O post inaugural desse blog foi sobre
o riso, motivado pelo episódio do câncer do ex-presidente Lula. Agora me vejo novamente
perplexa com a movimentação e críticas em torno do choro da presidente Dilma. A
repercussão, majoritariamente negativa, “bombou” nas redes sociais.
Em meio à recente tragédia do incêndio
na boate Kiss em Santa Maria (RS) que vitimou 236 pessoas, a presidente deixou
seu encontro no Chile e foi prestar solidariedade aos sofredores familiares e
moradores da cidade. E pranteou em meio ao cenário de tristeza, dor e desolação
que todos nós acompanhamos pelos noticiários.
Não consigo imaginar uma pessoa com
sentimentos que - presenciando essa tragédia e horror ao vivo - não se emocionasse.
Nós, mulheres e mães, com toda a empatia e comoção da cena, certamente choraríamos
ao consolar pais enlutados. Alguns homens certamente chorariam também. E esta
mulher-presidenta chorou.
E aí foi uma saraivada de acusações e
agressões alegando que ela estaria se promovendo de forma oportunista e etc. Mas
o pior foi o compartilhar sem fim da carta de uma cidadã que “manda” Dilma engolir
as lágrimas, pois ela não teria o direito de chorar. Como assim?!
Entendo a revolta, dor, mágoa, raiva
que esta situação provoca. Muito já se falou sobre isso: uma boate, sem alvará,
sem fiscalização, a corrupção em várias instâncias de governança que permite
que tantos locais funcionem assim aqui no Brasil. As manchetes dos jornais
anunciam hoje o fechamento de centenas de casas noturnas no Brasil, a
fiscalização está mostrando serviço no a
posteriori: como sempre é preciso que o grito da morte se faça ouvir para
que algo seja feito.
Não estou discutindo a legitimidade de
todas as cobranças cabíveis no contexto, absolutamente. Muito pelo contrário,
considero que nesse momento de comoção as pessoas podem se sensibilizar e se
engajar em causas realmente importantes para todos nós. Podem e devem. E se fazer
justiça de modo a responsabilizar cada omissão de cada pessoa, órgão, entidade envolvidas
nesse crime. Isso é inquestionável.
Mas estranho esse oportunismo de
utilizar a tragédia de Santa Maria como uma maneira de agredir um governo. Fazendo
menção aos mortos de Santa Maria, a carta que vi reproduzida em espaços
diversos questiona impostos, estádios e usuários de crack, esvaziando a
legitimidade da dor e dos questionamentos relativos às vítimas do incêndio. Que
desrespeito e que oportunismo! Como se desvirtua assim uma dor e uma causa para
discursos pseudo políticos?!
Não sou eleitora da presidente , não
milito a causa petista. Não quero aqui discutir o governo. Sou herdeira de uma
geração que clama “hay governo? Soy contra!”. Mas sou cidadã e ser politico. Quero
sim questionar essas rasas e superficiais pseudo militâncias vazias, tão
típicas de uma era do “compartilhar”, onde o sujeito reproduz a indignação oca,
vazia e estéril.
As questões são maiores e mais
profundas, a corrupção antecede e sucede esse governo com a conivência de cada
brasileiro que adora o seu “jeitinho” de sempre burlar e manipular as leis da
justiça ou as leis mais diversas e sutis que regem os relacionamentos humanos.
Devemos questionar o presidente, o governador, o prefeito e assim por diante, mas
também parece que funcionamos no a
posteriori... É quando lembramos de fiscalizar, cobrar, exigir...
Ao invés de culpar o governo, hábito
tão arraigado do psiquismo infantil de culpar o outro, cabe a cada um de nós
assumir seu papel de cidadão, a nossa cota de engajamento e a nossa parcela de responsabilidade
pelo nosso cotidiano. Nas nossas vidas. Sem isentar os responsáveis nos setores
diversos que regem nossa organização social, é claro. Mas quem aqui verifica se
a saída de incêndio do cinema está funcionando antes de assistir o filme?
Freud, em Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância (1910) sustenta que o ser humano tem a necessidade de se
apoiar em alguma autoridade, visto que nasce em um estado de completa
dependência e desamparo . Este desamparo persiste de alguma maneira em nossas
vidas e Freud justifica que a necessidade de figuras de autoridade e ou de uma
religião corresponderia à persistência de algum tipo de infantilismo psíquico.
Até quando vamos ficar infantilmente relegando a uma “autoridade” todas as
responsabilidades e culpas de tudo?
Essa tragédia em Santa Maria dói em cada
um de nós de varias maneiras, pela empatia, identificação, transferência,
projeção. Não saberia nem começar a falar da mobilização que esta situação toda
me provocou, mesma comoção que escutei no discurso dos familiares, pacientes,
amigos, pois coisas horríveis assim quando acontecem remanejam o modo de olhar
a vida e os ambientes que frequentamos, a fragilidade da nossa existência, enfim.
O post não é sobre essa dor, pois
poetas como Carpinejar e outros tantos conseguiram recobrir esse sentimento com
palavras que traduzem tão bem essa pluralidade de emoções.
Pontuo a solidariedade e o luto como
norteadores principais de minhas colocações, respeito isso acima de tudo. Mas acho
medíocre o oportunismo e infantilismo de certas colocações a partir de uma
desgraça dessas...
Esse post é sobre o infantilismo que
persiste em nós. E pretendi aqui falar disso através principalmente do direito
e da legitimidade do choro da presidente. Aliás, não foi o primeiro e provavelmente
não será o ultimo, ela já chorou em contextos diversos desde que assumiu a presidência.
Mas acho sinceramente que ela deve poder chorar: é a humanidade e o desconcerto
que nos incomoda na cena.
O filosofo e sociólogo Helmuth Plessner
afirma que o riso e o choro revelam a incapacidade do sujeito em lidar com a
situação com a qual se depara, pois ante ao insólito estas seriam estas as respostas
possíveis em um primeiro momento: “quando
a razão e
o entendimento não conseguem
responder, é o
corpo que assume
a tarefa de
expressar a impossibilidade de resposta” (in O
riso e o choro: uma investigação sobre os limites do comportamento humano,
1941).
Assim sendo, chore, presidente. Se
rasgue, se arraste, sofra. É isso que nos faz humanos, sensíveis e solidários
ao outro. Mas sofra muito, mesmo, para que esse sentimento assuma algum efeito
transformador. E depois desta resposta humana e impotente, que venha a razão e
o entendimento de toda a tragédia. Pelo sofrimento advindo do incêndio sim, principalmente,
mas também pelo sofrimento e dor que sentem aqueles que ambicionam e assumem o
papel de líderes, que adquirem cargos cujo poder transformador afeta a vida de milhões
de sujeitos. Que este choro e dor sejam locus
para mudanças maduras e necessárias.

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