Desde que li O nome da Rosa fiquei muito impressionada com o poder subversivo do riso e do humor. É empobrecedor nomear o livro Umberto Eco de romance policial, pois é muito mais do que isso: discute história, filosofia, religião, o universal e o particular, enfim um “livraço”. Mas destaco aqui como o autor ficciona a exclusão que a Igreja teria feito de um texto supostamente escrito por Aristóteles, chamado Livro do Riso, do conhecimento público para este não profanasse o dogmatismo pregado pela instituição católica. Recomendo ler.
Mas tenho pensado muito sobre o poder do humor desde que as piadas, os chistes e as brincadeiras não só na cultura como um todo - e as redes sociais são representam um recorte virtual de um universo real - , passou a ser patrulhada pelo politicamente correto e por outros moralismos. Confesso que tenho achado um pouco desproprocionais algumas reações...
Citaria como exemplos recentes a piada feita por Rafinha Bastos no CQC onde comentando sobre a cantora (sic) Wanessa Camargo disse que ela estava “gostosinha” e que “comeria a mãe e o bebê”. Mau gosto? Sem dúvida, mas para quem já tinha feito piadas sobre Auschwitz e defendeu que mulher feia tem que dar “graças a deus” pela oportunidade de ser estuprada isso nem surpreende. E tem quem goste de seu humor. Isto é democracia.
O que espanta é ele ser processado e isso virar questão, apenas porque tocou no tabu da sexualidade da mulher grávida e da imaculada visão higienista e burguesa do feto/bebê. Fique claro que não defendo e nem apoio nenhumas dessas “piadas” do “humorista” mas achei desproporcional com tantas outras questões de suma importância acontecendo isso virar uma questão nacional e ganhar manchetes no jornais e revistas.
Outro exemplo polêmico vem da sugestão de que Lula tratasse o câncer de laringe nos SUS. Isso “bombou” nas redes sociais. Mais do que uma sugestão, pois é sabido que ele já está em tratamento no Hospital Sírio e Libanês e que o plano de saúde dele vai assumir todos os encargos, o que está nessa fala é uma ironia/ denúncia sobre o nosso sistema de saúde. Assim como existiram anteriormente sugestões para que os filhos netos de Cristóvão Buarque fossem estudar em colégios públicos. É uma forma de desabafo indignado creio eu, um chiste, ninguém acredita que isto realmente vá acontecer.
Conforme sabemos, pelo contrário, alguns lugares públicos são referência e excelência no tratamento contra o câncer, o Lula se beneficiaria até do tratamento. Mas nem é essa a questão, o que está em jogo é uma metáfora, é falar de uma outra coisa que não aquela, é assim que funciona a piada ou ironia.
Mas creio que outro assunto tabu foi mexido aí: o câncer, que ainda mata – e muito – e que desola tantas famílias. E aí posições radicais, ofensas, agressões e outras manifestações apareceram no Facebook, com ameaça de denúncias ao admistrador da rede ou ao empregador do sujeito (li isso em vários posts...)
Mais uma vez, nada tenho contra o Lula, nem quero que ele morra de câncer. Na verdade me é indiferente o destino de Lula. Durante os oito anos que foi presidente do país no qual eu morava a vida dele fazia diferença na minha, como cidadã. Mas depois que se tornou um cidadão comum, nem as matérias sobre ele me interessam ler. Tenho pena dele como tenho de qualquer um que fica doente, mas também não acho que por conta disso ele se tornou intocável , acima do bem e do mal ou de qualquer piada.
É uma piada de mau gosto, sobre o sofrimento alheio? Sem dúvida. Mas as piadas em sua grande maioria são! Existem piadas de bom gosto? O riso sobre a piada da pessoa que escorrega na casca de banana é motivo de graça, pouco importa a dor ou o vexame do implicado. Não é assim? Também acho de muito mau gosto, aliás.
Talvez o ser humano precise e tenha no humor uma válvula de escape/projeção de sua mazelas para fora, para o outro. Lembrei do protagonista do 1984 – outro livro que adoro e recomendo do George Orwell - quando ele diz a seus carrascos do regime totalitário no qual tentava se rebelar “faz a ela” (a tortura), faz no outro e não em mim... É um mecanismo humano o de projeção e de querer isso no outro e não em si. Não inofensivo, mas humano. Não gentil, nem solidário, nem altruísta, nem louvável, mas humano.
Eu mesma não repassei a piada do Lula, mas acho que o direito à livre expressão é precioso. Senão iremos para o regime totalitário de 1984 todos regidos e dominados por uma verdade única e absoluta. A teletela que nos controlará e punirá será a nossa “rede de amigos” ao nos denunciar ao Grande Irmão Mark Zuckenberg para nos excluir do Facebook. Aprovou o Rafinha? Exclui! Fez piada com o câncer do Lula? Exclui!
Cada um poder se expressar através de uma piada ou de uma brincadeira não deveria ser tão incômodo. Respeito o próximo, seja ele quem for, negro (ariano, índio ou judeu), gay (ou hetero ou trans ou pan!) umbandista (evangélico, judeu, ateu) mas também entendo que o riso é subversivo, ele questiona, ele incomoda e é um gesto de liberdade.
Lembro do prazer de ler o Pasquim nos tempos da ditadura, as tirinhas do Henfil ou do Quino com sua Mafalda. Rir é libertar. O riso, o humor, a ironia fazem parte da natureza humana, como o velho Freud já tematizou há décadas atrás, faz parte do funcionamento psíquico, da inteligência humana e é uma das formações do inconsciente.
O texto é célebre, O chiste e sua relação com o inconsciente (1905) e depois de Freud outros autores se dedicaram a explorar a relação entre os sintomas neuróticos, os atos falhos e os chistes. O Freud colecionava piadas, principalmente judaicas. Ele mesmo tinha um humor cáustico, pois por ocasião de uma entre as inúmeras operações – mais de 30 - que fez para combater o câncer de maxilar ele disse a seguinte piada: "o único problema das operações na mandíbula é que tenho que parar de fumar por duas horas".
O limite do respeito à dignidade do próximo é tênue e pessoal. Acho que depois de milhares de décadas de “civilização” esse respeito ao outro e à diferenças ainda é muito deficiente. Mas a nossa grande evolução do hominídeo pré-histórico foi quando ao invés de batalhas com pedras e tacapes passamos à dominar a palavra e com ela argumentar. O humor, o riso fazem parte desse repertório ligado à argumentação, metonímias, metáforas, à inteligência enfim. E é, para mim, um dos símbolos da liberdade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário