A
recente repercussão das fotos da modelo russa Valeria Lukyanova, aquela que deseja ser igual à boneca Barbie, foi postada em diversos sites. A foto acima é uma das muitas, na grande maioria das fotos a modelo imita
poses de boneca inanimada e sustenta um olhar vítreo, desvitalizado e imóvel
como um objeto.
Não
há nada de surpreendente ou de inédito em uma mocinha querer ser bonita como
uma boneca ou mesmo de querer ser a boneca. Mas estranho, patológico até, é a
pessoa se moldar e criar uma existência em torno disso, construindo sua
identidade sobre uma boneca. E não apenas a russa, pois em várias partes do
mundo existem outras inúmeras moças e mulheres buscando nas cirurgias estéticas
esse assemelhamento à Barbie, como a norte-americana Kota Koti.
A situação,
em um primeiro momento, remete imediatamente à "ditadura da beleza",
do padrão do belo associado ao cabelo loiro, olho azul, cintura fina, seios
fartos e etc. Esse é um dos aspectos subjacentes ao fenômeno, sem dúvida, o de
uma estética padronizada que se torna referência de beleza. Mas creio que a
situação nos remete a um mais além e sugere a metaforização de um movimento de “objetificação”
do ser humano, do esvaziamento do desejo.
Vou
daqui a pouco explorar essa objetificação do ser humano, mas antes quero
abordar a questão do fascínio e mal estar que nos provoca a visão do boneco
vivo, sensação que temos com robôs e determinados brinquedos que transitam
nesse limiar do sujeito/objeto.
Existe
um texto freudiano, chamado “O estranho”, Das
Unheimlich (1919), que menciona a incômoda sensação que pode nos trazer o
movimento mecânico no inanimado, a “vida” onde ela não existe. A palavra alemã “heimlich” possui a conotação de familiar,
de algo de casa e um segundo sentido que se refere aquilo que é oculto,
secreto, escondido por Unheimlich entende-se: misterioso,
sobrenatural, que desperta horrível temor, sombrio.
É
nesse contexto que Freud explora a idéia do estranho como “aquela categoria do
assustador que remete ao que é 'conhecido, velho e há muito familiar" e quando “o familiar pode tornar-se estranho e assustador”. O
autor explica que o sentimento
de estranheza aparece em determinadas circunstâncias, quando a realidade e a
fantasia se mesclam e o limite entre elas fica nebuloso. Objetos inanimados que
ganham vida são um exemplo disso.
O
texto é riquíssimo, pois Freud a partir do conto “Homem de areia” de E.T.A.
Hoffman trabalha a castração, o duplo, narcisismo e a compulsão à repetição. Mas
quero destacar aqui esse estranhamento e fascínio que o boneco animado provoca e
nesse conto conhecemos o apaixonamento de Nataliel, o protagonista, por Olímpia,
a robô.
Nataliel
se encanta por uma vizinha que sempre se senta imóvel na janela e posteriormente
a conhece na festa onde é apresentada à sociedade. Apesar de nada dizer,
praticamente apenas emitir interjeições de concordância e de dançar de maneira
peculiar, sua beleza é perfeita.
Nosso
protagonista despreza a opinião de seus amigos que ela é estranha até a descoberta
de que Olímpia é uma boneca. Não vou aqui esmiuçar o conto explorado por Freud,
quero sim ressaltar esse sentimento evocado por Freud com os bonecos que ganham
vida, fascínio e um certo horror: a
foto da russa provoca essa estranheza.
Na
pluralidade de questões que a Barbie russa me induziu a pensar, a partir da “objetificação”
para a qual se oferece, me vi remetida ao contraponto desse movimento através da
recordação dos Replicantes do belíssimo filme Blade Runner, e dos robôs que desejavam desesperada e violentamente
se tornarem humanos.
Para
relembrar, em Blade Runner (1982)
Ridley Scott apresenta um cenário futurista de Los Angeles, no remoto ano de
2019, mesclando elementos da ficção científica com policial noir para contar a história do caçador
de Replicantes Rick Deckard, interpretado por Harrison Ford. O livro que inspira
o filme é de Philip Dick, Do androids
dream of eletric sheep?
No
início do filme o telespectador é informado que:
“No início do século XXI a
Tyrel Corporation criou os robôs da série Nexus virtualmente idênticos aos
seres humanos. Eram chamados de replicantes. Os replicantes Nexus 6 eram mais
ágeis e fortes e no mínimo tão inteligentes quanto os Engenheiros genéticos que
os criaram. Eles eram usados fora da Terra como escravos em tarefas perigosas
da colonização planetária. Após motim sangrento de um grupo de Nexus 6, os
replicantes foram declarados ilegais sob pena de morte. Policiais especiais, os
blade runners, tinham ordens de atirar para matar qualquer replicante. Isto não
era chamado execução, mas sim ‘aposentadoria’.”
No magnífico
roteiro, Deckard caça os replicantes para “aposentá-los”, enquanto a trama
desvenda um sujeito que busca a si mesmo, busca o amor de uma replicante, questiona
seu entorno, enfim, o filme é sensacional em sua remissão ao humano, ao pós
humano, ao identitário, ao individualismo, à solidão, ao capitalismo e à hipermodernidade,
escreveria diversos posts só sobre
esse filme!
Mas
aonde eu quero chegar aqui é que os Nexus
6 buscam desesperadamente alongar seu tempo de vida, pois possuiriam
somente cerca de 4 anos de funcionabilidade. Os Replicantes, produtos da avançada
engenharia genéticas, são bonecos com prazo de validade: enquanto mercadoria
estão submetidos ao valor do capital e possuem restrita vida útil.
Lutando
contra o tempo e sua obsolescência, os Replicantes brigam pelas suas vidas e pela
humanização, desvelam o desejo de longevidade e envelhecimento, pleiteiam suas
próprias memórias, suas próprias emoções, a subjetivação.
Retorno
então à reflexão sobre a Barbie Valeria e os demais humanos que desejam se desumanizar e se
objetificar – em um sentido diametralmente inverso ao dos Replicantes - em um
movimento de esvaziamento de suas subjetividades e de “coisificação” de si.
Enquanto
os andróides ascendem ao desejo da subjetividade, cada vez mais os sujeitos de
hoje desejam se tornar objeto, mercadoria. Aliás, fenômeno muito bem descrito
por Zygmunt Bauman e sua visão pós-moderna da sociedade do consumo.
Na
sociedade do consumo, para se ser é
preciso se ter. Essa “coisificação”,
a metamorfose do sujeito em objeto perverte ainda mais e distorce essa lógica para “para
se ser, é preciso se fazer objeto” para consumo. Do desejo da
ascensão dos androides à subjetivação para o desejo da decadência do sujeito a
objeto. Parece bem noir o nosso
horizonte...
No
confronto do replicante Roy Batty com Deckard, na cena final de Blade Runner, o androide anuncia sua
morte e obsolescência: “somos apenas um instante na brevidade de nossas vidas,
na transitoriedade de tudo”. Somos igualmente transitórios, embora nossa vida
possa ser bastante longeva, mas nossas memórias, desejos, afetos, vivências são
produções que nos atravessam e sobrevivem a nós.
Torno
a trazer a questão da historicidade, da construção de um discurso e de uma
narrativa no tempo e na continuidade como importantes fatores na construção
identitária e de humanização em nossos dias.

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