicionismo são faces de um mesmo desejo... O que irá ser desvendado nessa
espiadinha voyeur que somos convidados a fazer?
Chego assim a
uma frase que me veio à cabeça, de Adriana Calcanhoto, em uma música que diz “eu
vejo tudo em quadrado, remoto controle”.
É algo dessa “vida em quadrado”, no monitor da televisão ou do
computador que fico pensando que reside o fascínio de viver projetivamente a
vida dos outros, dramas, sucessos, fracassos, amores, sexualidade, torcer,
vibrar, viver de alguma maneira uma outra vida. E também, quiça, ilusoriamente manipular
e controlar as dinâmicas e mistérios da vida.
A idéia da
tragédia grega com sua função catártica e identificatória – tão bem analisada
por Freud na leitura do “Édipo Rei” de Sófocles e do desejo parricida de cada
espectador no drama de Édipo/Laio/Jocasta–
permite que possamos compreender a nossa identificação com as ficções e com os realities shows. Vivemos pelo “quadrado” a vida alheia com
controle, controle remoto e remoto controle.
Inspirada
por outra cena, de um filme meio trash,
“Invasão de privacidade” que tem Sharon Stone como protagonista, ela descobre
que foi morar em um apartamento monitorado pelo proprietário de todo prédio, um
voyeur com quem se envolve. O filme vale unicamente pela última cena, na qual
Sharon se volta para a câmera, aponta o controle remoto em nossa direção e
diz “get
a life!”. E fim. Tradução livre: viva/tenha uma vida.
Get a life...

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