“Que tristeza! Vou ficar velho, e horrível, e medonho. Mas este retrato permanecerá eternamente jovem. Precisamente como neste dia de Junho. Se pudesse dar-se o inverso! Ser eu eternamente jovem e o retrato envelhecer! Daria tudo para que isso acontecesse! Tudo o que há no mundo! Daria a própria alma! A juventude é a única coisa que vale a pena ter.” - Dorian Gray
Oscar Wilde escreveu o clássico O retrato de Dorian Gray em uma crítica aos círculos intelectuais de sua época – século XIX - e à cultura vitoriana. O personagem central do livro é Dorian, belíssimo jovem, narciso e hedonista retratado em uma tela que imortaliza sua beleza e juventude. Fascinado consigo mesmo e angustiado com a inevitável perda de sua perfeita imagem, Dorian formula o desejo da juventude eterna, fazendo um pacto com o diabo a quem vende sua alma. O truque diabólico faz com que Dorian permaneça o mesmo e, enquanto o tempo passa, o envelhecimento e decadência que experimenta aparecem apenas no quadro.
Séculos depois a tematização da ode à juventude realizada por Wilde parece ter sido escrita para os nossos dias pois o que observamos hoje é um culto à juventude, um culto ao corpo jovem e belo em uma cultura atravessada por este ideal. A isso se acrescenta a evolução da medicina e da indústria de cosméticos que favorecem a busca e manutenção desta juventude através de práticas que vão ao consumo dos mais diversos produtos aos procedimentos cirúrgicos.
Conforme argumenta a psicanalista Maria Rita Kehl, vivemos uma ”teenagização da cultura ocidental”, em texto com este título, onde a massificação de um modelo de vida e felicidade são valores associados aos “teens”, adolescentes e jovens. Os ideais da juventude tornaram-se os parâmetros para os adultos – e idosos -, fomentando a criação da expressão “adultescente”, onde a fusão das palavras adulto e adolescente traduz esses ideais do sujeito e da cultura.
Nesse contexto, envelhecer se torna para o sujeito contemporâneo um grande fardo e um imenso sofrimento psíquico. Conforme a fala de Dorian, ficar velho é ficar horrível e medonho. E a juventude eterna torna-se o grande sonho de uma significativa parcela dos indivíduos em nossos dias.
O pacto agora não é mais com o diabo, mas sim com o dermatologista, o cirurgião plástico, o personal trainer, com o geriatra - que se começa a freqüentar ainda na segunda década de vida! É o imperativo da juventude, que nos é apresentada como a única possibilidade de felicidade e aceitação social em nossa cultura.
Mas o tempo caminha em sua marcha inexorável, somos todos passíveis dessa passagem que a todos afeta democraticamente. Recursos financeiros, estilo de vida ou herança genética possibilitam que alguns o façam de maneira mais favorável e delicada. Mas inevitavelmente o tempo deixará sua passagem marcada no corpo humano, tanto em sua superfície externa como em sua interioridade física e psíquica.
Em nossa cultura ocidental envelhecer não é um bem valorizado, principalmente em países sul-americanos que possuem uma cultura corpólatra como a brasileira. Ser jovem, parecer jovem, sentir-se jovem compõe uma tendência àquilo que a psicóloga Alda Motta chama de “homogeneização das idades”, onde “as crianças são reenviadas ao mundo dos adultos jovens, enquanto os idosos “rejuvenescem”, física e socialmente, cada vez mais” – um dos artigos do interessante livro Velhice ou terceira idade. Igualmente preocupante é esse incentivo ao desencadeamento da precoce adolescência – em outra ocasião retomo o tema – mas por ora pensemos sobre essa teenagização da cultura.
Além da questão das diferentes faixas etárias almejarem o mesmo padrão, chama a atenção a questão de gênero, pois ambos os sexos sofrem com o valor colocado na juventude. Outrora, notoriamente a beleza e a juventude eram preocupações do universo feminino. Atualmente os homens estão aderindo aos cuidados com o corpo e com a aparência como em nenhum outro momento de nossa história, criando expressões como “metrossexual” para definir este indivíduo do sexo masculino zeloso por sua aparência.
A excessiva preocupação com a juventude perpassa não apenas a questão da aparência, mas estendeu-se ao mercado de trabalho e ao mundo de negócios. Conforme pondera a antropóloga Miriam Goldenberg em Coroas: corpo e envelhecimento na cultura brasileira, não é mera coincidência que os tratamentos contra o envelhecimento se multiplicaram rapidamente na era do enxugamento corporativo...
Sabemos como o corpo natural é atravessado pela construção social e a nossa cultura reveste o corpo do contemporâneo com as expectativas de uma juventude infinita. A cultura exige que sejamos jovens, mas apesar disso o natural, o biológico, se impõe e nos vemos diante de paradoxos e sofrimentos pela inadequação do sujeito ao seu corpo e identidade.
Vale lembrar que, a despeito da projeção do ideal projetado pela cultura, vivemos em um corpo carnal e encarnado. E é este corpo que nos fornece condição de existência: ele é biológico, orgânico, fisiológico. Este é um corpo que no decorrer de seu desenvolvimento envelhece e que cumpre a sucessão de etapas de um ciclo biológico vital e é com ele que temos que estabelecer uma prazerosa relação.
Em um tempo de objetificação do sujeito humano, tempo do imediatismo e de descartabilidade, parece que tudo conspira para que esqueçamos o mal estar que o corpo teen, adolescente nos traz, com as adaptações, acomodações e inseguranças da adolescência. Essa idealização ignora o sofrimento físico e emocional, as dores físicas e psíquicas dessa etapa de vida! Aprisionados nessa ilusão, ficamos siderados na imagem da juventude idealizada, armadilha que aprisiona o sujeito de hoje.
“O que era a juventude, na melhor das hipóteses? Um tempo de inexperiência e imaturidade, de fúteis caprichos e pensamentos mórbidos. Por que vestira ele as suas roupagens? A juventude causara a sua corrupção.” - Dorian Gray
Em breve e belíssimo texto escrito em 1915, logo após o início da primeira guerra mundial, Sobre a transitoriedade, Freud reflete sobre o ódio e a violência. A partir da análise da guerra, que subtrai do mundo a beleza e perfeição da natureza, das obras de arte e dos humanos, o autor observa como tudo “tende à decadência” e o que está em jogo é o processo de luto pelo objeto perdido. Parece que no contemporâneo não podemos fazer um luto pela juventude e ficamos congelados em uma perene melancolia...
Envelhecer faz parte do processo de evolução da vida, realizar um luto pelas perdas inerentes a cada etapa de vida também. Evoluir significa podermos vivenciar cada etapa de vida de maneira satisfatória e enriquecedora, com as benesses que cada etapa vital fornece. Imagino que uma boa relação com o tempo traduza o que seja envelhecer de maneira lúdica, usufruindo de cada momento com suas alegrias e agruras. Quem parece – pelo menos olhando de fora – envelhecer de forma mais harmoniosa e satisfeita: Elza Soares ou Fernanda Montenegro? E você, aceitaria o pacto?

Tô fora desse pacto! Ehehehe! Logicamente uma quantidade saudável de vaidade é uma boa, mas envelhecer como a Fernanda é muito mais satisfatório que como a Elza, que procura sua juventude na pouca idade de seus namorados. É triste ver que ela, assim como outra ridícula, a Susana Vieira, não tem noção de como isso é feio e absurdo. Seus "20 e poucos anos" já passaram há muito tempo e seria muito mais bonito (além de digno!) elas abraçarem sua real idade. Quero ficar um coroa bonito, não ridículo!
ResponderExcluir@Gui, sempre penso no sofrimento que essas pessoas carregam, como a Greta Garbo ou Brigitte Bardot que preferiram o isolamento ao envelhecimento em público. São exemplos de divas e pessoas notórias pela beleza, mas imagine se esse imperativo da beleza do contemporâneo criar tanto sofrimento assim, o "me deixem só" isolará cada vez mais o sujeito humano...
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