O recente caso
de espancamento de um mendigo no Rio de Janeiro ganhou grande repercussão na
mídia, creio eu que principalmente devido ao fato de um rapaz e seu amigo terem
interferido na cena para defender a vítima. Os dois rapazes foram em socorro do
mendigo e, enquanto um deles foi imobilizado, o outro rapaz foi violentamente
espancado, com mais virulência ainda do que na primeira vítima, o pedinte. O
segundo rapaz, Vítor, implantou sessenta e três pinos de titânio na face, oito
placas, uma tela e risco de perda de visão do olho direito.
Em nossos
tempos o que deveria ser um nobre e natural gesto de solidariedade ante a uma covarde
cena tornou-se um gesto heróico a ser celebrado. A tal ponto de quase ofuscar o
espancamento do mendigo, essa sim uma cena cada vez mais usual. Sequer achei o
nome do mendigo defendido no Google, acho que este já é um sintoma...
O rapaz em sua
alta do hospital fazia questão de dizer que não foi um ato heróico. Será que
não? Quantos de nós imitaríamos este gesto? Esse vazio de heróis em nossos
tempos é um outro tema que me gera várias questões, mas agora quero me focar na
notícia do espancamento do mendigo.
Ao ler a
reportagem, imediatamente fui remetida à lembrança do índio Pataxó que foi
incendiado em Brasília ou à empregada doméstica que foi espancada em um ponto
de ônibus no Rio porque os espancadores acharam – essa foi a alegação dos
criminosos - que ela seria uma prostituta. Em seqüência me recordo da chacina
dos menores ocorrida na Candelária e de outras tantas ocorrências lamentáveis
envolvendo segmentos sociais menos favorecidos ou “invisíveis” socialmente.
Em comum, na
violência generalizada dirigida a mendigos, índios, prostitutas, menores, enfim,
está a invisibilidade, o chamado “refugo humano” da sociedade, conforme coloca Zygmunt
Bauman, ao teorizar sobre os “produtos rejeitados da globalização”. Ou aquilo
que não queremos ver: mendigos, menores, prostitutas...
Bauman é
bastante conhecido principalmente por suas teorizações sobre a modernidade
líquida e sobre a fluidez da vida contemporânea, globalizada e atravessada pelo
“derretimento” das sólidas estruturas na Pós Modernidade.
Falei em post anterior como a perda do “sólido”
das ideologias e instituições que sustentavam/orientavam
a vida e subjetividades humanas estão fomentando um sujeito mergulhado em
incertezas e fragilidades ante perdas de parâmetros, costumes , modos de vida.
Usando a terminologia de Bauman, a “liquidez”
explica o “derretimento ” das
“sólidas” ideologias da Modernidade que se tornaram fluidas, incertas,
cambiantes, precárias.
Para entender os
conceitos de liquidez e fluidez, o autor explica que entre os acontecimentos que
favoreceram o desmoronamento da “solidez” da Modernidade encontra-se o
Holocausto, o fracasso do modelo econômico proposto pelo ocidente, o corrente processo
de globalização e a transformação de uma cultura da socialização para a
individuação.
Sobre este
último ponto, vale pontuar como os valores individuais passaram a prevalecer
sobre os valores sociais e coletivos, naquilo que outros autores mencionam como
o esvaziamento da esfera pública. Esse é outro fator importantíssimo de
compreensão de nosso funcionamento pessoal/social que pretendo explorar em
outro momento.
Essa individuação narcísica implica também apenas a aceitação do semelhante, do idêntico e especular. O outro, o diferente, torna-se assim uma ameaça, ou, como diria Caetano Veloso: “o narciso acha feio o que não é espelho”...
Essa individuação narcísica implica também apenas a aceitação do semelhante, do idêntico e especular. O outro, o diferente, torna-se assim uma ameaça, ou, como diria Caetano Veloso: “o narciso acha feio o que não é espelho”...
O pensamento
do sociólogo polonês é bem mais complexo do que mencionei e envolve a cultura
de consumo, a identidade de consumidor relacionada à cidadania, a globalização
e outros tantos relevantes temas. Quero aqui destacar do autor a afirmação de
que - mais do que em outro momento histórico – a nossa cultura “produz
expurgos” para relacionar esta idéia com o espancamento do mendigo.
Para quem se
interessar em conhecer a teoria de Bauman, são diversos os textos onde
encontramos o aprofundamento deste pensamento: Modernidade Líquida, Modernidade
e Ambivalência, Vida Líquida, Ética da Pós Modernidade....
Se, por um
lado, podemos realizar uma leitura sociológica desses fenômenos, entendendo que
o social de alguma maneira produz e exclui o refugo humano do qual estamos
falando, por outro lado podemos questionar o que subjaz emocionalmente a estes
comportamentos tão violentos.
O que leva um indivíduo a espancar violentamente
um outro indivíduo, sem motivos desencadeadores ou explícitos? Amplio agora
estes exemplos de violência gratuita referentes a outras agressões que também
são frequentes: homossexuais, nordestinos, torcedor de um time rival e etc.
Quando um indivíduo
considera que mendigos, índios, prostitutas, gays, nordestinos, alguém da
torcida de outro time não são semelhantes a si mesmos, são outros, estranhos,
intrusos, esvaziando assim o outro de humanidade. Vemos em ação um mecanismo de objetificação e
desumanização de indivíduos que não são reconhecidos como sujeitos pelos
espancadores: são coisas, coisas desprezíveis.
Sociologicamente,
entendemos a teoria que sustenta que esses sujeitos não correspondem ao ideal
do consumidor forjado por uma cultura e pelo marketing/mídia. Esses indivíduos
que agridem aqueles que consideram diferentes de si – indivíduos doentes sem dúvida - reproduzem o
mecanismo de expurgo, de purgar a “ferida” que estas pessoas explicitam existir
na globalizada sociedade do consumo e o fazem através dessa
aniquilação/destruição do outro.
Por outro
lado, psicologicamente, por que esses sujeitos incomodam tanto um indivíduo, de
tal maneira que este precisa destruir, aniquilar este outro? O que existe nesse outro diferente que incita
e mobiliza dentro do sujeito tanta raiva e horror, tamanha vontade de negar
essa existência até a morte?
Talvez estes
sujeitos apontem para a possibilidade de cada um de nós sermos excluídos e
expurgados pelo social, aponta para a nossa imperfeição, falta... E isso causa
um profundo mal estar, uma vez que expõe a nossa condição humana de
falibilidade e fragilidade.
Em determinadas pessoas isso pode se traduzir em um preconceito discreto, em um discurso intelectual, já em outras, renegar e atacar violentamente – física e moralmente - o que lhe causa horror evidencia a precariedade psíquica de lidar com a diferença, a falha, as feridas narcísicas inerentes ao humano.
Em determinadas pessoas isso pode se traduzir em um preconceito discreto, em um discurso intelectual, já em outras, renegar e atacar violentamente – física e moralmente - o que lhe causa horror evidencia a precariedade psíquica de lidar com a diferença, a falha, as feridas narcísicas inerentes ao humano.
Aponta para o
primitivo em nós, o não simbolizado, não significado, não mediado pela
linguagem, pela lei e pelo outro.
Evidencia
também a nossa falha como cultura em conseguir subjetivar, tornar sujeitos
aqueles com os quais não conseguimos nos identificar, aponta para o nosso medo
de lidar com a alteridade e a diferença, assim como com aquilo que expõem as
nossas próprias purgações, pessoais e sociais.
O caminho da
evolução do selvagem hominídeo para o homo
sapiens apresenta a aquisição da linguagem, do simbólico, da capacidade de
abstração e relativização. O que estará nos faltando em plena Era do
Informacionismo e da cultura midiática? Tanta informação, tantas palavras e
imagens não tornaram o homem pós-moderno tão “civilizado” quanto se
imaginaria...

Cada um de nós é obrigado a assumir ,essa globalização do mal,que sustenta o que,então, é preciso chamar de um ato primitivo.Tudo indica que vivemos atualmente sem respeito e aceitação pessoal.Tal como vivemos hoje é muito difícil, perceber a condição humana frágil.Podemos construir outra maneira de aprender a viver,para alcançar a plenitude como humanos, de uma forma profunda e amigável. Juliano Zippin
ResponderExcluirQuando eu assisti ao filme Laranja Mecânica pela primeira vez aos 14 anos eu não entendi, na segunda vez aos 18 eu o achei profético. Agora, aos 36, eu o acho atual... infelizmente.
ResponderExcluir@Mednight, muito bem lembrado o exemplo do filme de Kubrick, de fato, muito atual e bastante pertinente para pensarmos os nossos dias, assustador, mas real...
ResponderExcluir@Juliano, acredito sinceramente que possamos e devamos criar laços sociais, mais ricos, profundos, solidários e respeitosos à alteridade, penso inclusive que este espaço de trocas e reflexões através do blog pretende essa função de ligação, de troca e construção do diálogo.
Grande e fraterno abraço!