segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Mendigos, índios, prostitutas e similares: sobre o (nosso) “expurgo”


O recente caso de espancamento de um mendigo no Rio de Janeiro ganhou grande repercussão na mídia, creio eu que principalmente devido ao fato de um rapaz e seu amigo terem interferido na cena para defender a vítima. Os dois rapazes foram em socorro do mendigo e, enquanto um deles foi imobilizado, o outro rapaz foi violentamente espancado, com mais virulência ainda do que na primeira vítima, o pedinte. O segundo rapaz, Vítor, implantou sessenta e três pinos de titânio na face, oito placas, uma tela e risco de perda de visão do olho direito.
Em nossos tempos o que deveria ser um nobre e natural gesto de solidariedade ante a uma covarde cena tornou-se um gesto heróico a ser celebrado. A tal ponto de quase ofuscar o espancamento do mendigo, essa sim uma cena cada vez mais usual. Sequer achei o nome do mendigo defendido no Google, acho que este já é um sintoma...
O rapaz em sua alta do hospital fazia questão de dizer que não foi um ato heróico. Será que não? Quantos de nós imitaríamos este gesto? Esse vazio de heróis em nossos tempos é um outro tema que me gera várias questões, mas agora quero me focar na notícia do espancamento do mendigo.
Ao ler a reportagem, imediatamente fui remetida à lembrança do índio Pataxó que foi incendiado em Brasília ou à empregada doméstica que foi espancada em um ponto de ônibus no Rio porque os espancadores acharam – essa foi a alegação dos criminosos - que ela seria uma prostituta. Em seqüência me recordo da chacina dos menores ocorrida na Candelária e de outras tantas ocorrências lamentáveis envolvendo segmentos sociais menos favorecidos ou “invisíveis” socialmente.
Em comum, na violência generalizada dirigida a mendigos, índios, prostitutas, menores, enfim, está a invisibilidade, o chamado “refugo humano” da sociedade, conforme coloca Zygmunt Bauman, ao teorizar sobre os “produtos rejeitados da globalização”. Ou aquilo que não queremos ver: mendigos, menores, prostitutas...
Bauman é bastante conhecido principalmente por suas teorizações sobre a modernidade líquida e sobre a fluidez da vida contemporânea, globalizada e atravessada pelo “derretimento” das sólidas estruturas na Pós Modernidade.
Falei em post anterior como a perda do “sólido” das ideologias e instituições que  sustentavam/orientavam a vida e subjetividades humanas estão fomentando um sujeito mergulhado em incertezas e fragilidades ante perdas de parâmetros, costumes , modos de vida. Usando a terminologia de Bauman, a “liquidez”  explica o  “derretimento ” das “sólidas” ideologias da Modernidade que se tornaram fluidas, incertas, cambiantes, precárias.
Para entender os conceitos de liquidez e fluidez, o autor explica que entre os acontecimentos que favoreceram o desmoronamento da “solidez” da Modernidade encontra-se o Holocausto, o fracasso do modelo econômico proposto pelo ocidente, o corrente processo de globalização e a transformação de uma cultura da socialização para a individuação.
Sobre este último ponto, vale pontuar como os valores individuais passaram a prevalecer sobre os valores sociais e coletivos, naquilo que outros autores mencionam como o esvaziamento da esfera pública. Esse é outro fator importantíssimo de compreensão de nosso funcionamento pessoal/social que pretendo explorar em outro momento.

    Essa individuação narcísica implica também apenas a aceitação do semelhante, do idêntico e especular. O outro, o diferente, torna-se assim uma ameaça, ou, como diria Caetano Veloso: “o narciso acha feio o que não é espelho”...
O pensamento do sociólogo polonês é bem mais complexo do que mencionei e envolve a cultura de consumo, a identidade de consumidor relacionada à cidadania, a globalização e outros tantos relevantes temas. Quero aqui destacar do autor a afirmação de que - mais do que em outro momento histórico – a nossa cultura “produz expurgos” para relacionar esta idéia com o espancamento do mendigo.
Para quem se interessar em conhecer a teoria de Bauman, são diversos os textos onde encontramos o aprofundamento deste pensamento: Modernidade Líquida, Modernidade e Ambivalência, Vida Líquida, Ética da Pós Modernidade....
Se, por um lado, podemos realizar uma leitura sociológica desses fenômenos, entendendo que o social de alguma maneira produz e exclui o refugo humano do qual estamos falando, por outro lado podemos questionar o que subjaz emocionalmente a estes comportamentos tão violentos.
 O que leva um indivíduo a espancar violentamente um outro indivíduo, sem motivos desencadeadores ou explícitos? Amplio agora estes exemplos de violência gratuita referentes a outras agressões que também são frequentes: homossexuais, nordestinos, torcedor de um time rival e etc.
Quando um indivíduo considera que mendigos, índios, prostitutas, gays, nordestinos, alguém da torcida de outro time não são semelhantes a si mesmos, são outros, estranhos, intrusos, esvaziando assim o outro de humanidade.  Vemos em ação um mecanismo de objetificação e desumanização de indivíduos que não são reconhecidos como sujeitos pelos espancadores: são coisas, coisas desprezíveis.
Sociologicamente, entendemos a teoria que sustenta que esses sujeitos não correspondem ao ideal do consumidor forjado por uma cultura e pelo marketing/mídia. Esses indivíduos que agridem aqueles que consideram diferentes de si –  indivíduos doentes sem dúvida - reproduzem o mecanismo de expurgo, de purgar a “ferida” que estas pessoas explicitam existir na globalizada sociedade do consumo e o fazem através dessa aniquilação/destruição do outro.
Por outro lado, psicologicamente, por que esses sujeitos incomodam tanto um indivíduo, de tal maneira que este precisa destruir, aniquilar este outro?  O que existe nesse outro diferente que incita e mobiliza dentro do sujeito tanta raiva e horror, tamanha vontade de negar essa existência até a morte?
Talvez estes sujeitos apontem para a possibilidade de cada um de nós sermos excluídos e expurgados pelo social, aponta para a nossa imperfeição, falta... E isso causa um profundo mal estar, uma vez que expõe a nossa condição humana de falibilidade e fragilidade.

    Em determinadas pessoas isso pode se traduzir em um preconceito discreto, em um discurso intelectual, já em outras, renegar e atacar violentamente – física e moralmente - o que lhe causa horror evidencia a precariedade psíquica de lidar com a diferença, a falha, as feridas narcísicas inerentes ao humano.
Aponta para o primitivo em nós, o não simbolizado, não significado, não mediado pela linguagem, pela lei e pelo outro.
Evidencia também a nossa falha como cultura em conseguir subjetivar, tornar sujeitos aqueles com os quais não conseguimos nos identificar, aponta para o nosso medo de lidar com a alteridade e a diferença, assim como com aquilo que expõem as nossas próprias purgações, pessoais e sociais.
O caminho da evolução do selvagem hominídeo para o homo sapiens apresenta a aquisição da linguagem, do simbólico, da capacidade de abstração e relativização. O que estará nos faltando em plena Era do Informacionismo e da cultura midiática? Tanta informação, tantas palavras e imagens não tornaram o homem pós-moderno tão “civilizado” quanto se imaginaria...

3 comentários:

  1. Cada um de nós é obrigado a assumir ,essa globalização do mal,que sustenta o que,então, é preciso chamar de um ato primitivo.Tudo indica que vivemos atualmente sem respeito e aceitação pessoal.Tal como vivemos hoje é muito difícil, perceber a condição humana frágil.Podemos construir outra maneira de aprender a viver,para alcançar a plenitude como humanos, de uma forma profunda e amigável. Juliano Zippin

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  2. Quando eu assisti ao filme Laranja Mecânica pela primeira vez aos 14 anos eu não entendi, na segunda vez aos 18 eu o achei profético. Agora, aos 36, eu o acho atual... infelizmente.

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  3. @Mednight, muito bem lembrado o exemplo do filme de Kubrick, de fato, muito atual e bastante pertinente para pensarmos os nossos dias, assustador, mas real...
    @Juliano, acredito sinceramente que possamos e devamos criar laços sociais, mais ricos, profundos, solidários e respeitosos à alteridade, penso inclusive que este espaço de trocas e reflexões através do blog pretende essa função de ligação, de troca e construção do diálogo.
    Grande e fraterno abraço!

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