quinta-feira, 1 de março de 2012

SOBRE A CARNIS VALLES E O OCASO DA QUARESMA


Começo explicando que este não é um post sobre religião católica, quero falar sobre um modus vivendi que observo no contemporâneo e esses termos vieram de encontro a alguns pensamentos. Metaforicamente creio que eles ajudam a expressar algumas idéias que me ocorrem.

Na rebordosa do carnaval – cada vez mais extenso com o pré e o pós carnaval frenéticos que espalham pelo Brasil – fico pensando sobre a dificuldade das pessoas retornarem para seus cotidianos. Explorando a simbologia dos termos posso avançar um pouco nessa reflexão.

A expressão “carnis valles” em latim significa os prazeres da carne, a palavra “carnaval” encontra aí sua origem. O Carnaval data da Grécia Antiga, mas é com a instituição da Semana Santa pelo Catolicismo, no século IX, que a celebração dos prazeres da carne será sofregamente desfrutada no período que antecede a penitência da Quaresma. A conhecida terça feira “gorda” seria o ápice da orgia dos apetites da carne e despedida da luxúria e hedonismo precedendo a quarta feira de Cinzas.

Durante o festim romano, os padrões de moralidade eram relaxados em prol dos prazeres da comida, bebida e da carne, o trabalho era suspenso e até os escravos ganhavam liberdade provisória. Parece que nem mudou muito esse costume para os nossos dias...

No Renascimento, o Carnaval ganhou novos ares com o uso de fantasias, bailes de máscaras e carros alegóricos, exemplo disso são as representações dos bailes de Veneza. Reis e rainhas fictícios eram eleitos, trocava-se presente.  Somos herdeiros desses modelos no Brasil, o carnaval carioca com seus desfiles das Escolas de Samba é considerado a maior festa mundial, temos o Rei Momo e as Rainhas.

Recentemente o Rio de Janeiro “ressuscitou”  o carnaval de rua e neste ano milhões – literalmente! – de foliões seguiram bandas e blocos diversos. Inspiração no modelo do Norte/Nordeste do país: o carnaval de Salvador (Bahia)  é bastante famoso e renomado pelos seus trios elétricos e blocos de rua, enquanto que em Recife (Pernambuco) o Galo da Madrugada é recordista mundial de público.

Como país católico - e ecumênico - que somos,vivemos intensamente o Carnaval e os prazeres que precedem a Quaresma, mas quando afinal que chega o mardis gras ou a terça feira gorda, data simbólica onde abdicamos dos prazeres e nos dedicamos a um longo período de reclusão de quarenta dias para a Ressurreição de Cristo, na Páscoa?

Não quero aqui discutir os dogmas ou a Igreja Católica, é parco meu conhecimento sobre liturgia e mesmo sobre a doutrina. Mas sabemos como a Igreja Católica sofreu grandes transformações em sua prática e há muito que não se professa a fé como antes, desde o cumprimento do jejum até entrar na Igreja com roupas apropriadas, prática hoje quase abandonada pela maioria dos católicos.

Já mencionei anteriormente como a Igreja é uma das instituições que sofreram grandes transformações durante a transição da Modernidade para a Pós Modernidade, a perda dos valores e preceitos advindos de seus dogmas diluiu-se bastante, mas isso é parte da questão que quero discutir.

O foco aqui é pensarmos sobre a contínua e ininterrupta celebração da carnis valles em nossos dias. Simbolicamente, parece que nossa cultura não realiza mais o tempo da reflexão, retiro, introspecção, representados pela Quaresma do Catolicismo que prega um tempo de penitência e privação para o crescimento espiritual.

Somos cada vez mais carnais, exteriorizados e imediatistas, o tempo de nosso prazer é o agora, sem postergações ou adiamentos. Parece que vivemos o ocaso da Quaresma em seu sentido simbólico: a capacidade não apenas de postergar os prazeres como deles abdicar é quase uma heresia em nossa cultura, assim como a capacidade introspectiva – ler, refletir, estudar, contemplar – está na contramão da ação, da sensação e da evitação da frustração atuais.

Freud afirmou que a busca humana visa a satisfação, a obtenção de prazer e o organismo se move nesse sentido. O célebre psicanalista concebeu o id, o ego e o superego para explicar nosso funcionamento psíquico através dessas instâncias, já conhecidas pelo senso comum e pelo anedotário popular.

Explicando brevemente, seríamos regidos inicialmente pelo princípio do prazer, onde o id reinaria soberano, com o contato com a alteridade e a cultura formar-se-ia o ego do sujeito: o principio de realidade substituiria o princípio de prazer, tolerando o desprazer pela segurança, subsistência e aprovação do outro. A internalização das leis corresponderia à formação do superego, conhecido pela função de juiz ou censor do ego.

Podemos entender que a idéia de Freud de que a civilização não seria possível se não houvesse por parte e cada sujeito a repressão e recalque de seus desejos, bem como a capacidade de frustração e de adiamento da satisfação do principio do prazer. Essa seria a condição para se viver em sociedade, saber abrir mão de seus desejos e de seus prazeres.

Aprendemos assim que devemos nos ajustar à realidade, sendo nosso desejo restrito e possível de ser satisfeito sob determinadas condições. Imaginemos assim o quanto uma época como o carnaval nos permite que possamos, legitimados pelo social, dar vazão ao nosso desejo desenfreado e ao princípio de prazer que reina em todos nós. Podemos assim desfrutar, sem supressão, censura ou postergação os carnis valles...

                Mas a sensação que tenho é que esse usufruto do carnis valles vem se tornando um evento permanente em nosso cotidiano. Em tempos de uma sociedade narcísica, auto-referendada e herdeiros de uma cultura do individualismo, o projeto do sujeito parece restrito a gozar, o gozo e a satisfação tornam-se assim quase que uma “ideologia” no contemporâneo.

                É nesse sentido que falo em um ocaso da Quaresma, em alusão a um tempo de interiorização e de aprofundamento que o sujeito parece não mais conseguir vivenciar, pois de fora para dentro existe o imperativo do gozar: não contemple, aja e desfrute intensamente cada momento.

Aliás, essa situação me remete também a impressão de um progressivo desaparecimento do trabalho de luto em nossos dias.  Parece que as pessoas não dispõem mais de tempo para o processo de elaborar perdas, reais ou simbólicas, de suas vidas, não existe a possibilidade de se poder sofrer. Se a pessoa encerra uma relação amorosa, prontamente a frase que ouve é “a fila anda!”, não há “tempo” para isso.

Aprendemos com Freud, Luto e Melancolia (1917) é um belo texto no qual aborda a questão, que o luto é um afeto/estado normal no qual o sujeito deve realizar um trabalho psíquico de renúncia do objeto perdido – pessoa, ideal, etc. De certa maneira, passamos a vida elaborando trabalhos diversos de luto pelos mais variados objetos perdidos, faz parte da realidade psíquica de todo sujeito.

Mas essa foi uma pequena digressão da associação livre... Outro aspecto sobre o Carnaval para o qual essas reflexões me encaminharam foi o quanto a nossa cultura, quiça identidade até, está ligada a esses momentos de puro prazer  e me recordo de um excelente livro do psicanalista Octavio de Souza, chamado Fantasias de Brasil: as identificações na busca da identidade nacional, da Escuta.

Neste livro o autor trabalha, a partir de autores como Roberto DaMatta, Renato Ortiz e outros, a nossa identidade brasileira extraída do exotismo e da visão do novo mundo.  Ao explicar o título do livro, Souza diz que na busca de uma identidade nacional teríamos confeccionado “uma fantasia cujo o exotismo dificulta qualquer tentativa de nos apresentarmos em trajes civis”.

Ao meu ver, esta “fantasia” de pais exótico e carnavalesco é agora, cada vez mais, acrescida de atributos hedonistas e maníacos, sempre alegres, sempre festivos, e assim, na carnis valles ficamos agora fantasiados o ano inteiro...

Um comentário:

  1. Ninguém quer ressuscitar para suas verdadeiras responsabilidades como ser humano. Consequência, caos.

    ResponderExcluir