sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sobre o sujeito, a identidade e cultura corpólatra


Para começar nossa conversa de hoje, vou descrever o anúncio que foi veiculado na televisão do produto Nestfit, no começo do verão. A protagonista  do comercial é uma moça e a trama se desenvolve a partir de sua chegada à praia quando começa a se despir; neste momento o narrador do comercial questiona se ela está pronta para ficar de biquíni. E aí ela silenciosamente decide que não está, ficando então vestida e sentada na cadeira de praia enquanto os demais se divertem, em diversas atividades, em trajes de banho.

Prosseguindo no desenrolar do comercial, depois de nossa protagonista consumir o Nestfit e fazer a tal da “Operação biquíni”, ela retorna a praia e a última cena do comercial é ela jogando vôlei com os amigos, finalmente desnuda e podendo fazer parte do grupo.

Assim encaminhado, o comercial induz o telespectador a concordar que aquele que não está com o perfeito corpo padronizado pelo social – e pelo comercial porta voz desse discurso – não pode usufruir da praia, das brincadeiras e nem ser feliz. Somos convocados a sermos cúmplices dessa “operação”.

A interpretação que faço desse comercial é que, se o telespectador não seguir o padrão imposto, ele não pode usufruir da praia, da diversão, da interação com os amigos, deve se esconder sob as roupas e só “viver” a vida se estiver em condições de nela exibir um corpo padrão socialmente construído que exige magreza, juventude e beleza.

A Nestlé afirma que a campanha é sobre reeducação alimentar, mas a mensagem subliminar que é veiculada é outra: esconda seu corpo se você não estiver nos moldes socialmente exigidos. Desta maneira se massacra a auto-imagem e auto-estima de todas as pessoas em formação emocional - e mesmo aquelas já formadas mas inseguras - que assistem ao anúncio, aliás, um dos muitos veiculados com o mesmo teor.

Podemos assim entender a construção de um pertencimento ou exclusão do grupo social - e da correlata felicidade - veiculadas a um corpo padrão. E assim se modela também a proliferação de distúrbios como a anorexia, a vigorexia e outras patologias ensejadas pela nossa cultura.

Conforme nos explica Mirian Goldemberg, antropóloga dedicada ao estudo do corpo em diversas culturas, o corpo é um capital simbólico, econômico e social e, nesta construção social, cada cultura vai valorizar determinados atributos e comportamentos em detrimento de outros.

O corpo padrão idealizado no contemporâneo traduz aquilo que hoje se torna um bem valorizado e aceito socialmente, e, embora existam variações de uma cultura para outra, existe em comum atributos como beleza, magreza, juventude. Aliás o livro da pesquisadora é imperdível - Coroas: corpo, envelhecimento, casamento - e nos ajuda a entender como no Brasil “o corpo é a roupa”, diferindo de outras localizações geográficas e históricas.

Para termos idéia desta padronização do corpo social ideal, uma recente campanha européia simplesmente copiou um mesmo corpo para todas as modelos de um anúncio de biquíni, colando diferentes cabeças nesta montagem. É esta a foto que se encontra ilustrando esse texto, concebida para uma campanha de uma rede de lojas de origem sueca, H & M. Um corpo cabide, livre de excessos e marcas indesejáveis: gorduras, flacidez, estrias, celulites, rugas.

Em época de carnaval, verão e de realities shows, me vem a sensação de que nossa sociedade já faz essa manipulação de corpos na vida real e não apenas em montagens de fotos. As madrinhas de bateria, destaques, passistas, sisters, parecem todas formatadas no mesmo padrão, com cabelos, seios (silicones), glúteos, pernas e bíceps identicamente modelados. Nesta “ala” da escola de samba, parecem todas que colocaram a mesma fantasia...

Os números apontam que cerca de 70% das cirurgias realizadas no Brasil são estéticas, somos os terceiros no ranking mundial, precedidos pelos Estados Unidos e Japão. Vale observar que as mulheres são as principais consumidoras de procedimentos cirúrgicos, são cerca de 80% de mulheres e de 20% de homens que compõe a clientela.

Como afirma Liana Riscado em sua dissertação de mestrado na Eicos (UFRJ), Culto ao corpo: o significado da cirurgia estética entre mulheres jovens no Rio de Janeiro, o corpo da atualidade é um objeto de design, um cartão de visitas, um corpo atravessado pelos imperativos da sociedade publicizada.

Esse corpo “cartão de visitas” em nossa cultura corpólatra passou a ser objeto de adoração, bem como passível de inúmeras manipulações e modificações em busca do ideal projetado pela sociedade. Este modelo de subjetivação referenciado ao corpo ideal atravessa toda a cultura ocidental e alguns países orientais, atingindo indiscriminadamente os gêneros e as faixas etárias. Vale lembrar que, com a globalização, começou a existir uma certa pasteurização ou homogeinização dos parâmetros de beleza.

Em recente trabalho apresentado em Congresso, em co-autoria com Livia Suisso Lourenço[1], observamos como nossa cultura está a serviço do corpo: com o surgimento das novas técnicas e procedimentos cirúrgicos ou estéticos ampliaram-se as possibilidades de intervenção, manipulação e artificialização sobre o corpo.

Neste trabalho, desenvolvemos a idéia de que na cultura midiática e imagética, o corpo – superfície e aparência – assumiu lugar soberano: o sujeito é aquilo que ele parece ser e esta aparência torna-se objeto de grande investimento de tempo e dinheiro. E o subsequente esvaziamento subjetivo do indivíduo e de sua capacidade de interiorização apenas fomentam que o sujeito permaneça nas aparências, no superficial e no imediato: o corpo vai ocupando o cenário psíquico do indivíduo, que passa a agir e funcionar a partir deste corpo-sujeito.

Sem me alongar, entendo que esse corpo tornou-se quase que o único “bem” do indivíduo da atualidade, pois mediando as transformações da relação do sujeito com seu corpo/imagem, encontramos uma radical modificação nos valores econômicos, sociais, políticos e ideológicos que sustentaram subjetivamente os sujeitos da Modernidade.

Considero também que essa corpolatria é, majoritariamente, “herdeira” da perda de utopias e ideologias do sujeito pós-moderno. O maciço investimento narcísico e a concepção de si mesmo como um “projeto” tornaram característicos do sujeito da Pós Modernidade e, nesse sentido, o corpo assumiu posição de destaque nesse projeto.

Por um lado, o corpo passou a ser objeto de adoração a partir da projeção da imagem de um corpo idealizado construído pela cultura pós-moderna, por outro lado, esse corpo passou a ser também cenário onde se proliferam diversas psicopatologias ligadas ao corpo, como síndromes do pânico, drogadicção, anorexias, bulimias, entre outras. Corpo idealizado por um lado e corpo angustiado por outro, com o corpo se tornando cada vez mais a expressão de sofrimentos pessoais e sociais, mas esse já é tema para outra conversa...



[1]Adolescência no contemporâneo: considerações sobre a cultura do consumo e a corpolatria” - Trabalho apresentado em Goiânia e enviado para publicação dos Anais do VIII Encontro Nacional da ABEP (Associação Brasileira de Ensino em Psicologia)

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