Começo explicando
que este não é um post sobre religião
católica, quero falar sobre um modus
vivendi que observo no contemporâneo e esses termos vieram de encontro a
alguns pensamentos. Metaforicamente creio que eles ajudam a expressar algumas idéias que me ocorrem.
Na rebordosa
do carnaval – cada vez mais extenso com o pré e o pós carnaval frenéticos que
espalham pelo Brasil – fico pensando sobre a dificuldade das pessoas retornarem
para seus cotidianos. Explorando a simbologia dos termos posso avançar um pouco
nessa reflexão.
A expressão “carnis valles” em latim significa os
prazeres da carne, a palavra “carnaval” encontra aí sua origem. O Carnaval data
da Grécia Antiga, mas é com a instituição da Semana Santa pelo Catolicismo, no
século IX, que a celebração dos prazeres da carne será sofregamente desfrutada
no período que antecede a penitência da Quaresma. A conhecida terça feira
“gorda” seria o ápice da orgia dos apetites da carne e despedida da luxúria e
hedonismo precedendo a quarta feira de Cinzas.
Durante o
festim romano, os padrões de moralidade eram relaxados em prol dos prazeres da
comida, bebida e da carne, o trabalho era suspenso e até os escravos ganhavam
liberdade provisória. Parece que nem mudou muito esse costume para os nossos
dias...
No Renascimento,
o Carnaval ganhou novos ares com o uso de fantasias, bailes de máscaras e
carros alegóricos, exemplo disso são as representações dos bailes de Veneza.
Reis e rainhas fictícios eram eleitos, trocava-se presente. Somos herdeiros desses modelos no Brasil, o
carnaval carioca com seus desfiles das Escolas de Samba é considerado a maior
festa mundial, temos o Rei Momo e as Rainhas.
Recentemente o
Rio de Janeiro “ressuscitou” o carnaval
de rua e neste ano milhões – literalmente! – de foliões seguiram bandas e blocos
diversos. Inspiração no modelo do Norte/Nordeste do país: o carnaval de
Salvador (Bahia) é bastante famoso e
renomado pelos seus trios elétricos e blocos de rua, enquanto que em Recife
(Pernambuco) o Galo da Madrugada é recordista mundial de público.
Como país
católico - e ecumênico - que somos,vivemos intensamente o Carnaval e os
prazeres que precedem a Quaresma, mas quando afinal que chega o mardis gras ou a terça feira gorda, data
simbólica onde abdicamos dos prazeres e nos dedicamos a um longo período de
reclusão de quarenta dias para a Ressurreição de Cristo, na Páscoa?
Não quero aqui
discutir os dogmas ou a Igreja Católica, é parco meu conhecimento sobre liturgia
e mesmo sobre a doutrina. Mas sabemos como a Igreja Católica sofreu grandes
transformações em sua prática e há muito que não se professa a fé como antes,
desde o cumprimento do jejum até entrar na Igreja com roupas apropriadas,
prática hoje quase abandonada pela maioria dos católicos.
Já mencionei
anteriormente como a Igreja é uma das instituições que sofreram grandes
transformações durante a transição da Modernidade para a Pós Modernidade, a
perda dos valores e preceitos advindos de seus dogmas diluiu-se bastante, mas
isso é parte da questão que quero discutir.
O foco aqui é
pensarmos sobre a contínua e ininterrupta celebração da carnis valles em nossos dias. Simbolicamente, parece que nossa
cultura não realiza mais o tempo da reflexão, retiro, introspecção, representados
pela Quaresma do Catolicismo que prega um tempo de penitência e privação para o
crescimento espiritual.
Somos cada vez
mais carnais, exteriorizados e imediatistas, o tempo de nosso prazer é o agora,
sem postergações ou adiamentos. Parece que vivemos o ocaso da Quaresma em seu
sentido simbólico: a capacidade não apenas de postergar os prazeres como deles
abdicar é quase uma heresia em nossa cultura, assim como a capacidade
introspectiva – ler, refletir, estudar, contemplar – está na contramão da ação,
da sensação e da evitação da frustração atuais.
Freud afirmou
que a busca humana visa a satisfação, a obtenção de prazer e o organismo se
move nesse sentido. O célebre psicanalista concebeu o id, o ego e o superego
para explicar nosso funcionamento psíquico através dessas instâncias, já conhecidas
pelo senso comum e pelo anedotário popular.
Explicando
brevemente, seríamos regidos inicialmente pelo princípio do prazer, onde o id
reinaria soberano, com o contato com a alteridade e a cultura formar-se-ia o
ego do sujeito: o principio de realidade substituiria o princípio de prazer,
tolerando o desprazer pela segurança, subsistência e aprovação do outro. A
internalização das leis corresponderia à formação do superego, conhecido pela
função de juiz ou censor do ego.
Podemos
entender que a idéia de Freud de que a civilização não seria possível se não
houvesse por parte e cada sujeito a repressão e recalque de seus desejos, bem
como a capacidade de frustração e de adiamento da satisfação do principio do
prazer. Essa seria a condição para se viver em sociedade, saber abrir mão de
seus desejos e de seus prazeres.
Aprendemos
assim que devemos nos ajustar à realidade, sendo nosso desejo restrito e
possível de ser satisfeito sob determinadas condições. Imaginemos assim o
quanto uma época como o carnaval nos permite que possamos, legitimados pelo
social, dar vazão ao nosso desejo desenfreado e ao princípio de prazer que
reina em todos nós. Podemos assim desfrutar, sem supressão, censura ou
postergação os carnis valles...
Mas
a sensação que tenho é que esse usufruto do carnis
valles vem se tornando um evento permanente em nosso cotidiano. Em tempos
de uma sociedade narcísica, auto-referendada e herdeiros de uma cultura do
individualismo, o projeto do sujeito parece restrito a gozar, o gozo e a
satisfação tornam-se assim quase que uma “ideologia” no contemporâneo.
É
nesse sentido que falo em um ocaso da Quaresma, em alusão a um tempo de
interiorização e de aprofundamento que o sujeito parece não mais conseguir
vivenciar, pois de fora para dentro existe o imperativo do gozar: não
contemple, aja e desfrute intensamente cada momento.
Aliás, essa
situação me remete também a impressão de um progressivo desaparecimento do
trabalho de luto em nossos dias. Parece
que as pessoas não dispõem mais de tempo para o processo de elaborar perdas,
reais ou simbólicas, de suas vidas, não existe a possibilidade de se poder
sofrer. Se a pessoa encerra uma relação amorosa, prontamente a frase que ouve é
“a fila anda!”, não há “tempo” para isso.
Aprendemos com
Freud, Luto e Melancolia (1917) é um
belo texto no qual aborda a questão, que o luto é um afeto/estado normal no
qual o sujeito deve realizar um trabalho psíquico de renúncia do objeto perdido
– pessoa, ideal, etc. De certa maneira, passamos a vida elaborando trabalhos
diversos de luto pelos mais variados objetos perdidos, faz parte da realidade
psíquica de todo sujeito.
Mas essa foi
uma pequena digressão da associação livre... Outro aspecto sobre o Carnaval
para o qual essas reflexões me encaminharam foi o quanto a nossa cultura, quiça
identidade até, está ligada a esses momentos de puro prazer e me recordo de um excelente livro do
psicanalista Octavio de Souza, chamado
Fantasias de Brasil: as identificações na busca da identidade nacional, da
Escuta.
Neste livro o
autor trabalha, a partir de autores como Roberto DaMatta, Renato Ortiz e
outros, a nossa identidade brasileira extraída do exotismo e da visão do novo
mundo. Ao explicar o título do livro,
Souza diz que na busca de uma identidade nacional teríamos confeccionado “uma
fantasia cujo o exotismo dificulta qualquer tentativa de nos apresentarmos em
trajes civis”.
Ao meu ver,
esta “fantasia” de pais exótico e carnavalesco é agora, cada vez mais,
acrescida de atributos hedonistas e maníacos, sempre alegres, sempre festivos,
e assim, na carnis valles ficamos
agora fantasiados o ano inteiro...

Ninguém quer ressuscitar para suas verdadeiras responsabilidades como ser humano. Consequência, caos.
ResponderExcluir