Estive no
circo. Achei divertido, mas confesso que senti falta dos animais: os elefantes
enormes e suas impressionantes presenças, os leões com a imponência e garbo, os
macacos que em tanto se assemelham a nós, enfim, senti falta de ver e desfrutar
do fascínio que a bicharada sempre provocou nos humanos.
Fui em busca
de um circo que não existe mais, o circo de minha infância – que nem gostava
tanto, cá entre nós – com palhaços,
poodles de sainha de tule, pessoas portadoras de nanismo. Eu sei que não é
politicamente correto, mas eram essas coisas que esperava apresentar para meus
filhos. Agora temos circos high tec,
telões, banda de rock ao vivo, tudo muito estilizado, genéricos do Cirque Du Soleil.
Que achei sensacional. Mas que também não é exatamente um circo.
Enfim, isso
tudo é para dizer que eu vi o número dos pratos rodando no ar, todos ao mesmo
tempo e há séculos não via isso. Imediatamente me lembrei da metáfora que ouço
de tantas mulheres que se sentem estas malabaristas da vida, tentando dar conta
de vários pratos rodando no ar, sem deixar cair nenhum.
Não que os
homens não sejam ou se sintam sobrecarregados com as exigências da vida
pós-moderna, óbvio que sim. Mas considero que a figura feminina é a maior representante
do aumento de tarefas, encargos, funções e papéis sociais que o ser humano vem
acumulando nos últimos séculos.
Mapeando muito
brevemente esse cenário, até pouco tempo, a mulher permaneceu restrita ao âmbito
doméstico e privado de nossa sociedade. Embora no Oriente as mudanças sejas mínimas,
no Ocidente esta transformação foi radical e hoje a mulher usufrui do espaço
público praticamente nas mesmas condições que os homens. Ainda em desvantagem,
é bem verdade, de reconhecimento e de salário, mas cada vez mais equiparada.
Na base dessas
transformações podemos marcar, desde a Revolução Industrial até o advento da
pílula anticoncepcional, diversas mudanças que permitiram à mulher o direito ao
trabalho e uma possível independência advinda deste, até o domínio de seu
corpo, natalidade e sexualidade. Essas últimas sem dúvida conquistas
revolucionárias.
São séculos de
história e de opressão atravessadas por questões profundas que envolvem
diversos campos de saber. De “costela de
Adão”, vistas como um ser totalmente dependente das leis implícitas ou
explicitas do falocentrismo, evoluímos até a autonomia e independência do
masculino para uma identidade própria, singular e independente.
Cuidar da
casa, cuidar dos filhos, cuidar dos idosos, dos desvalidos, dos animais domésticos,
do lar: vida privada da mater, da
palavra matrimônio constituía o destino da mulher. Desbravar o mundo para buscar
o sustento da família, cuidar das provisões para a casa, empreender, pater, o patrimônio, era o destino do
homem. Houve época em nossa cultura onde estes papéis eram muito bem
demarcados. Eram...
O que quero destacar
aqui é como exige-se da mulher de hoje a encarnação do duplo registro da figura
feminina: o lado doméstico e o lado público. Ou seja, multiplicação de papéis:
além do âmbito doméstico – que continua sendo da alçada do feminino, agora a
mulher tem que abarcar as conquistas da vida pública. E ser bem sucedida nesta
empreitada...
Para além de
um discurso feminista que acuse a dupla ou tripla jornada que a mulherada vive,
quero aqui problematizar o sofrimento e a sobrecarga que esse modo de vida traz
para a mulher contemporânea. Já apontei que esse fenômeno é extensivo ao
masculino: hoje é cobrado ao homem que ele seja mais “feminino”, cuide da casa,
cuide dos filhos, se cuide e etc e etc. Mas em proporção e alcance muito
menores em relação às cobranças ao feminino.
A mulher
encarna a malabarista equilibrando os pratos no ar, todos rodando e sem
quebrar. Que escolha essa nossa, de fazer coexistir o mater e o pater! Por um
lado, muito prazer e satisfação advindas de diferentes fontes de investimento e
alegria. É bem verdade que o retorno é bem maior. Por outro, um certo desgaste
que vai engolfando o dia a dia em funções sem fim e uma sensação de tarefas
inacabadas, demandas insatisfeitas e assim por diante.
Compre uma
revista voltada para o público feminino, folheie e você vai entender do que estou
falando! Nesse pot pourri daquilo que
é atribuído ao universo “delas” encontramos as sugestões para otimizar a vida
nos mais diversos campos. Para listar alguns: corpo, saúde, vida sexual, relacionamento
afetivo, filhos, família, amizades, vida acadêmica, casa, funcionários, trabalho,
vida social, pets, ufa!!!!!!!!!!
O
que quero ressaltar também é que isso tudo gera um desmapeamento nos indivíduos
de hoje que são compelidos a significar e resignificar o que é ser homem ou o
que é ser mulher no contemporâneo. É fato que o deslocamento do feminino também
desalojou o masculino de seu lugar: estamos todos desbussolados! O homem de
hoje tem que assistir ao parto do filho, fazer faxina, cozinhar: do público ao
privado....
A
máxima de Simone de Beauvoir, de que a gente não nasce, a gente se torna mulher
pode atualmente ser estendida aos homens, pois eles hoje também precisam
aprender a se tornarem homens. Essa é a parte positiva deste desmapeamento: as inéditas
e ricas possibilidades de reconstruções das subjetividades. Enquanto isso, segurem
seus bastões e façam os pratos girarem...

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