domingo, 27 de novembro de 2011

DEMÊNCIA E O LUTO DE CORPO PRESENTE


Rola uma piadinha na internet atribuída a Drauzio Varela que as pessoas viverão cada vez mais com suas próteses de silicone e se entupindo de Viagra, mas quando chegar o Alzheimer vão se perguntar: “mas para quê serve isso mesmo”? 


Começo com essa piada tragicômica para que possamos refletir como a preocupação em nossa cultura se volta majoritariamente para o externo, para aquilo que é aparente no envelhecimento físico do indivíduo, sem o mesmo afinco e dedicação ao problematizar aquilo que concerne ao funcionamento interno do sujeito humano.


Falei anteriormente sobre o envelhecimento e agora quero me dedicar a pensar sobre as vicissitudes do envelhecimento, especificamente no que concerne à memória e as perdas diversas aí envolvidas. Uma vez que o indivíduo contemporâneo  está vivendo mais do que em qualquer outro tempo da história, começamos agora de maneira mais intensa e inegável a nos deparar com o declínio do funcionamento mental advindo das diversas formas de demências que se apresentam.


Cada vez mais se prolonga a qualidade de vida, com os novos recursos da medicina, com a contribuição de outras ciências e com a informação que o sujeito passou a possuir sobre seu funcionamento como um todo. Esses fatores aliados aumentaram em muito a expectativa de vida. Para termos idéia dessa transformação,  hoje a expectativa de vida do brasileiro é de 73 anos de idade, índice que varia conforme as condições de vida de cada lugar – no caso somos o 8oº no ranking mundial  - mas é um número impressionante se levarmos em conta que no ano de 1900 a expectativa de vida era de  33 anos!


Se antes no ocaso da vida, hoje os indivíduos na terceira década de vida são jovens que ainda elaboram questões de identidade típicas da adolescência em relação à profissão, a vida amorosa, a sexualidade. Muitos destes ainda permanecem com suas vidas ainda referidas e atreladas à sua família de origem, como a chamada “geração canguru” exemplifica muito bem. Em outro momento iremos conversar sobre esse fenômeno, tema interessantíssimo para retomarmos. 


Por exemplo, se há bem pouco tempo a mulher com 50/60 anos era vista como uma senhora, possível avó, cujo destino seria fazer tricô e cuidar dos netos , hoje observamos estas mulheres em plena atividade e se descolando da imagem de anciã. Figuras públicas como a cantora Madonna ou apresentadora Ana Maria Braga mostram como a despeito da passagem do tempo permanecem joviais, femininas, ativas, produtivas, sexuais. A nossa visão de juventude e da própria vida útil e prazerosa vai assim se estendendo.


Por um lado, parece que vivemos uma espécie de “rejuvenescimento” das faixas etárias, pois com o aumento da longevidade humana observamos uma transformação na visão das idades, das expectativas e dos estigmas até então relacionados a estas faixas.


Por outro lado, essa longevidade física proporciona o surgimento das transformações e  declínio do corpo, pois o tempo e a degeneração caminham em sua marcha inexorável e embora possamos postergar, a velhice necessariamente chega e com ela algumas perdas . Aquela mais grave e irreversível – ao meu ver - se refere ao nosso funcionamento mental, particularmente com a chegada da perda de memória e de identidade que acompanham as demências, antigamente conhecidas popularmente pelo abrangente nome de “esclerose”.


Palavra estigmatizada e utilizada pejorativamente, a esclerose foi até bem pouco tempo um “saco de gatos” onde se depositava toda a sorte de doenças degenerativas ligadas à idade, memória, esquecimentos, confusões mentais.


Hoje a evolução da medicina, da neurologia, dos recursos tecnológicos – tomografias, mapeamentos e etc -, vem permitindo a sofisticação de diagnósticos e ajudando a construir quadros nosográficos mais precisos, favorecendo a terapêutica medicamentosa e o tratamento das doenças. Discernir o mal de Alzheimer de uma demência por múltiplos enfartos, or exemplo, torna-se um diferencial no acolhimento e no trato do sofrimento que daí advém.


Esse sofrimento atinge aquele vai demenciando, sem dúvida, mas afeta principalmente os seres queridos do entorno do sujeito que pouco a pouco vai perdendo suas faculdades mentais. Se para o sujeito acometido pela doença, a perda da memória e o desligamento do mundo externo torna-se uma “benesse” que poupa o sujeito de um sofrimento maior, aqueles no entorno do demenciado não são poupados. E quando a doença se inicia vem junto com este processo um dificílimo trabalho daquilo que chamo de um “luto de corpo presente”.


Quero dizer com isso que a pessoa de nosso afeto que conhecemos está ali fisicamente: é seu rosto, sua voz, sua risada, seu cheiro, seu modo de sentar e outras tantas características que fazem parte de uma pessoa. Mas, pouco a pouco, com as dispersões, as ausências, as perdas de memória, as perdas cognitivas – que afetam a forma de caminhar, de raciocinar, de se recordar de um vocabulário para se comunicar – a pessoa que até então conhecemos começa a se transformar quase em um estranho. E é nesse momento que começa para a gente um processo de luto, de perda e de manejo do fim de um modo de relação que até então tínhamos com esta pessoa. Temos assim que reinventar este relacionamento, quase que construir uma nova relação com alguém que conhecemos de longa data.


Com as perdas neuronais, perda da massa cinzenta, a própria pessoa vai se distanciando daquilo que foi. Se somos constituídos por nossas vivências através de nossas memórias afetivas e de nossa história, essa perda implica que a nossa identidade aí se perca também. O demente não reconhece sua casa, seus filhos, seus netos, não sabe se almoçou, não se interessa em se banhar, em ler o jornal que tanto gostava, em acompanhar a novela tão ansiada anteriormente...


São gradações e quadros diferentes, mas tenho a impressão que existe uma benéfica alienação e ausência de consciência que deixa pouquíssimo espaço para o sofrimento do próprio sujeito, que costuma ser pontual até desaparecer com a evolução da doença. O sofrimento lúcido e cotidiano acaba sendo travado por aquele que vai se despedindo diariamente de alguém que não ocupa mais o corpo outrora habitado pelo seu afeto.


Sentimentos como negação, frustração, raiva, incompreensão são algumas das vivências comuns à dor desse luto por alguém que vamos perdendo em vida. Manejar a relação com alguém de seu afeto que horas de nada se lembra na alternância com outros momentos - que vão se tornando cada vez mais raros - de lucidez é mesmo angustiante. Sofremos com essa perda e temos que elaborar nosso luto por alguém cujo o corpo se encontra presente, mas cuja mente começa a se ausentar.


Faz parte da condição humana, mas talvez este se transforme em um dos grandes males que tenhamos que enfrentar em relação ao envelhecimento. Sabemos que a indústria farmacêutica/cosmética cada vez mais investe em produtos que otimizam o desempenho físico e aparência do ser humano na performance. Mas o investimento no cérebro, no intelecto, no domínio das faculdades mentais?


São muitos ainda os mistérios e é soberba a evolução da  medicina, muitas contribuições daí virão. Mas o desafio maior talvez seja individual e intransferível: o cuidado, o zelo por um de nossos bens mais preciosos que é a nossa memória e a nossa capacidade de historicizar, narrar, compartilhar a nossa existência.

2 comentários:

  1. Luto é um período necessário mas luto em vida é bem pior. Certo que um dia todos vamos morrer mas morrer "em vida" é ruim para quem assiste. O estágio inicial da Doença de Alzheimer deixa o doente confuso pois ainda percebe a falência de seu cérebro e como a natureza é sábia, aos poucos vais afastando-o desse sofrimento. Mas, quem cuida, que fica diariamente com o indivíduo, sim pois o sujeito ali "já era", se for familiar... sofre muito.
    Mas li que há luz no fim do túnel. Cientistas já estão descobrindo técnicas que poderão aliviar esse sofrimento. Tomara seja verdade. Dá só uma olhada: Alzheimer revertida pela primeira vez
    coisadevelho.com.br
    Bj
    Avany

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  2. Obrigado pela dica, Avany! Esse luto em vida do qual vc fala é bastante sofrido sim. Mas lembraste bem do trabalho de luto necessário e inerente a todos nós em momentos diversos de nosso desenvolvimento... Grande abraço!

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