segunda-feira, 30 de abril de 2012

Sobre Barbies, Replicantes e outros “bonecos”



A recente repercussão das fotos da modelo russa Valeria Lukyanova, aquela que deseja ser igual à boneca Barbie, foi postada em diversos sites.  A foto acima é uma das muitas, na grande maioria das fotos a modelo imita poses de boneca inanimada e sustenta um olhar vítreo, desvitalizado e imóvel como um objeto.

Não há nada de surpreendente ou de inédito em uma mocinha querer ser bonita como uma boneca ou mesmo de querer ser a boneca. Mas estranho, patológico até, é a pessoa se moldar e criar uma existência em torno disso, construindo sua identidade sobre uma boneca. E não apenas a russa, pois em várias partes do mundo existem outras inúmeras moças e mulheres buscando nas cirurgias estéticas esse assemelhamento à Barbie, como a norte-americana Kota Koti.

A situação, em um primeiro momento, remete imediatamente à "ditadura da beleza", do padrão do belo associado ao cabelo loiro, olho azul, cintura fina, seios fartos e etc. Esse é um dos aspectos subjacentes ao fenômeno, sem dúvida, o de uma estética padronizada que se torna referência de beleza. Mas creio que a situação nos remete a um mais além e sugere a metaforização de um movimento de “objetificação” do ser humano, do esvaziamento do desejo.

Vou daqui a pouco explorar essa objetificação do ser humano, mas antes quero abordar a questão do fascínio e mal estar que nos provoca a visão do boneco vivo, sensação que temos com robôs e determinados brinquedos que transitam nesse limiar do sujeito/objeto.

Existe um texto freudiano, chamado “O estranho”, Das Unheimlich (1919), que menciona a incômoda sensação que pode nos trazer o movimento mecânico no inanimado, a “vida” onde ela não existe. A palavra alemã “heimlich” possui a conotação de familiar, de algo de casa e um segundo sentido que se refere aquilo que é oculto, secreto, escondido por Unheimlich entende-se: misterioso, sobrenatural, que desperta horrível temor, sombrio.

É nesse contexto que Freud explora a idéia do estranho como “aquela categoria do assustador que remete ao que é  'conhecido, velho e há muito familiar" e quandoo familiar pode tornar-se estranho e assustador”. O autor explica que o sentimento de estranheza aparece em determinadas circunstâncias, quando a realidade e a fantasia se mesclam e o limite entre elas fica nebuloso. Objetos inanimados que ganham vida são um exemplo disso.

O texto é riquíssimo, pois Freud a partir do conto “Homem de areia” de E.T.A. Hoffman trabalha a castração, o duplo, narcisismo e a compulsão à repetição. Mas quero destacar aqui esse estranhamento e fascínio que o boneco animado provoca e nesse conto conhecemos o apaixonamento de Nataliel, o protagonista, por Olímpia, a robô.

Nataliel se encanta por uma vizinha que sempre se senta imóvel na janela e posteriormente a conhece na festa onde é apresentada à sociedade. Apesar de nada dizer, praticamente apenas emitir interjeições de concordância e de dançar de maneira peculiar, sua beleza é perfeita.

Nosso protagonista despreza a opinião de seus amigos que ela é estranha até a descoberta de que Olímpia é uma boneca. Não vou aqui esmiuçar o conto explorado por Freud, quero sim ressaltar esse sentimento evocado por Freud com os bonecos que ganham vida, fascínio e um certo horror: a foto da russa provoca essa estranheza.

Na pluralidade de questões que a Barbie russa me induziu a pensar, a partir da “objetificação” para a qual se oferece, me vi remetida ao contraponto desse movimento através da recordação dos Replicantes do belíssimo filme Blade Runner, e dos robôs que desejavam desesperada e violentamente se tornarem humanos.

Para relembrar, em Blade Runner (1982) Ridley Scott apresenta um cenário futurista de Los Angeles, no remoto ano de 2019, mesclando elementos da ficção científica com policial noir para contar a história do caçador de Replicantes Rick Deckard, interpretado por Harrison Ford. O livro que inspira o filme é de Philip Dick, Do androids dream of eletric sheep?

No início do filme o telespectador é informado que:

“No início do século XXI a Tyrel Corporation criou os robôs da série Nexus virtualmente idênticos aos seres humanos. Eram chamados de replicantes. Os replicantes Nexus 6 eram mais ágeis e fortes e no mínimo tão inteligentes quanto os Engenheiros genéticos que os criaram. Eles eram usados fora da Terra como escravos em tarefas perigosas da colonização planetária. Após motim sangrento de um grupo de Nexus 6, os replicantes foram declarados ilegais sob pena de morte. Policiais especiais, os blade runners, tinham ordens de atirar para matar qualquer replicante. Isto não era chamado execução, mas sim ‘aposentadoria’.”

No magnífico roteiro, Deckard caça os replicantes para “aposentá-los”, enquanto a trama desvenda um sujeito que busca a si mesmo, busca o amor de uma replicante, questiona seu entorno, enfim, o filme é sensacional em sua remissão ao humano, ao pós humano, ao identitário, ao individualismo, à solidão, ao capitalismo e à hipermodernidade, escreveria diversos posts só sobre esse filme!

Mas aonde eu quero chegar aqui é que os Nexus 6 buscam desesperadamente alongar seu tempo de vida, pois possuiriam somente cerca de 4 anos de funcionabilidade. Os Replicantes, produtos da avançada engenharia genéticas, são bonecos com prazo de validade: enquanto mercadoria estão submetidos ao valor do capital e possuem restrita vida útil.

Lutando contra o tempo e sua obsolescência, os Replicantes brigam pelas suas vidas e pela humanização, desvelam o desejo de longevidade e envelhecimento, pleiteiam suas próprias memórias, suas próprias emoções, a subjetivação.

Retorno então à  reflexão sobre a Barbie Valeria e os demais humanos que desejam se desumanizar e se objetificar – em um sentido diametralmente inverso ao dos Replicantes - em um movimento de esvaziamento de suas subjetividades e de “coisificação” de si.

Enquanto os andróides ascendem ao desejo da subjetividade, cada vez mais os sujeitos de hoje desejam se tornar objeto, mercadoria. Aliás, fenômeno muito bem descrito por Zygmunt Bauman e sua visão pós-moderna da sociedade do consumo.

Na sociedade do consumo, para se ser é preciso se ter. Essa “coisificação”, a metamorfose do sujeito em objeto perverte ainda mais e distorce essa lógica para “para se ser, é preciso se fazer objeto” para consumo. Do desejo da ascensão dos androides à subjetivação para o desejo da decadência do sujeito a objeto. Parece bem noir o nosso horizonte...

No confronto do replicante Roy Batty com Deckard, na cena final de Blade Runner, o androide anuncia sua morte e obsolescência: “somos apenas um instante na brevidade de nossas vidas, na transitoriedade de tudo”. Somos igualmente transitórios, embora nossa vida possa ser bastante longeva, mas nossas memórias, desejos, afetos, vivências são produções que nos atravessam e sobrevivem a nós.

Torno a trazer a questão da historicidade, da construção de um discurso e de uma narrativa no tempo  e na continuidade como importantes fatores na construção identitária e de humanização em nossos dias.

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