quarta-feira, 11 de julho de 2012

A gente não nasce mulher, a gente se torna mulher. E homem. E malabarista circense também.


Estive no circo. Achei divertido, mas confesso que senti falta dos animais: os elefantes enormes e suas impressionantes presenças, os leões com a imponência e garbo, os macacos que em tanto se assemelham a nós, enfim, senti falta de ver e desfrutar do fascínio que a bicharada sempre provocou nos humanos.

Fui em busca de um circo que não existe mais, o circo de minha infância – que nem gostava tanto, cá entre nós – com palhaços, poodles de sainha de tule, pessoas portadoras de nanismo. Eu sei que não é politicamente correto, mas eram essas coisas que esperava apresentar para meus filhos. Agora temos circos high tec, telões, banda de rock ao vivo, tudo muito estilizado, genéricos do Cirque Du Soleil. Que achei sensacional. Mas que também não é exatamente um circo.

Enfim, isso tudo é para dizer que eu vi o número dos pratos rodando no ar, todos ao mesmo tempo e há séculos não via isso. Imediatamente me lembrei da metáfora que ouço de tantas mulheres que se sentem estas malabaristas da vida, tentando dar conta de vários pratos rodando no ar, sem deixar cair nenhum.

Não que os homens não sejam ou se sintam sobrecarregados com as exigências da vida pós-moderna, óbvio que sim. Mas considero que a figura feminina é a maior representante do aumento de tarefas, encargos, funções e papéis sociais que o ser humano vem acumulando nos últimos séculos.

Mapeando muito brevemente esse cenário, até pouco tempo, a mulher permaneceu restrita ao âmbito doméstico e privado de nossa sociedade. Embora no Oriente as mudanças sejas mínimas, no Ocidente esta transformação foi radical e hoje a mulher usufrui do espaço público praticamente nas mesmas condições que os homens. Ainda em desvantagem, é bem verdade, de reconhecimento e de salário, mas cada vez mais equiparada.

Na base dessas transformações podemos marcar, desde a Revolução Industrial até o advento da pílula anticoncepcional, diversas mudanças que permitiram à mulher o direito ao trabalho e uma possível independência advinda deste, até o domínio de seu corpo, natalidade e sexualidade. Essas últimas sem dúvida conquistas revolucionárias.

São séculos de história e de opressão atravessadas por questões profundas que envolvem diversos campos de saber.  De “costela de Adão”, vistas como um ser totalmente dependente das leis implícitas ou explicitas do falocentrismo, evoluímos até a autonomia e independência do masculino para uma identidade própria, singular e independente.

Cuidar da casa, cuidar dos filhos, cuidar dos idosos, dos desvalidos, dos animais domésticos, do lar: vida privada da mater, da palavra matrimônio constituía o destino da mulher. Desbravar o mundo para buscar o sustento da família, cuidar das provisões para a casa, empreender, pater, o patrimônio, era o destino do homem. Houve época em nossa cultura onde estes papéis eram muito bem demarcados. Eram...

O que quero destacar aqui é como exige-se da mulher de hoje a encarnação do duplo registro da figura feminina: o lado doméstico e o lado público. Ou seja, multiplicação de papéis: além do âmbito doméstico – que continua sendo da alçada do feminino, agora a mulher tem que abarcar as conquistas da vida pública. E ser bem sucedida nesta empreitada...

Para além de um discurso feminista que acuse a dupla ou tripla jornada que a mulherada vive, quero aqui problematizar o sofrimento e a sobrecarga que esse modo de vida traz para a mulher contemporânea. Já apontei que esse fenômeno é extensivo ao masculino: hoje é cobrado ao homem que ele seja mais “feminino”, cuide da casa, cuide dos filhos, se cuide e etc e etc. Mas em proporção e alcance muito menores em relação às cobranças ao feminino.

A mulher encarna a malabarista equilibrando os pratos no ar, todos rodando e sem quebrar. Que escolha essa nossa, de fazer coexistir o mater e o pater! Por um lado, muito prazer e satisfação advindas de diferentes fontes de investimento e alegria. É bem verdade que o retorno é bem maior. Por outro, um certo desgaste que vai engolfando o dia a dia em funções sem fim e uma sensação de tarefas inacabadas, demandas insatisfeitas e assim por diante.

Compre uma revista voltada para o público feminino, folheie e você vai entender do que estou falando! Nesse pot pourri daquilo que é atribuído ao universo “delas” encontramos as sugestões para otimizar a vida nos mais diversos campos. Para listar alguns: corpo, saúde, vida sexual, relacionamento afetivo, filhos, família, amizades, vida acadêmica, casa, funcionários, trabalho, vida social,  pets, ufa!!!!!!!!!!

                O que quero ressaltar também é que isso tudo gera um desmapeamento nos indivíduos de hoje que são compelidos a significar e resignificar o que é ser homem ou o que é ser mulher no contemporâneo. É fato que o deslocamento do feminino também desalojou o masculino de seu lugar: estamos todos desbussolados! O homem de hoje tem que assistir ao parto do filho, fazer faxina, cozinhar: do público ao privado....

                A máxima de Simone de Beauvoir, de que a gente não nasce, a gente se torna mulher pode atualmente ser estendida aos homens, pois eles hoje também precisam aprender a se tornarem homens. Essa é a parte positiva deste desmapeamento: as inéditas e ricas possibilidades de reconstruções das subjetividades. Enquanto isso, segurem seus bastões e façam os pratos girarem...

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