Para compreender um pouco o mito do amor em nossa cultura e a busca da cara metade, da metade da laranja, do chinelo velho para o pé cansado, da cama para o corcunda se deitar, da tampa da panela e outras metáforas que falam do amor como uma relação complementar, creio que temos que remontar ao célebre livro de Platão escrito cerca de 380 a.C.
É em um dos diálogos de O Banquete que Aristófanes discursa que para conhecer um deus tão poderoso como Eros devemos conhecer primeiro a natureza do amor e o mito de nossa unidade primitiva. Dessa maneira, ele inicia seu diálogo apresentando os seres proto-humanos Andros, Gynos e Androgynos.
Andros seria a entidade masculina composta de oito membros (braços e pernas) e duas cabeças, ambas masculinas, Gynos entidade feminina mas com características semelhantes de dois seres femininos fundidos e Androgynos seria metade masculino, metade feminino. Segundo Aristófanes, eles desagradaram os deuses - pois se bastavam em si mesmos - que então os separou em dois, pela metade para assim enfraquecer seus poderes. De Andros, originaram-se dois homens com seus corpos agora separados mas com suas almas ligadas e mutuamente atraídos um pelo outro . E o mesmo se sucederia com Gynos - na separação das duas metades femininas - e com Androgynos - formando um metade homem e a outra mulher.
Esse mito foi disseminado de tal maneira na cultura que encontramos um fudamento semelhante em nossa representaçaõ social do amor romântico. A nossa cultura é atravessada por esta idéia de um (re) encontro com a nossa “alma gêmea” em best sellers que vendem milhões de exemplares ao ensinar como favorecer este reencontro e reconhecer a sua metade. Nesta e em outras vidas.
Da mesma maneira, novelas, filmes, livros são impregnados e reproduzem esta idéia da busca de sua cara metade. Causa grande fascínio que cinquenta anos depois contos e filmes da Branca de Neve, a Bela Adormecida, a Cinderela ou Rapunzel façam tamanho sucesso com suas cópias remasteurizadas pela Disney em seus relançamentos. A espera do príncipe ou prinesa encantada predestinados é o mote dessas fábulas. Vale lembrar que Walt Disney modificou as histórias originais de maneira a construir esse mito, pois sabemos que os contos originais são bem mais trágicos, conforme conhecemos nos originais dos irmãos Grimm por exemplo.
O fato é que, décadas depois, continuamos reproduzindo os mesmos mitos para as nossas crianças: da felicidade relacionada a um encontro amoroso e de que no final você – a despeito de todos os obstáculos – encontra o seu par. Ou variações do mesmo tema, pois sempre achei que o filme “Uma linda mulher” com Julia Roberts era uma versão adulta e prostituída de Cinderela...
E assim, décadas, séculos se passam e cada um de nós parece fadado a passar a sua existência buscando a sua metade amputada. Na psicanálise encontramos uma idéia semelhante de uma completude anterior que teria sido rompida e autores diversos vão enfocar diferentes ângulos, embora subsista a idéia da falta, da incompletude, da promessa de um reencontro com outro que em algum momento já completou o sujeito.
Otto Rank sustenta a idéia da existência de um “trauma do nascimento”, conceito com o qual explica que o ato de nascer é traumático fisica e psiquicamente, devido à expulsão de um universo intra-uterino feliz e livre de conflitos. Rank afirma que alguns indivíduos neuróticos vivenciariam esse trauma do nascimento de uma maneira mais intensa que os demais.
Freud discordava de Rank, afirmando que ao nascer o infante não possuiria a discriminação de si e de um objeto, de tal maneira que não existiria a falta. Aliás, o privilégio que Rank dava ao trauma do nascimento em detrimento do conflito edipico foi motivo de ruptura entre eles. Mas Donald Winnicott vai discordar da idéia ano-objetal freudiana e afirmar que o bebê pode não possuir recursos simbólicos para traduzir sua relação objetal com a mãe, mas por outro lado, ele só existe na relação com a mãe. Winnicott concebe a “capacidade de estar só” - em texto homônimo - como a possibilidade de discriminação e constituição subjetiva rumo à maturidade do indivíduo.
Vemos em Rank e em Winnicott a idéia de uma existência vinculada física e psiquicamente a um outro como condição de advento do sujeito e motivo de sofrimento. Esse outro aparece em Freud com outra configuração, destaco aqui brevemente a questão do édipo, da castração e da falta, assim como a importância do narcisismo e do investimento libidinal do outro na subjetivação humana.
Sem dúvida que uma análise não almeja ensejar o sujeito a uma busca de completude no outro, pelo contrário talvez, o discurso da psicanálise busca exatamente promover no analisando um reconhecimento de sua castração, da inerente falta no sujeito e da possibilidade criativa do ser humano de criar novos destinos pulsionais possíveis para seu desejo. Mas o mito que subjaz em cada sujeito - e mesmo em algumas teorias psicanalíticas - fazem eco à idéia platônica de uma metade vagando por aí no mundo em busca de seu complemento e fusão.
Herdeiros que somos desse mito, como encontrar em meio a 7 bilhões de pessoas encarnadas no planeta a nossa cara-metade?! Talvez começar pela China, que concentra 1,3 bilhão de pessoas... Ou lidar com a nossa condição humana de castrados e faltantes, com a alteridade de fazer par com aquele que não é nosso semelhante, nem idêntico, nem fundido, nem metade. É um outro, inteiro e faltante, como nós. Ou não fazer par...

Adorei seu post. E fiquei pensando... Pode ser que amor seja uma atividade que, quando impedida, traga sofrimento. Esta é uma visão diferente do amor como falta, que busca a completude na cara-metade. O amor como atividade é vital, pulsa, mas quando impedido, por algum motivo (morte, separação, briga), de seguir seu curso, traz dor, sofrimento. Talvez, a vida e o amor sejam afeitos à atividade.
ResponderExcluirMuito bom esse post! Li domingo na Veja uma matéria excelente que desmitifica a opção de pessoas (como o já famoso solteirão George Clooney) que resolveram ser solteiras convictas e que, ao contrário do que se pensa, NÃO SÃO solitárias. A matéria fala ainda sobre a pior solidão, que é a de quem está casado mas se sente só. O casamento por conta do amor romântico é uma "novidade" de pouco mais de 200 anos. Antes era um contrato social e nem por isso havia tanto divórcio. É algo pra se pensar também...
ResponderExcluiradorei!!!!
ResponderExcluirObrigado @Anapaula, volte sempre!
ResponderExcluir@Gui, defendo a idéia de que nós mesmos temos que ser as nossas melhores companhias, com quem contamos e convivemos 24 horas por dia! Esse outro em nós que nos habita é sem dúvida o nosso melhor companheiro com quem devemos estabelecer a melhor das relações...
@Karla, tem uma grande polêmica sobre a leitura freudiana do dualismo pulsional do segundo modelo, que contrapões pulsões de vida versus pulsão de morte. Alguns defendem que a pulsão de morte possuiria uma função criativa, pela ruptura e possibilidade de recomeço que promove. Excelente e promissora discussão! Que sabe não alongamos esta discussão em um próximo post?!
Grande abraço a vcs!