quinta-feira, 7 de junho de 2012

VOCÊ USA DROGAS?

                                                                  Baco, de Caravaggio


     Pergunta complicada essa... Imediatamente a maior parte das pessoas responderá que não, pensando nas chamadas “drogas pesadas”:  crack, heroína, cocaína.  Uns poucos admitirão um “de vez em quando” mais timidamente, pensando no baseado ou no “e” (ecstasy) ou no “a” (ácido) que tomou em alguma festinha.
     Aquele que refletir um pouco mais antes de responder provavelmente  irá desenvolver algum tipo de senso crítico em relação â questão e pensará nas chamadas “drogas leves”: bebida, tabaco, medicação receitada por um médico e perceberá a complexidade do tema. E aí talvez responda que use drogas sim, já inserido em uma visão macro da problematização.
     Esse tema vem convocando a sociedade como um todo a refletir sobre a questão do uso de drogas, mas creio que essa discussão mal começou: temos ainda um longo caminho a percorrer. E pelo amplo espectro de subtemas aí envolvidos não existe um campo de saber que não tenha a contribuir para este debate. E a sociedade como um todo também.
     Mas quero aqui sublinhar basicamente a nossa absoluta imersão em uma cultura atravessada pelo consumo de drogas legais e ilegais, leves ou pesadas, como recreação ou como dependência, enfim, sobre uma certa “naturalização” do uso de drogas em nossa sociedade.
     Sem recorrer a estatísticas, visto que sabemos que os números sao impressionante e crescentes, vale lembrar que cada vez mais e mais cedo os jovens experimentam e utilizam drogas;  a dependência à drogas é uma vivência que atravessa todas as faixas etárias, as diversas classe econômicas e quase todas as culturas, assumindo contornos diversos conforme a regionalidade.
     As drogas datam de milharem de anos na história do mundo e os primeiros relatos referem-se principalmente ao uso medicinal ou ritualístico em religiões primitivas, mesmo há poucas décadas atrás utilizava-se as drogas como um favorecedor da abertura e expansão da mente, como um ato quase que político, um protesto inserido na contracultura. Até então, as drogas se encontravam referidas a algum tipo de contexto de cura, de fé ou em uma ideologia.
     A feição das drogas utilizadas majoritariamente como prazer possui poucas centenas de anos e sua grande explosão – há poucas décadas atrás - vai coincidir com  um momento histórico social que conflui a influência da cultura do narcisismo, a valorização do individualismo, à lógica do consumo capitalista e ode ao hedonismo.  Realizando muito brevemente essa rápida visada histórica que percorre milhares de anos em poucas linhas, quero principalmente destacar como o uso das drogas é hoje principalmente referido ao prazer e alienação da dor/sofrimento humanos, outrora melhor suportados  Quero destacar o quanto a cultura que vivemos favorece e estimula um modo de relação imediatista do sujeito com suas relações/objetos onde a frustração ou a postergação do prazer não possuem mais lugar.
     Nesse modo hedonista e imediatista de funcionamento da cultura, o indivíduo deve ser feliz e agora. As pessoas não devem mais sofrer. Por nada.  A dor de um sofrimento, frustração, perda, luto, enfim, os males do humano devem ser imediatamente extirpados como algo da ordem do insuportável. O mal-estar inerente à condição humana pode e deve ser anestesiado: compre, consuma, beba, coma, fume, essas são as palavras de ordem. Vigora o imperativo do “faça qualquer coisa para ser feliz”. Mesmo.  E assim nos tornamos vorazes consumidores de substâncias e de obetos que promovam – momentânea e fugazmente – essa anestesia.
     Recentemente defendi em um artigo apresentado com Marília Gabriela Brecha chamado Drogadicção no contemporâneo: reflexões sobre a cultura do consumo e a compulsão pelo objeto droga o quanto existe algo específico do modo de funcionamento da cultura atual que torna este consumo de drogas exacerbado - cultura esta regida pelo consumo e inserida na lógica da falta e do vazio. Não há nada de inédito nisso, pois Freud tematizava a busca do prazer/ alívio do sofrimento psíquico no uso de drogas como um recurso defensivo contra a dor e a infelicidade desde 1930. Questionamos é como isso agora tornou-se um modus vivendi da atualidade.
     É importante remover o véu de hipocrisia sobre o uso de drogas, pois – sem nenhum tipo de apologia, que fique claro – é comprovadamente mais nocivo a um indivíduo consumir assiduamente álcool e tabaco do que um outro sujeito que duas ou três vezes por ano uma droga “pesada”, como meio comprimido de “bala”, por exemplo. Potencialmente ambos viciam, deterioram a saúde do sujeito e levam à morte. Porém, quem de nós não frequenta habitualmente inúmeros espaços onde o álcool é consumido livremente e glorificado como a panaceia de todos os males: está feliz? Vamos “bebemorar”! Está infeliz? Vamos “bebemorar” também!
     Vale lembrar que mais do que o objeto em droga em si, o que está em jogo é o modo de relação que o sujeito estabelece com o seu objeto; inclusive quem tiver mais interesse no tema eu publiquei um livro pela Editora Juruá, que explora bem isso, intitulado Adicção: um estudo sobre passividade e violência psíquica. Mas, retomando a compreensão do modo de relacionamento do sujeito com seu objeto-droga, as gradações de utilização das drogas vão da recreação, passando para o uso habitual até chegar à dependência. Como delimitar essa linha tênue que discrimina essa gradação do domínio e controle desta relação até a completa e absoluta servidão a este objeto?
     Vivemos uma cultura adicta e estamos naturalizando isto de tal maneira que este se torna o modo de vida adotado em nossa cultura. Um exemplo disso, que tem sido bastante debatido, é o absurdo aumento da medicação controlada, o uso de drogas receitadas por médicos. Remédio para depressão, para ansiedade, para déficit de atenção, para dormir, para estimular e assim vai. Claro fique que apoio e recomendo o uso de remédios devidamente receitados conforme o determinado quadro clínico. Mas também fico bastante surpreendida que qualquer tristeza ou mesmo depressão reativa a uma perda que deve ser elaborada são prontamente anestesiadas com remédio, sem a menor preocupação com o manejo dos sentimentos e das elaborações subjetivas necessárias e funcionais para a superação do quadro.
     O mesmo vale para a ritalina, citando um exemplo, a grande “febre” da medicação infantil. Às vezes tenho a impressão que não existem mais crianças “agitadas”, “espoletas”, “pilha duracell”, existem agora crianças patologizadas: são “hiperativas”, possuem “déficit de atenção” e por aí vai. Como se essa questão também não fosse afetada pela nova formatação da criança ao urbano, confinada em espaços reduzidos, sem ter onde dispender sua energia e como se o nosso universo não fosse cada vez mais impregnados de estímulos e demandas que gradativamente afetam a nossa concentração – sejamos crianças ou adultos! Mas isso já é papo para outro “post”....
     Quero pontuar o quanto é imenso o desafio de lidar com as drogas em cada sujeito, em cada família, em cada cultura. As políticas de saúde públicas atualmente entendem que o uso de drogas é um problema da Saúde e não somente do Judiciário e é por aí que se constrói a descriminalização do usuário de drogas e a compreensão da complexidade do tema: mais do que um infrator da lei, o usuário de drogas é alguém que padece de uma doença. Doença esta que afeta toda a cultura, nas famílias, nos usuários de crack que marginalizam o crime, no alcoólatra que atropelam e mata dezenas de trabalhadores no ponto de ônibus e assim por diante.
     Nesse sentido temos que louvar o quanto a política de Redução de Danos adotada no Brasil é pioneira na estratégia na Rede de Atenção à Saúde Mental: trata-se de admitir que este é um processo que envolve inúmeros elementos e onde se almeja uma gradativa transformação da relação do usuário dependente de drogas em um sujeito que se aproprie de sua história e que possa reduzir os danos de sua drogadicção em si mesmo e em seu entorno até adquirir um domínio sobre ela  nas qual dela possa prescindir.
     Um exemplo de campanha de redução de danoso está estampado no slogan: “se for dirigir, não beba”, sem cinismos, ao se admitir que as pessoas vão beber, estimula-se uma utilização mais conscientizada do álcool e de seus efeitos no sistema nervoso central de tal maneira que dirigir se torna uma ato que oferece risco ao sujeito e aos demais. Não dirigir é reduzir o dano, é admitir que o dano existe e encontrar maneiras de minimizá-lo. Mas temos um longo caminho por aí...
     Não podemos deixar de evocar também a questão financeira envolvida no uso de drogas: do tráfico às indústrias farmacêuticas, passando pelas fábricas de cigarros e bebidas: é muito dinheiro aí envolvido, que envolve instâncias diversas. Para isso sempre recomendo os filmes “Tropa de Elite”, o primeiro – focado no Capitão Nascimento, seus dramas morais, a corrupção da policia, a ignorância dos usuários dos tentáculos do uso de drogas, o preconceito, a alienação, o “varejo” das drogas e o segundo filme da série, que vai desloca sua ótica e vai para o “atacado”: as drogas na política, a mídia e as tramas e lucros aí envolvidos. É o capital e no capitalismo tardio a droga é uma mercadoria de grande valor...
     Mas e você? Você drogas?

Um comentário:

  1. Mtas pessoas não se percebem usuárias de drogas. Não querem admitir de que às vezes esse objeto é importante. Drogas lícitas e ilícitas - usar ou não usar - eis a questão. Mas então o objeto fala mais alto e diz: só hoje!

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