sábado, 2 de fevereiro de 2013

SOBRE A DOR


O post inaugural desse blog foi sobre o riso, motivado pelo episódio do câncer do ex-presidente Lula. Agora me vejo novamente perplexa com a movimentação e críticas em torno do choro da presidente Dilma. A repercussão, majoritariamente negativa, “bombou” nas redes sociais.

Em meio à recente tragédia do incêndio na boate Kiss em Santa Maria (RS) que vitimou 236 pessoas, a presidente deixou seu encontro no Chile e foi prestar solidariedade aos sofredores familiares e moradores da cidade. E pranteou em meio ao cenário de tristeza, dor e desolação que todos nós acompanhamos pelos noticiários.

Não consigo imaginar uma pessoa com sentimentos que - presenciando essa tragédia e horror ao vivo - não se emocionasse. Nós, mulheres e mães, com toda a empatia e comoção da cena, certamente choraríamos ao consolar pais enlutados. Alguns homens certamente chorariam também. E esta mulher-presidenta chorou.  

E aí foi uma saraivada de acusações e agressões alegando que ela estaria se promovendo de forma oportunista e etc. Mas o pior foi o compartilhar sem fim da carta de uma cidadã que “manda” Dilma engolir as lágrimas, pois ela não teria o direito de chorar. Como assim?!

Entendo a revolta, dor, mágoa, raiva que esta situação provoca. Muito já se falou sobre isso: uma boate, sem alvará, sem fiscalização, a corrupção em várias instâncias de governança que permite que tantos locais funcionem assim aqui no Brasil. As manchetes dos jornais anunciam hoje o fechamento de centenas de casas noturnas no Brasil, a fiscalização está mostrando serviço no a posteriori: como sempre é preciso que o grito da morte se faça ouvir para que algo seja feito.

Não estou discutindo a legitimidade de todas as cobranças cabíveis no contexto, absolutamente. Muito pelo contrário, considero que nesse momento de comoção as pessoas podem se sensibilizar e se engajar em causas realmente importantes para todos nós. Podem e devem. E se fazer justiça de modo a responsabilizar cada omissão de cada pessoa, órgão, entidade envolvidas nesse crime. Isso é inquestionável.

Mas estranho esse oportunismo de utilizar a tragédia de Santa Maria como uma maneira de agredir um governo. Fazendo menção aos mortos de Santa Maria, a carta que vi reproduzida em espaços diversos questiona impostos, estádios e usuários de crack, esvaziando a legitimidade da dor e dos questionamentos relativos às vítimas do incêndio. Que desrespeito e que oportunismo! Como se desvirtua assim uma dor e uma causa para discursos pseudo  políticos?!

Não sou eleitora da presidente , não milito a causa petista. Não quero aqui discutir o governo. Sou herdeira de uma geração que clama “hay governo? Soy contra!”. Mas sou cidadã e ser politico. Quero sim questionar essas rasas e superficiais pseudo militâncias vazias, tão típicas de uma era do “compartilhar”, onde o sujeito reproduz a indignação oca, vazia e estéril.

As questões são maiores e mais profundas, a corrupção antecede e sucede esse governo com a conivência de cada brasileiro que adora o seu “jeitinho” de sempre burlar e manipular as leis da justiça ou as leis mais diversas e sutis que regem os relacionamentos humanos. Devemos questionar o presidente, o governador, o prefeito e assim por diante, mas também parece que funcionamos no a posteriori... É quando lembramos de fiscalizar, cobrar, exigir...

Ao invés de culpar o governo, hábito tão arraigado do psiquismo infantil de culpar o outro, cabe a cada um de nós assumir seu papel de cidadão, a nossa cota de engajamento e a nossa parcela de responsabilidade pelo nosso cotidiano. Nas nossas vidas. Sem isentar os responsáveis nos setores diversos que regem nossa organização social, é claro. Mas quem aqui verifica se a saída de incêndio do cinema está funcionando antes de assistir o filme? 

Freud, em Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância (1910) sustenta que o ser humano tem a necessidade de se apoiar em alguma autoridade, visto que nasce em um estado de completa dependência e desamparo . Este desamparo persiste de alguma maneira em nossas vidas e Freud justifica que a necessidade de figuras de autoridade e ou de uma religião corresponderia à persistência de algum tipo de infantilismo psíquico. Até quando vamos ficar infantilmente relegando a uma “autoridade” todas as responsabilidades e culpas de tudo?

Essa tragédia em Santa Maria dói em cada um de nós de varias maneiras, pela empatia, identificação, transferência, projeção. Não saberia nem começar a falar da mobilização que esta situação toda me provocou, mesma comoção que escutei no discurso dos familiares, pacientes, amigos, pois coisas horríveis assim quando acontecem remanejam o modo de olhar a vida e os ambientes que frequentamos, a fragilidade da nossa existência, enfim. O post não é sobre essa dor, pois poetas como Carpinejar e outros tantos conseguiram recobrir esse sentimento com palavras que traduzem tão bem essa pluralidade de emoções.

Pontuo a solidariedade e o luto como norteadores principais de minhas colocações, respeito isso acima de tudo. Mas acho medíocre o oportunismo e infantilismo de certas colocações a partir de uma desgraça dessas...

Esse post é sobre o infantilismo que persiste em nós. E pretendi aqui falar disso através principalmente do direito e da legitimidade do choro da presidente. Aliás, não foi o primeiro e provavelmente não será o ultimo, ela já chorou em contextos diversos desde que assumiu a presidência. Mas acho sinceramente que ela deve poder chorar: é a humanidade e o desconcerto que nos incomoda na cena.

O filosofo e sociólogo Helmuth Plessner afirma que o riso e o choro revelam a incapacidade do sujeito em lidar com a situação com a qual se depara, pois ante ao insólito estas seriam estas as respostas possíveis em um primeiro momento: “quando  a  razão  e  o  entendimento  não conseguem  responder,  é  o  corpo  que  assume  a  tarefa  de  expressar  a  impossibilidade de resposta” (in O riso e o choro: uma investigação sobre os limites do comportamento humano, 1941).

Assim sendo, chore, presidente. Se rasgue, se arraste, sofra. É isso que nos faz humanos, sensíveis e solidários ao outro. Mas sofra muito, mesmo, para que esse sentimento assuma algum efeito transformador. E depois desta resposta humana e impotente, que venha a razão e o entendimento de toda a tragédia. Pelo sofrimento advindo do incêndio sim, principalmente, mas também pelo sofrimento e dor que sentem aqueles que ambicionam e assumem o papel de líderes, que adquirem cargos cujo poder transformador afeta a vida de milhões de sujeitos. Que este choro e dor sejam locus para mudanças maduras e necessárias.

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