Para começar nossa
conversa de hoje, vou descrever o anúncio que foi veiculado na televisão do
produto Nestfit, no começo do verão. A protagonista do comercial é uma moça e a trama se
desenvolve a partir de sua chegada à praia quando começa a se despir; neste
momento o narrador do comercial questiona se ela está pronta para ficar de
biquíni. E aí ela silenciosamente decide que não está, ficando então vestida e
sentada na cadeira de praia enquanto os demais se divertem, em diversas atividades,
em trajes de banho.
Prosseguindo no desenrolar
do comercial, depois de nossa protagonista consumir o Nestfit e fazer a tal da “Operação
biquíni”, ela retorna a praia e a última cena do comercial é ela jogando vôlei
com os amigos, finalmente desnuda e podendo fazer parte do grupo.
Assim encaminhado, o
comercial induz o telespectador a concordar que aquele que não está com o
perfeito corpo padronizado pelo social – e pelo comercial porta voz desse
discurso – não pode usufruir da praia, das brincadeiras e nem ser feliz. Somos
convocados a sermos cúmplices dessa “operação”.
A interpretação que faço
desse comercial é que, se o telespectador não seguir o padrão imposto, ele não
pode usufruir da praia, da diversão, da interação com os amigos, deve se esconder
sob as roupas e só “viver” a vida se estiver em condições de nela exibir um
corpo padrão socialmente construído que exige magreza, juventude e beleza.
A Nestlé afirma que a
campanha é sobre reeducação alimentar, mas a mensagem subliminar que é
veiculada é outra: esconda seu corpo se você não estiver nos moldes socialmente
exigidos. Desta maneira se massacra a auto-imagem e auto-estima de todas as
pessoas em formação emocional - e mesmo aquelas já formadas mas inseguras - que
assistem ao anúncio, aliás, um dos muitos veiculados com o mesmo teor.
Podemos assim entender a
construção de um pertencimento ou exclusão do grupo social - e da correlata felicidade
- veiculadas a um corpo padrão. E assim se modela também a proliferação de distúrbios
como a anorexia, a vigorexia e outras patologias ensejadas
pela nossa cultura.
Conforme
nos explica Mirian Goldemberg, antropóloga dedicada ao estudo do corpo em
diversas culturas, o corpo é um capital simbólico, econômico e social e, nesta
construção social, cada cultura vai
valorizar determinados atributos e comportamentos em detrimento
de outros.
O
corpo padrão idealizado no contemporâneo traduz aquilo que hoje se torna um
bem valorizado e aceito socialmente, e, embora existam variações de uma cultura
para outra, existe em comum atributos como beleza, magreza, juventude. Aliás o livro da
pesquisadora é imperdível - Coroas:
corpo, envelhecimento, casamento - e nos ajuda a entender como no Brasil “o
corpo é a roupa”, diferindo de outras localizações geográficas e históricas.
Para termos idéia desta
padronização do corpo social ideal, uma recente campanha européia simplesmente
copiou um mesmo corpo para todas as modelos de um anúncio de biquíni, colando
diferentes cabeças nesta montagem. É esta a foto que se encontra ilustrando
esse texto, concebida para uma campanha de uma rede de lojas de origem sueca, H
& M. Um corpo cabide, livre de excessos e marcas indesejáveis: gorduras,
flacidez, estrias, celulites, rugas.
Em época de carnaval,
verão e de realities shows, me vem a
sensação de que nossa sociedade já faz essa manipulação de corpos na vida real
e não apenas em montagens de fotos. As madrinhas de bateria, destaques,
passistas, sisters, parecem todas
formatadas no mesmo padrão, com cabelos, seios (silicones), glúteos, pernas e
bíceps identicamente modelados. Nesta “ala” da escola de samba, parecem todas
que colocaram a mesma fantasia...
Os números apontam que
cerca de 70% das cirurgias realizadas no Brasil são estéticas, somos os
terceiros no ranking mundial,
precedidos pelos Estados Unidos e Japão. Vale observar que as mulheres são as
principais consumidoras de procedimentos cirúrgicos, são cerca de 80% de
mulheres e de 20% de homens que compõe a clientela.
Como afirma Liana Riscado
em sua dissertação de mestrado na Eicos (UFRJ), Culto ao corpo: o significado da cirurgia estética entre mulheres
jovens no Rio de Janeiro, o corpo da atualidade é um objeto de design, um cartão de visitas, um corpo
atravessado pelos imperativos da sociedade publicizada.
Esse corpo “cartão de
visitas” em nossa cultura corpólatra passou a ser objeto de adoração, bem como
passível de inúmeras manipulações e modificações em busca do ideal projetado
pela sociedade. Este modelo de subjetivação referenciado ao corpo ideal
atravessa toda a cultura ocidental e alguns países orientais, atingindo
indiscriminadamente os gêneros e as faixas etárias. Vale lembrar que, com a
globalização, começou a existir uma certa pasteurização ou homogeinização dos
parâmetros de beleza.
Em recente trabalho
apresentado em Congresso, em co-autoria com Livia Suisso Lourenço[1], observamos como nossa
cultura está a serviço do corpo: com o surgimento das novas técnicas e procedimentos
cirúrgicos ou estéticos ampliaram-se as possibilidades de intervenção,
manipulação e artificialização sobre o corpo.
Neste trabalho,
desenvolvemos a idéia de que na cultura midiática e imagética, o corpo –
superfície e aparência – assumiu lugar soberano: o sujeito é aquilo que ele parece
ser e esta aparência torna-se objeto de grande investimento de tempo e
dinheiro. E o subsequente esvaziamento subjetivo do indivíduo e de sua
capacidade de interiorização apenas fomentam que o sujeito permaneça nas
aparências, no superficial e no imediato: o corpo vai ocupando o cenário
psíquico do indivíduo, que passa a agir e funcionar a partir deste
corpo-sujeito.
Sem me alongar, entendo
que esse corpo tornou-se quase que o único “bem” do indivíduo da atualidade,
pois mediando as transformações da relação do sujeito com seu corpo/imagem,
encontramos uma radical modificação nos valores econômicos, sociais, políticos
e ideológicos que sustentaram subjetivamente os sujeitos da Modernidade.
Considero também que essa
corpolatria é, majoritariamente, “herdeira” da perda de utopias e ideologias do
sujeito pós-moderno. O maciço investimento narcísico e a concepção de si mesmo
como um “projeto” tornaram característicos do sujeito da Pós Modernidade e,
nesse sentido, o corpo assumiu posição de destaque nesse projeto.
Por um lado, o corpo
passou a ser objeto de adoração a partir da projeção da imagem de um corpo
idealizado construído pela cultura pós-moderna, por outro lado, esse corpo
passou a ser também cenário onde se proliferam diversas psicopatologias ligadas
ao corpo, como síndromes do pânico, drogadicção, anorexias, bulimias, entre
outras. Corpo idealizado por um lado e corpo angustiado por outro, com o corpo
se tornando cada vez mais a expressão de sofrimentos pessoais e sociais, mas
esse já é tema para outra conversa...
[1] “Adolescência
no contemporâneo: considerações sobre a cultura do consumo e a corpolatria” - Trabalho
apresentado em Goiânia e enviado para publicação dos Anais do VIII Encontro Nacional da ABEP (Associação Brasileira de
Ensino em Psicologia)

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