sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

SOBRE OS CINQUENTA TONS DE CINZA



Finalmente li o tal livro que tanto ouvi falar em 2012. Um feriado, alguém que me emprestou o volume I e resolvi saciar a curiosidade. Minha sensação foi que nem ler Paulo Coelho: reconheço o mérito mas definitivamente não tenho vontade de ler outro livro dele...

A primeira vez que ouvi falar do best seller foi através de uma paciente – uma senhora de quase 70 anos – empolgadíssima com o livro, depois foi a falação dos amigos (na verdade amigas) até chegar na mídia como um todo: claro que foi inevitável conhecer a história do livro antes mesmo de ler a contracapa. Curiosa ma non tropo fui lendo o romance quase que antropologicamente, tentando compreender o fenômeno de vendas e comoção da mulherada.

Assim que comecei a leitura já achei super inverossímil a personagem Anastacia uma jovem universitária americana de 21 anos que não tem nem computador e nem um smartphone?! Fala sério! O fato dela ser virgem, nunca se masturbar e nem desejar ser beijada até então tornaram-se elementos secundários antes essa inacreditável e pouco crível exclusão digital!!!

Resumindo o roteiro, jovem mocinha com baixa auto-estima conhece jovem ricaço bem neurótico e vivem um relacionamento amoroso-sexual no qual ele desvela seus fetiches e perversões. E ela a-do-ra. E o público também de-li-ra. A descrição das cenas sexuais foram relatadas como instigantes e eróticas, mas a sensação que eu tive é que lia um daqueles romances que foram moda na minha adolescência: Bianca, Julia, Sabrina. Sério. (e isso talvez explique o desdém e deboche dos homens em relação ao livro, sei lá...)

Obviamente não vou contar o livro, mas chamou minha atenção essa comoção causada pelo personagem masculino, Christian Gray: lindo, milionário, atencioso, gentil, cheio de fetiches e perversões sexuais. Pelo jeito “as mina pira” com esse modelito... Mas o principal do pacote é a combinação dos seguintes elementos: ele se APAIXONA, é fiel e sensível! Ou seja, o cara pode ser completamente freak, mas só com o “pacote” completo e se apaixonar!

Sem me alongar muito – até porque o livro é raso e não se presta a mergulhos tão profundos -  o que realmente me impressionou foi o clichê burguês e convencional na qual a perversão do personagem foi alocada. É uma perversão asséptica e psicologizada (me contaram que nos próximos dois volumes – sim é uma trilogia!!! – ele discorre sobre a mãe viciada-abusiva e Freud sempre tinha razão...), completamente arrumada dentro de um romance convencional e careta-baunilha... Aliás, pelo que soube, o livro acaba com um “final feliz”: eles se casam coroando o romance. Perversão asséptica e palatável, quase que um romance “à la Disney’!

É uma perversão muito diversa, por exemplo, de um clássico dos anos 50,  ícone da literatura erótica, A História de O, de Anne Desclos (sob o pseudônimo de Pauline Réage), o relato fictício de uma jovem fotógrafa que escolhe se tornar uma escrava sexual. Livro que descreve cruamente a submissão sexual da qual “O” é voluntária, mas sem o “final feliz”.  Fica a indicação da leitura, mas em outro momento retomo esse livro que se presta a análises mais profundas sobre o sadomasoquismo inclusive psicanaliticamente...

Fica o registro que em termos de literatura erótica, outras referências são tão mais interessantes em sua riqueza, como Os 120 dias de Sodoma do Marquês de Sade, Decameron do Boccacio, a Vênus das peles do Sacher-Masoch, autores nacionais como Nelson Rodrigues ou João Ubaldo com A casa dos budas ditosos e outros tantos enfim.

Sobre o Tons, fiquei reflexiva sobre a necessidade de uma literatura desse tipo no contemporâneo: recorde de vendas e vai virar filme! Depois da revolução sexual e de todos os avanços da liberdade da mulher, da queda de tabus como a virgindade, o usufruto e posse da mulher sobre o próprio corpo  com o advento da pílula, com a entrada mais igualitária no mercado de trabalho e assim por diante, por que cargas d’àgua uma menina virgem que aprende que pode ter um orgasmo amarrada numa corda num quarto vermelho desperta tanto fascínio nas leitoras?!

Sem dúvida que a encenação do livro permite que o leitor projete sua própria sexualidade polimorfa infantil, pois como Freud nos ensinou neuroticamente recalcamos nossa perversão: “a neurose é o negativo da perversão”. Freud também nos explica sobre fetiches e sua função de negar a castração e assim por diante, mas tudo isso é bem alocado em um romance no estilo pornografia light, que as pessoas podem ler até no metrô: perversão enlatada para consumo.

Relembro Freud em Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna (1908) na qual argumenta que a civilização exige que os indivíduos sublimem seus desejos sexuais por causas socialmente uteis, sustentando que “a influência prejudicial da civilização reduz-se principalmente à repressão nociva da vida sexual dos povos civilizados através da  moral sexual ‘civilizada’ que os rege.” Nesse texto, entre vários outros fatores, Freud explica como a sexualidade regulada pelo casamento é um sofrimento para o sujeito. Parece que apesar da quebra desse vínculo casamento-sexo e de toda liberdade sexual que vivemos no ocidente - mais de cem anos  depois – a sexualidade continua atravessada pelo recalque...

Mas louvo os méritos do livro que mobilizam milhões de pessoas para a leitura, seja essa E. L. James ou Paulo Coelho. Louvo também que possa mobilizar o desejo e a fantasia que movem o sujeito. Mas...

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