Finalmente
li o tal livro que tanto ouvi falar em 2012. Um feriado, alguém que me emprestou
o volume I e resolvi saciar a curiosidade. Minha sensação foi que nem ler Paulo
Coelho: reconheço o mérito mas definitivamente não tenho vontade de ler outro
livro dele...
A primeira
vez que ouvi falar do best seller foi
através de uma paciente – uma senhora de quase 70 anos – empolgadíssima com o
livro, depois foi a falação dos amigos (na verdade amigas) até chegar na mídia
como um todo: claro que foi inevitável conhecer a história do livro antes mesmo
de ler a contracapa. Curiosa ma non tropo
fui lendo o romance quase que antropologicamente, tentando compreender o fenômeno
de vendas e comoção da mulherada.
Assim
que comecei a leitura já achei super inverossímil a personagem Anastacia uma
jovem universitária americana de 21 anos que não tem nem computador e nem um
smartphone?! Fala sério! O fato dela ser virgem, nunca se masturbar e nem
desejar ser beijada até então tornaram-se elementos secundários antes essa inacreditável
e pouco crível exclusão digital!!!
Resumindo
o roteiro, jovem mocinha com baixa auto-estima conhece jovem ricaço bem
neurótico e vivem um relacionamento amoroso-sexual no qual ele desvela seus
fetiches e perversões. E ela a-do-ra. E o público também de-li-ra. A descrição
das cenas sexuais foram relatadas como instigantes e eróticas, mas a sensação
que eu tive é que lia um daqueles romances que foram moda na minha adolescência:
Bianca, Julia, Sabrina. Sério. (e isso talvez explique o desdém e deboche dos
homens em relação ao livro, sei lá...)
Obviamente
não vou contar o livro, mas chamou minha atenção essa comoção causada pelo
personagem masculino, Christian Gray: lindo, milionário, atencioso, gentil,
cheio de fetiches e perversões sexuais. Pelo jeito “as mina pira” com esse
modelito... Mas o principal do pacote é a combinação dos seguintes elementos:
ele se APAIXONA, é fiel e sensível! Ou seja, o cara pode ser completamente freak, mas só com o “pacote” completo e
se apaixonar!
Sem
me alongar muito – até porque o livro é raso e não se presta a mergulhos tão
profundos - o que realmente me
impressionou foi o clichê burguês e convencional na qual a perversão do
personagem foi alocada. É uma perversão asséptica e psicologizada (me contaram
que nos próximos dois volumes – sim é uma trilogia!!! – ele discorre sobre a
mãe viciada-abusiva e Freud sempre tinha razão...), completamente arrumada
dentro de um romance convencional e careta-baunilha... Aliás, pelo que soube, o
livro acaba com um “final feliz”: eles se casam coroando o romance. Perversão asséptica
e palatável, quase que um romance “à la Disney’!
É
uma perversão muito diversa, por exemplo, de um clássico dos anos 50, ícone da literatura erótica, A História de O, de Anne Desclos (sob o pseudônimo
de Pauline Réage), o relato fictício de uma jovem fotógrafa que escolhe se
tornar uma escrava sexual. Livro que descreve cruamente a submissão sexual da
qual “O” é voluntária, mas sem o “final feliz”. Fica a indicação da leitura, mas em outro
momento retomo esse livro que se presta a análises mais profundas sobre o
sadomasoquismo inclusive psicanaliticamente...
Fica
o registro que em termos de literatura erótica, outras referências são tão mais
interessantes em sua riqueza, como Os 120
dias de Sodoma do Marquês de Sade, Decameron
do Boccacio, a Vênus das peles do
Sacher-Masoch, autores nacionais como Nelson Rodrigues ou João Ubaldo com A casa dos budas ditosos e outros tantos
enfim.
Sobre
o Tons, fiquei reflexiva sobre a
necessidade de uma literatura desse tipo no contemporâneo: recorde de vendas e
vai virar filme! Depois da revolução sexual e de todos os avanços da liberdade
da mulher, da queda de tabus como a virgindade, o usufruto e posse da mulher
sobre o próprio corpo com o advento da pílula,
com a entrada mais igualitária no mercado de trabalho e assim por diante, por
que cargas d’àgua uma menina virgem que aprende que pode ter um orgasmo
amarrada numa corda num quarto vermelho desperta tanto fascínio nas leitoras?!
Sem
dúvida que a encenação do livro permite que o leitor projete sua própria sexualidade
polimorfa infantil, pois como Freud nos ensinou neuroticamente recalcamos nossa
perversão: “a neurose é o negativo da perversão”. Freud também nos explica
sobre fetiches e sua função de negar a castração e assim por diante, mas tudo
isso é bem alocado em um romance no estilo pornografia light, que as pessoas podem ler até no metrô: perversão enlatada
para consumo.
Relembro
Freud em Moral sexual civilizada e doença
nervosa moderna (1908) na qual argumenta que a civilização exige que os indivíduos
sublimem seus desejos sexuais por causas socialmente uteis, sustentando que “a
influência prejudicial da civilização reduz-se principalmente à repressão
nociva da vida sexual dos povos civilizados através da moral sexual ‘civilizada’ que os rege.” Nesse
texto, entre vários outros fatores, Freud explica como a sexualidade regulada
pelo casamento é um sofrimento para o sujeito. Parece que apesar da quebra
desse vínculo casamento-sexo e de toda liberdade sexual que vivemos no ocidente
- mais de cem anos depois – a sexualidade
continua atravessada pelo recalque...
Mas louvo
os méritos do livro que mobilizam milhões de pessoas para a leitura, seja essa
E. L. James ou Paulo Coelho. Louvo também que possa mobilizar o desejo e a
fantasia que movem o sujeito. Mas...

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