Pergunta complicada essa... Imediatamente
a maior parte das pessoas responderá que não, pensando nas chamadas “drogas
pesadas”: crack, heroína, cocaína. Uns poucos admitirão um “de vez em quando”
mais timidamente, pensando no baseado ou no “e” (ecstasy) ou no “a” (ácido) que
tomou em alguma festinha.
Aquele que refletir um pouco mais
antes de responder provavelmente irá
desenvolver algum tipo de senso crítico em relação â questão e pensará nas chamadas
“drogas leves”: bebida, tabaco, medicação receitada por um médico e perceberá a
complexidade do tema. E aí talvez responda que use drogas sim, já inserido em
uma visão macro da problematização.
Esse tema vem convocando a sociedade
como um todo a refletir sobre a questão do uso de drogas, mas creio que essa
discussão mal começou: temos ainda um longo caminho a percorrer. E pelo amplo
espectro de subtemas aí envolvidos não existe um campo de saber que não tenha a
contribuir para este debate. E a sociedade como um todo também.
Mas quero aqui sublinhar basicamente
a nossa absoluta imersão em uma cultura atravessada pelo consumo de drogas
legais e ilegais, leves ou pesadas, como recreação ou como dependência, enfim, sobre
uma certa “naturalização” do uso de drogas em nossa sociedade.
Sem recorrer a estatísticas,
visto que sabemos que os números sao impressionante e crescentes, vale lembrar que cada vez mais e mais cedo os jovens experimentam e utilizam drogas;
a dependência à drogas é uma vivência que
atravessa todas as faixas etárias, as diversas classe econômicas e quase todas
as culturas, assumindo contornos diversos conforme a regionalidade.
As drogas datam de milharem de
anos na história do mundo e os primeiros relatos referem-se principalmente ao
uso medicinal ou ritualístico em religiões primitivas, mesmo há poucas décadas
atrás utilizava-se as drogas como um favorecedor da abertura e expansão da
mente, como um ato quase que político, um protesto inserido na contracultura.
Até então, as drogas se encontravam referidas a algum tipo de contexto de cura,
de fé ou em uma ideologia.
A feição das drogas utilizadas
majoritariamente como prazer possui poucas centenas de anos e sua grande
explosão – há poucas décadas atrás - vai coincidir com um momento histórico social que conflui a
influência da cultura do narcisismo, a valorização do individualismo, à lógica do
consumo capitalista e ode ao hedonismo. Realizando
muito brevemente essa rápida visada histórica que percorre milhares de anos em
poucas linhas, quero principalmente destacar como o uso das drogas é hoje
principalmente referido ao prazer e alienação da dor/sofrimento humanos,
outrora melhor suportados Quero destacar
o quanto a cultura que vivemos favorece e estimula um modo de relação
imediatista do sujeito com suas relações/objetos onde a frustração ou a postergação
do prazer não possuem mais lugar.
Nesse modo hedonista e
imediatista de funcionamento da cultura, o indivíduo deve ser feliz e agora. As
pessoas não devem mais sofrer. Por nada.
A dor de um sofrimento, frustração, perda, luto, enfim, os males do
humano devem ser imediatamente extirpados como algo da ordem do insuportável. O
mal-estar inerente à condição humana pode e deve ser anestesiado: compre,
consuma, beba, coma, fume, essas são as palavras de ordem. Vigora o imperativo
do “faça qualquer coisa para ser feliz”. Mesmo.
E assim nos tornamos vorazes consumidores de substâncias e de obetos que
promovam – momentânea e fugazmente – essa anestesia.
Recentemente defendi em um artigo
apresentado com Marília Gabriela Brecha chamado Drogadicção no contemporâneo: reflexões sobre a cultura do consumo e a compulsão
pelo objeto droga o quanto existe algo específico do modo de funcionamento da cultura atual que torna
este consumo de drogas exacerbado - cultura esta regida pelo consumo e inserida
na lógica da falta e do vazio. Não há nada de inédito nisso, pois Freud
tematizava a busca do prazer/ alívio do sofrimento psíquico no uso de drogas
como um recurso defensivo contra a dor e a infelicidade desde 1930.
Questionamos é como isso agora tornou-se um modus
vivendi da atualidade.
É importante remover o véu de
hipocrisia sobre o uso de drogas, pois – sem nenhum tipo de apologia, que fique
claro – é comprovadamente mais nocivo a um indivíduo consumir assiduamente álcool
e tabaco do que um outro sujeito que duas ou três vezes por ano uma droga “pesada”,
como meio comprimido de “bala”, por exemplo. Potencialmente ambos viciam,
deterioram a saúde do sujeito e levam à morte. Porém, quem de nós não frequenta
habitualmente inúmeros espaços onde o álcool é consumido livremente e glorificado
como a panaceia de todos os males: está feliz? Vamos “bebemorar”! Está infeliz?
Vamos “bebemorar” também!
Vale lembrar que mais do que o
objeto em droga em si, o que está em jogo é o modo de relação que o sujeito
estabelece com o seu objeto; inclusive quem tiver mais interesse no tema eu publiquei
um livro pela Editora Juruá, que explora bem isso, intitulado Adicção: um estudo sobre passividade e violência
psíquica. Mas, retomando a compreensão do modo de relacionamento do sujeito
com seu objeto-droga, as gradações de utilização das drogas vão da recreação,
passando para o uso habitual até chegar à dependência. Como delimitar essa
linha tênue que discrimina essa gradação do domínio e controle desta relação até
a completa e absoluta servidão a este objeto?
Vivemos uma cultura adicta e
estamos naturalizando isto de tal maneira que este se torna o modo de vida adotado
em nossa cultura. Um exemplo disso, que tem sido bastante debatido, é o absurdo
aumento da medicação controlada, o uso de drogas receitadas por médicos. Remédio
para depressão, para ansiedade, para déficit de atenção, para dormir, para
estimular e assim vai. Claro fique que apoio e recomendo o uso de remédios
devidamente receitados conforme o determinado quadro clínico. Mas também fico
bastante surpreendida que qualquer tristeza ou mesmo depressão reativa a uma
perda que deve ser elaborada são prontamente anestesiadas com remédio, sem a
menor preocupação com o manejo dos sentimentos e das elaborações subjetivas
necessárias e funcionais para a superação do quadro.
O mesmo vale para a ritalina, citando
um exemplo, a grande “febre” da medicação infantil. Às vezes tenho a impressão
que não existem mais crianças “agitadas”, “espoletas”, “pilha duracell”,
existem agora crianças patologizadas: são “hiperativas”, possuem “déficit de
atenção” e por aí vai. Como se essa questão também não fosse afetada pela nova
formatação da criança ao urbano, confinada em espaços reduzidos, sem ter onde
dispender sua energia e como se o nosso universo não fosse cada vez mais
impregnados de estímulos e demandas que gradativamente afetam a nossa
concentração – sejamos crianças ou adultos! Mas isso já é papo para outro “post”....
Quero pontuar o quanto é imenso o
desafio de lidar com as drogas em cada sujeito, em cada família, em cada
cultura. As políticas de saúde públicas atualmente entendem que o uso de drogas
é um problema da Saúde e não somente do Judiciário e é por aí que se constrói a
descriminalização do usuário de drogas e a compreensão da complexidade do tema:
mais do que um infrator da lei, o usuário de drogas é alguém que padece de uma
doença. Doença esta que afeta toda a cultura, nas famílias, nos usuários de
crack que marginalizam o crime, no alcoólatra que atropelam e mata dezenas de
trabalhadores no ponto de ônibus e assim por diante.
Nesse sentido temos que louvar o
quanto a política de Redução de Danos adotada no Brasil é pioneira na estratégia
na Rede de Atenção à Saúde Mental: trata-se de admitir que este é um processo
que envolve inúmeros elementos e onde se almeja uma gradativa transformação da relação
do usuário dependente de drogas em um sujeito que se aproprie de sua história e
que possa reduzir os danos de sua drogadicção em si mesmo e em seu entorno até
adquirir um domínio sobre ela nas qual
dela possa prescindir.
Um exemplo de campanha de redução
de danoso está estampado no slogan: “se for dirigir, não beba”, sem cinismos,
ao se admitir que as pessoas vão beber, estimula-se uma utilização mais conscientizada
do álcool e de seus efeitos no sistema nervoso central de tal maneira que
dirigir se torna uma ato que oferece risco ao sujeito e aos demais. Não dirigir
é reduzir o dano, é admitir que o dano existe e encontrar maneiras de minimizá-lo.
Mas temos um longo caminho por aí...
Não podemos deixar de evocar também
a questão financeira envolvida no uso de drogas: do tráfico às indústrias
farmacêuticas, passando pelas fábricas de cigarros e bebidas: é muito dinheiro
aí envolvido, que envolve instâncias diversas. Para isso sempre recomendo os
filmes “Tropa de Elite”, o primeiro – focado no Capitão Nascimento, seus dramas
morais, a corrupção da policia, a ignorância dos usuários dos tentáculos do uso
de drogas, o preconceito, a alienação, o “varejo” das drogas e o segundo filme
da série, que vai desloca sua ótica e vai para o “atacado”: as drogas na política,
a mídia e as tramas e lucros aí envolvidos. É o capital e no capitalismo tardio
a droga é uma mercadoria de grande valor...
Mas e você? Você drogas?
Mtas pessoas não se percebem usuárias de drogas. Não querem admitir de que às vezes esse objeto é importante. Drogas lícitas e ilícitas - usar ou não usar - eis a questão. Mas então o objeto fala mais alto e diz: só hoje!
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