Um dos textos que mais me impressionou no
começo de minha graduação foi o relato da experiência realizada por Stanley
Milgran, em 1961. Milgran, cientista social e doutor em psicologia, conduziu em
Yale uma pesquisa para verificar como pessoas comuns, sem antecedentes de violência
poderiam cometer atos cruéis e atrozes.
A partir dos questionamentos sobre as pessoas
“de bem” que haviam colaborado com os horrores do holocausto, Milgran criou a suposição de que
qualquer pessoa seria obediente a pressão de uma autoridade.
Para verificar sua hipótese, selecionou
40 voluntários homens para sua pesquisa que deveriam fazer o papel de um
professor que arguiria um aluno. Explicando que a pesquisa era sobre punição no
aprendizado, Milgran instruiu que a cada resposta errada o professor deveria
dar um choque elétrico no aluno, em intensidades crescentes, incentivado por um
cientista que coordenava esta pesquisa. O aluno e o cientista eram contratados e parte da pesquisa.
A sessão de tortura era uma encenação,
mas o voluntário “professor” não sabia disso, o ator fingia levar choques cada
vez mais potentes e implorava para o “professor” parar. Mas 65% desses
participante chegaram a dar “choques” de 450 volts, média mantida em testes posteriores
em outros países e com mulheres.
Nunca nenhum voluntário, em nenhuma das
repetições da pesquisa, interrompeu o teste para ajudar o “aluno” e apenas uma pequena
percentagem abandonou a pesquisa mas sem prestar auxilio ou denunciar os torturadores.
A pesquisa “os perigos da obediência” apresentou
assim os riscos da submissão a uma autoridade, pois os sujeitos não conseguiam
romper com a pressão de uma hierarquia, bem como revelou a não responsabilidade
do sujeito pelo seus atos, uma vez que este alegava estar obedecendo a um
terceiro, seguindo e submetido ao desejo deste. Afirma o autor que:
“O problema da obediência não é somente psicológico. A forma
e a configuração da sociedade (...) Logicamente, toda sociedade tem de incutir
hábitos de obediência em seus cidadãos já que não podemos ter uma sociedade sem
alguma estrutura de autoridade. Aprendemos o que significa a obediência na
família e na escola, mas principalmente quando passamos a integrar o mundo do
trabalho. Trabalhando num escritório, numa fábrica ou no exército tem-se,
necessariamente, de abandonar um grau de julgamento individual para que esses
sistemas maiores possam operar com eficiência. Em tais situações de trabalho, a
pessoa não se considera responsável pelas suas próprias ações, mas sim como um
agente que executa os desejos de uma outra pessoa.”
Lembrei desse texto impressionante a
partir da recentes manifestações e dos fenômenos que se iniciaram no Brasil a
partir do pleito pela suspensão do aumento da passagem de ônibus e o seu bordão
“não é pelos 20 centavos” e toda a insatisfação de uma nação desgastada pela
corrupção, pelos desserviços do estado na saúde, na educação e na sociedade
como um todo.
Imediatamente lembrei desse texto e associei
o perigo dessa obediência ao desempenho da PM no Rio de Janeiro ante às
manifestações. É uma instituição militar e hierárquica, formada para o combate
e repressão ao crime. É isso que eles aprendem em sua formação no curso do
CFAP: a seguir ordens da autoridade, de seu superior sem questionar e aprendem
também a reagir com violência. E são obedientes.
Lembro também de um filme também
impressionante: “A morte e a donzela” (1994) , filme de Roman Polanski que se
passa em um país qualquer da América Central saído da ditadura e versa sobre
Pauline, mulher que se auto exclui da sociedade refugiando-se em sua isolada
depois de sua experiência traumática como presa e torturada política.
Um dia seu marido auxilia um médico cujo pneu fura na estrada,
que vai devolver estepe emprestado. É quando Pauline ouve a voz do visitante e
reconhece a voz de seu maior torturador. A trama toda se desenvolve no embate
entre Pauline e o médico, ela afirmando que ele é o seu algoz e ele negando
veementemente sê-lo. Invertendo os papéis, Pauline torna-se a algoz daquele que
julga seu seu torturador. É um filmaço, Sigourney Weaver dá um banho e o médico
é Ben Kingsley, impecável. QUEM QUISER PRESERVAR O DESENROLAR DA TRAMA PARE DE
LER OU PULE O PRÓXIMO PARÁGRAFO!
Na
apresentação do personagem do médico, sua doçura, educação, a vida que ele
apresenta vemos a dúvida se instaurar no espectador: como aquela pessoa pode ser
um torturador tão cruel? Voltamos ao texto de Milgran e aos perigos da obediência:
a servidão ao outro autoridade... Sim, o médico era obediente...
É complexo
e paradoxal que uma pessoa de bem, decente, com princípios assuma a posição de
um cruel algoz de outro ser humano. Se Stanley Milgran constata essa obediência
psicológica, Sigmund Freud complementa a compreensão dessas violências ao
afirmar a inerente existência de pulsões antissociais no individuo e a
necessidade de contê-las em prol da sociedade.
Em
textos como Totem e tabu, Futuro de uma ilusão e Mal estar na civilização
podemos encontrar as principais explicações de Freud sobre o sujeito e a
cultura. Resumidamente, Freud explica
que a civilização se constrói sobre a renúncia pulsional, a renúncia dos
desejos incestuosos, parricidas, homicidas, violentos e etc.
No mito de Totem e tabu Freud supõe uma mítica
civilização ancestral parricida e luxuriosa que a partir da instituição do tabu
do incesto e da exogamia organiza-se como sociedade construída sobre a lei simbólica.
A renúncia desses desejos é o próprio Mal estar na civilização do qual sofre o
sujeito, mas que entende que é necessário para sua proteção e sobrevivência na cultura.
Mas estes textos, junto com o Psicologia das massas e análise do eu, trazem
para o primeiro plano uma figura importantíssima: a figura do líder.
O líder é uma figura fundamental para
entendermos a adesão cega, obediência e submissão a uma ideologia ou instituição.
Cabe assim nos questionarmos sobre os lideres que promovem essa obediência em
nosso momento social.
Amplio assim minha questão para outros
lideres que não um governador, prefeito ou presidente, das autoridades como
vemos nas situações que relatei da PM ou do torturador do filme, que não as
situações somente de violência. Estamos em plena Jornada Mundial da Juventude,
com o Papa Francisco participando do evento no Rio de Janeiro, com cerca de dois
milhões de inscritos no evento. Manifestações religiosas, manifestações
politicas, todas elas seguem o líder, pacificamente.
Como pensar as lideranças em nosso
momento histórico, onde a adesão a qualquer movimento parece ser tão impulsiva
e frágil, próprio das massas. Como pensar cada sujeito e sua sôfrega necessidade
de adesão quando vemos o crescimento absurdo de religiões fundamentalistas, bem
como o crescimento de xenofobias, homofobias e outros posicionamentos de grupos
contrários a outro grupos em lideranças radicais?
Como nos tornamos tão desejosos de obediências
que aderimos cegamente a um líder, seja um chefe de operações do Bope, a um
grupo como o Anonymous, a uma religião, replicando mandamentos sem questionar,
sem subjetivar?
Você é obediente?



