domingo, 27 de novembro de 2011

DEMÊNCIA E O LUTO DE CORPO PRESENTE


Rola uma piadinha na internet atribuída a Drauzio Varela que as pessoas viverão cada vez mais com suas próteses de silicone e se entupindo de Viagra, mas quando chegar o Alzheimer vão se perguntar: “mas para quê serve isso mesmo”? 


Começo com essa piada tragicômica para que possamos refletir como a preocupação em nossa cultura se volta majoritariamente para o externo, para aquilo que é aparente no envelhecimento físico do indivíduo, sem o mesmo afinco e dedicação ao problematizar aquilo que concerne ao funcionamento interno do sujeito humano.


Falei anteriormente sobre o envelhecimento e agora quero me dedicar a pensar sobre as vicissitudes do envelhecimento, especificamente no que concerne à memória e as perdas diversas aí envolvidas. Uma vez que o indivíduo contemporâneo  está vivendo mais do que em qualquer outro tempo da história, começamos agora de maneira mais intensa e inegável a nos deparar com o declínio do funcionamento mental advindo das diversas formas de demências que se apresentam.


Cada vez mais se prolonga a qualidade de vida, com os novos recursos da medicina, com a contribuição de outras ciências e com a informação que o sujeito passou a possuir sobre seu funcionamento como um todo. Esses fatores aliados aumentaram em muito a expectativa de vida. Para termos idéia dessa transformação,  hoje a expectativa de vida do brasileiro é de 73 anos de idade, índice que varia conforme as condições de vida de cada lugar – no caso somos o 8oº no ranking mundial  - mas é um número impressionante se levarmos em conta que no ano de 1900 a expectativa de vida era de  33 anos!


Se antes no ocaso da vida, hoje os indivíduos na terceira década de vida são jovens que ainda elaboram questões de identidade típicas da adolescência em relação à profissão, a vida amorosa, a sexualidade. Muitos destes ainda permanecem com suas vidas ainda referidas e atreladas à sua família de origem, como a chamada “geração canguru” exemplifica muito bem. Em outro momento iremos conversar sobre esse fenômeno, tema interessantíssimo para retomarmos. 


Por exemplo, se há bem pouco tempo a mulher com 50/60 anos era vista como uma senhora, possível avó, cujo destino seria fazer tricô e cuidar dos netos , hoje observamos estas mulheres em plena atividade e se descolando da imagem de anciã. Figuras públicas como a cantora Madonna ou apresentadora Ana Maria Braga mostram como a despeito da passagem do tempo permanecem joviais, femininas, ativas, produtivas, sexuais. A nossa visão de juventude e da própria vida útil e prazerosa vai assim se estendendo.


Por um lado, parece que vivemos uma espécie de “rejuvenescimento” das faixas etárias, pois com o aumento da longevidade humana observamos uma transformação na visão das idades, das expectativas e dos estigmas até então relacionados a estas faixas.


Por outro lado, essa longevidade física proporciona o surgimento das transformações e  declínio do corpo, pois o tempo e a degeneração caminham em sua marcha inexorável e embora possamos postergar, a velhice necessariamente chega e com ela algumas perdas . Aquela mais grave e irreversível – ao meu ver - se refere ao nosso funcionamento mental, particularmente com a chegada da perda de memória e de identidade que acompanham as demências, antigamente conhecidas popularmente pelo abrangente nome de “esclerose”.


Palavra estigmatizada e utilizada pejorativamente, a esclerose foi até bem pouco tempo um “saco de gatos” onde se depositava toda a sorte de doenças degenerativas ligadas à idade, memória, esquecimentos, confusões mentais.


Hoje a evolução da medicina, da neurologia, dos recursos tecnológicos – tomografias, mapeamentos e etc -, vem permitindo a sofisticação de diagnósticos e ajudando a construir quadros nosográficos mais precisos, favorecendo a terapêutica medicamentosa e o tratamento das doenças. Discernir o mal de Alzheimer de uma demência por múltiplos enfartos, or exemplo, torna-se um diferencial no acolhimento e no trato do sofrimento que daí advém.


Esse sofrimento atinge aquele vai demenciando, sem dúvida, mas afeta principalmente os seres queridos do entorno do sujeito que pouco a pouco vai perdendo suas faculdades mentais. Se para o sujeito acometido pela doença, a perda da memória e o desligamento do mundo externo torna-se uma “benesse” que poupa o sujeito de um sofrimento maior, aqueles no entorno do demenciado não são poupados. E quando a doença se inicia vem junto com este processo um dificílimo trabalho daquilo que chamo de um “luto de corpo presente”.


Quero dizer com isso que a pessoa de nosso afeto que conhecemos está ali fisicamente: é seu rosto, sua voz, sua risada, seu cheiro, seu modo de sentar e outras tantas características que fazem parte de uma pessoa. Mas, pouco a pouco, com as dispersões, as ausências, as perdas de memória, as perdas cognitivas – que afetam a forma de caminhar, de raciocinar, de se recordar de um vocabulário para se comunicar – a pessoa que até então conhecemos começa a se transformar quase em um estranho. E é nesse momento que começa para a gente um processo de luto, de perda e de manejo do fim de um modo de relação que até então tínhamos com esta pessoa. Temos assim que reinventar este relacionamento, quase que construir uma nova relação com alguém que conhecemos de longa data.


Com as perdas neuronais, perda da massa cinzenta, a própria pessoa vai se distanciando daquilo que foi. Se somos constituídos por nossas vivências através de nossas memórias afetivas e de nossa história, essa perda implica que a nossa identidade aí se perca também. O demente não reconhece sua casa, seus filhos, seus netos, não sabe se almoçou, não se interessa em se banhar, em ler o jornal que tanto gostava, em acompanhar a novela tão ansiada anteriormente...


São gradações e quadros diferentes, mas tenho a impressão que existe uma benéfica alienação e ausência de consciência que deixa pouquíssimo espaço para o sofrimento do próprio sujeito, que costuma ser pontual até desaparecer com a evolução da doença. O sofrimento lúcido e cotidiano acaba sendo travado por aquele que vai se despedindo diariamente de alguém que não ocupa mais o corpo outrora habitado pelo seu afeto.


Sentimentos como negação, frustração, raiva, incompreensão são algumas das vivências comuns à dor desse luto por alguém que vamos perdendo em vida. Manejar a relação com alguém de seu afeto que horas de nada se lembra na alternância com outros momentos - que vão se tornando cada vez mais raros - de lucidez é mesmo angustiante. Sofremos com essa perda e temos que elaborar nosso luto por alguém cujo o corpo se encontra presente, mas cuja mente começa a se ausentar.


Faz parte da condição humana, mas talvez este se transforme em um dos grandes males que tenhamos que enfrentar em relação ao envelhecimento. Sabemos que a indústria farmacêutica/cosmética cada vez mais investe em produtos que otimizam o desempenho físico e aparência do ser humano na performance. Mas o investimento no cérebro, no intelecto, no domínio das faculdades mentais?


São muitos ainda os mistérios e é soberba a evolução da  medicina, muitas contribuições daí virão. Mas o desafio maior talvez seja individual e intransferível: o cuidado, o zelo por um de nossos bens mais preciosos que é a nossa memória e a nossa capacidade de historicizar, narrar, compartilhar a nossa existência.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

SOBRE A VISÃO DO AMOR ROMÂNTICO OU O MITO DA CARA METADE

Para compreender um pouco o mito do amor em nossa cultura e a busca da cara metade, da metade da laranja, do chinelo velho para o pé cansado, da cama para o corcunda se deitar, da tampa da panela e outras metáforas que falam do amor como uma relação complementar, creio que temos que remontar ao célebre livro de Platão escrito cerca de 380 a.C.
É em um dos diálogos de O Banquete que Aristófanes discursa que para conhecer um deus tão poderoso como Eros devemos conhecer primeiro a natureza do amor e o mito de nossa unidade primitiva. Dessa maneira, ele inicia seu diálogo apresentando os seres proto-humanos Andros, Gynos e Androgynos.
Andros seria a entidade masculina composta de oito membros (braços e pernas) e duas cabeças, ambas masculinas, Gynos entidade feminina mas com características semelhantes de dois seres femininos fundidos e Androgynos seria metade masculino, metade feminino. Segundo Aristófanes, eles desagradaram os deuses - pois se bastavam em si mesmos - que então os separou em dois, pela metade para assim enfraquecer seus poderes.  De Andros, originaram-se dois homens com seus corpos agora separados mas com suas almas ligadas e mutuamente atraídos um pelo outro . E o mesmo se sucederia  com Gynos  - na separação das duas metades femininas - e com  Androgynos - formando um metade homem e a outra mulher.

Neste mito, quando estas metades separadas finalmente se reencontram, encontram uma parte de si perdida e o subsequente desejo de fusão - e novamente a sensação de completude. O amor para Aristófanes traduz a busca e o desejo de reencontro da metada perdida, arrancada, castrada pelos deuses do Olimpo ao seres um dia unos e completos.

Esse mito foi disseminado de tal maneira na cultura que encontramos um fudamento semelhante em nossa representaçaõ social do amor romântico. A nossa cultura é atravessada por esta idéia de um (re) encontro com a nossa “alma gêmea” em best sellers que vendem milhões de exemplares ao ensinar como favorecer este reencontro e reconhecer a sua metade. Nesta e em outras vidas.
Da mesma maneira, novelas, filmes, livros são impregnados e reproduzem esta idéia da busca de sua cara metade. Causa grande fascínio que cinquenta anos depois contos e filmes da Branca de Neve, a Bela Adormecida, a Cinderela ou Rapunzel façam tamanho sucesso com suas cópias remasteurizadas pela Disney  em seus relançamentos. A espera do príncipe ou prinesa encantada predestinados é o mote dessas fábulas. Vale lembrar que Walt Disney modificou as histórias originais de maneira a construir esse mito, pois sabemos que os contos originais são bem mais trágicos, conforme conhecemos nos originais dos irmãos Grimm por exemplo.

O fato é que, décadas depois, continuamos reproduzindo os mesmos mitos para as nossas crianças: da felicidade relacionada a um encontro amoroso e de que no final você – a despeito de todos os obstáculos – encontra o seu par. Ou variações do mesmo tema, pois sempre achei que o filme “Uma linda mulher” com Julia Roberts era uma versão adulta e prostituída de Cinderela...
E assim, décadas, séculos se passam e cada um de nós parece fadado a passar a sua existência buscando a sua metade amputada. Na psicanálise encontramos uma idéia semelhante de uma completude anterior que teria sido rompida e autores diversos vão enfocar diferentes ângulos, embora subsista a idéia da falta, da incompletude, da promessa de um reencontro com outro que em algum momento já completou o sujeito.


Otto Rank sustenta a idéia da existência de um “trauma do nascimento”, conceito com o qual explica que o ato de nascer é traumático fisica e psiquicamente, devido à expulsão de um universo intra-uterino feliz e livre de conflitos. Rank afirma que alguns indivíduos neuróticos vivenciariam esse trauma do nascimento de uma maneira mais intensa que os demais.
Freud discordava de Rank, afirmando que ao nascer o infante não possuiria a discriminação de si e de um objeto, de tal maneira que não existiria a falta. Aliás, o privilégio que Rank dava ao trauma do nascimento em detrimento do conflito edipico foi motivo de ruptura entre eles. Mas Donald Winnicott vai discordar da idéia ano-objetal freudiana e afirmar que o bebê pode não possuir recursos simbólicos para traduzir sua relação objetal com a mãe, mas por outro lado, ele só existe na relação com a mãe.  Winnicott concebe a “capacidade de estar só”  - em texto homônimo - como a possibilidade de discriminação e constituição subjetiva rumo à maturidade do indivíduo.

Vemos em Rank e em Winnicott a idéia de uma existência vinculada física e psiquicamente a um outro como condição de advento do sujeito e motivo de sofrimento. Esse outro aparece em Freud com outra configuração, destaco aqui brevemente a questão do édipo, da castração e da falta, assim como a importância do narcisismo e do investimento libidinal do outro na subjetivação humana.
Sem dúvida que uma análise não almeja ensejar o sujeito a uma busca de completude no outro, pelo contrário talvez, o discurso da psicanálise busca exatamente promover no analisando um reconhecimento de sua castração, da inerente falta no sujeito e da possibilidade criativa do ser humano de criar novos destinos pulsionais possíveis para seu desejo. Mas o mito que subjaz em cada sujeito - e mesmo em algumas teorias psicanalíticas - fazem eco à idéia platônica de uma metade vagando por aí no mundo em busca de seu complemento e fusão.

Herdeiros que somos desse mito, como encontrar em meio a 7 bilhões de pessoas encarnadas no planeta a nossa cara-metade?! Talvez começar pela China, que concentra 1,3 bilhão de pessoas... Ou lidar com a nossa condição humana de castrados e faltantes, com a alteridade de fazer par com aquele que não é nosso semelhante, nem idêntico, nem fundido, nem metade. É um outro, inteiro e faltante, como nós. Ou não fazer par...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

SOBRE O IMPERATIVO DA JUVENTUDE OU O RETRATO DE DORIAN GRAY

“Que tristeza! Vou ficar velho, e horrível, e medonho. Mas este retrato permanecerá eternamente jovem. Precisamente como neste dia de Junho. Se pudesse dar-se o inverso! Ser eu eternamente jovem e o retrato envelhecer! Daria tudo para que isso acontecesse! Tudo o que há no mundo! Daria a própria alma! A juventude é a única coisa que vale a pena ter.”  - Dorian Gray

Oscar Wilde escreveu o clássico O retrato de Dorian Gray em uma crítica aos círculos intelectuais de sua época – século XIX - e à cultura vitoriana. O personagem central do livro é Dorian, belíssimo jovem, narciso e hedonista retratado em uma tela que imortaliza sua beleza e juventude.  Fascinado consigo mesmo e angustiado com a inevitável perda de sua perfeita imagem, Dorian formula o desejo da juventude eterna, fazendo um pacto com o diabo a quem vende sua alma. O truque diabólico faz com que Dorian permaneça o mesmo e, enquanto o tempo passa, o envelhecimento e decadência que experimenta aparecem apenas no quadro.
Séculos depois a tematização da ode à juventude realizada por Wilde parece ter sido escrita para os nossos dias pois o que observamos hoje é um culto à juventude, um culto ao corpo jovem e belo em uma cultura atravessada por este ideal.  A isso se acrescenta a evolução da medicina e da indústria de cosméticos que favorecem a busca e manutenção desta juventude através de práticas que vão ao consumo dos mais diversos produtos aos procedimentos cirúrgicos.
Conforme argumenta a psicanalista Maria Rita Kehl, vivemos uma ”teenagização da cultura ocidental”, em texto com este título, onde a massificação de um modelo de vida e felicidade são valores associados aos “teens”, adolescentes e jovens. Os ideais da juventude tornaram-se os parâmetros para os adultos – e idosos -, fomentando a criação da expressão “adultescente”, onde a fusão das palavras adulto e adolescente traduz esses ideais do sujeito e da cultura.
Nesse contexto, envelhecer se torna para o sujeito contemporâneo um grande fardo e um imenso sofrimento psíquico. Conforme a fala de Dorian, ficar velho é ficar horrível e medonho. E a juventude eterna torna-se o grande sonho de uma significativa parcela dos indivíduos em nossos dias.
O pacto agora não é mais com o diabo, mas sim com o dermatologista, o cirurgião plástico, o personal trainer, com o geriatra - que se começa a freqüentar ainda na segunda década de vida! É o imperativo da juventude, que nos é apresentada como a única possibilidade de felicidade e aceitação social em  nossa cultura.
Mas o tempo caminha em sua marcha inexorável, somos todos passíveis dessa passagem que a todos afeta democraticamente. Recursos financeiros, estilo de vida ou herança genética possibilitam que alguns o façam de maneira mais favorável e delicada. Mas inevitavelmente o tempo deixará sua passagem marcada no corpo humano, tanto em sua superfície externa como em sua interioridade física e psíquica.
Em nossa cultura ocidental envelhecer não é um bem valorizado, principalmente em países sul-americanos que possuem uma cultura corpólatra como a brasileira. Ser jovem, parecer jovem, sentir-se jovem compõe uma tendência àquilo que a psicóloga Alda Motta chama de  “homogeneização das idades”, onde “as crianças são reenviadas ao mundo dos adultos jovens, enquanto os idosos “rejuvenescem”, física e socialmente, cada vez mais” – um dos artigos do interessante livro Velhice ou terceira idade. Igualmente preocupante é esse incentivo ao desencadeamento da precoce adolescência –  em outra ocasião retomo o tema – mas por ora pensemos sobre essa teenagização da cultura.
Além da questão das diferentes faixas etárias almejarem o mesmo padrão, chama a atenção a questão de gênero, pois ambos os sexos sofrem com o valor colocado na juventude. Outrora, notoriamente a beleza e a juventude eram preocupações do universo feminino. Atualmente os homens estão aderindo aos cuidados com o corpo e com a aparência como em nenhum outro momento de nossa história, criando expressões como “metrossexual” para definir este indivíduo do sexo masculino zeloso por sua aparência.
A excessiva preocupação com a juventude perpassa não apenas a questão da aparência, mas estendeu-se ao mercado de trabalho e ao mundo de negócios. Conforme pondera a antropóloga Miriam Goldenberg em Coroas: corpo e envelhecimento na cultura brasileira, não é mera coincidência que os tratamentos contra o envelhecimento se multiplicaram rapidamente na era do enxugamento corporativo...
Sabemos como o corpo natural é atravessado pela construção social e a nossa cultura reveste o corpo do contemporâneo com as expectativas de uma juventude infinita. A cultura exige que sejamos jovens, mas apesar disso o natural, o biológico, se impõe e nos vemos diante de paradoxos e sofrimentos pela inadequação do sujeito ao seu corpo e identidade.
Vale lembrar que, a despeito da projeção do ideal projetado pela cultura, vivemos em um corpo carnal e encarnado. E é este corpo que nos fornece condição de existência: ele é biológico, orgânico, fisiológico. Este é um corpo que no decorrer de seu desenvolvimento envelhece e que cumpre a sucessão de etapas de um ciclo biológico vital e é com ele que temos que estabelecer uma prazerosa relação.
Em um tempo de objetificação do sujeito humano, tempo do imediatismo e de descartabilidade, parece que tudo conspira para que esqueçamos o mal estar que o corpo teen, adolescente nos traz, com as adaptações, acomodações e inseguranças da adolescência. Essa idealização ignora o sofrimento físico e emocional, as dores físicas e psíquicas dessa etapa de vida! Aprisionados nessa ilusão, ficamos siderados na imagem da juventude idealizada, armadilha que aprisiona o sujeito de hoje.
“O que era a juventude, na melhor das hipóteses? Um tempo de inexperiência e imaturidade, de fúteis caprichos e pensamentos mórbidos. Por que vestira ele as suas roupagens? A juventude causara a sua corrupção.” - Dorian Gray

Em breve e belíssimo texto escrito em 1915, logo após o início da primeira guerra mundial, Sobre a transitoriedade, Freud reflete sobre o ódio e a violência. A partir da análise da guerra, que subtrai do mundo a beleza e perfeição da natureza, das obras de arte e dos humanos, o autor observa como tudo “tende à decadência” e o que está em jogo é o processo de luto pelo objeto perdido. Parece que no contemporâneo não podemos fazer um luto pela juventude e ficamos congelados em uma perene melancolia...
Envelhecer faz parte do processo de evolução da vida, realizar um luto pelas perdas inerentes a cada etapa de vida também. Evoluir significa podermos vivenciar cada etapa de vida de maneira satisfatória e enriquecedora, com as benesses que cada etapa vital fornece. Imagino que uma boa relação com o tempo traduza o que seja envelhecer de maneira lúdica, usufruindo de cada momento com suas alegrias e agruras. Quem parece – pelo menos olhando de fora – envelhecer de forma mais harmoniosa e satisfeita: Elza Soares ou Fernanda Montenegro? E você, aceitaria o pacto?

sábado, 5 de novembro de 2011

SOBRE O RISO, A SUBVERSÃO E A LIBERDADE

Desde que li O nome da Rosa fiquei muito impressionada com o poder subversivo do riso e do humor. É empobrecedor nomear o livro Umberto Eco de romance policial, pois é muito mais do que isso: discute história, filosofia, religião, o universal e o particular, enfim um “livraço”.  Mas destaco aqui como o autor ficciona a exclusão que  a Igreja teria  feito de um texto supostamente escrito por Aristóteles,  chamado Livro do Riso, do conhecimento público para este não profanasse o dogmatismo pregado pela instituição católica. Recomendo ler.


Mas tenho pensado muito sobre o poder do humor desde que as piadas, os chistes e as brincadeiras não só na cultura como um todo  - e as redes sociais são representam um recorte virtual de um universo real - ,  passou a ser patrulhada pelo politicamente correto e por outros moralismos. Confesso que tenho achado um pouco desproprocionais algumas reações...


Citaria como exemplos recentes a piada feita por Rafinha Bastos no CQC onde comentando sobre a cantora (sic) Wanessa Camargo  disse que ela estava “gostosinha” e que “comeria a mãe e o bebê”. Mau gosto? Sem dúvida, mas para quem já tinha feito piadas sobre Auschwitz e defendeu que mulher feia tem que dar “graças a deus” pela oportunidade de ser estuprada isso nem surpreende. E tem quem goste de seu humor. Isto é democracia.


O que espanta é ele ser processado e isso virar questão, apenas porque tocou no tabu da sexualidade da mulher grávida e da imaculada visão higienista e burguesa do feto/bebê.  Fique claro que não defendo e nem apoio nenhumas dessas “piadas” do “humorista” mas achei desproporcional com tantas outras questões de suma importância acontecendo isso virar uma questão nacional e ganhar manchetes no jornais e revistas.


Outro exemplo polêmico vem da sugestão de que Lula tratasse o câncer de laringe nos SUS.  Isso “bombou” nas redes sociais. Mais do que uma sugestão, pois é sabido que ele já está em tratamento no Hospital Sírio e Libanês e que o plano de saúde dele vai assumir todos os encargos, o que está nessa fala é uma ironia/ denúncia sobre o nosso sistema de saúde. Assim como existiram anteriormente sugestões para que os filhos netos de Cristóvão Buarque fossem estudar em colégios públicos. É uma forma de desabafo indignado creio eu, um chiste, ninguém acredita que isto realmente vá acontecer.


Conforme sabemos, pelo contrário, alguns lugares públicos são referência e excelência no tratamento contra o câncer, o Lula se beneficiaria até do tratamento. Mas nem é essa a questão, o que está em jogo é uma metáfora, é falar de uma outra coisa que não aquela, é assim que funciona a piada ou ironia.


Mas creio que outro assunto tabu foi mexido aí: o câncer, que ainda mata – e muito – e que desola tantas famílias. E aí posições radicais, ofensas, agressões  e outras manifestações apareceram no Facebook, com ameaça de denúncias ao admistrador da rede ou ao empregador do sujeito (li isso em vários posts...)


Mais uma vez, nada tenho contra o Lula, nem quero que ele morra de câncer. Na verdade me é indiferente o destino de Lula.  Durante os oito anos que foi presidente do país no qual eu  morava a vida dele fazia diferença na minha, como cidadã. Mas depois que se tornou um cidadão comum, nem as matérias sobre ele me interessam ler.  Tenho pena dele como tenho de qualquer um que fica doente, mas também não acho que por conta disso ele se tornou intocável , acima do bem e do mal ou de qualquer piada.


É uma piada de mau gosto, sobre o sofrimento alheio? Sem dúvida. Mas as piadas em sua grande maioria são! Existem piadas de bom gosto?  O riso sobre a piada da pessoa que escorrega na casca de banana é motivo de graça, pouco importa a dor ou o vexame do implicado. Não é assim? Também acho de muito mau gosto, aliás.


Talvez o ser humano precise e tenha no humor uma válvula de escape/projeção de sua mazelas para fora, para o outro. Lembrei do protagonista do 1984 – outro livro que adoro e recomendo  do George Orwell -  quando ele diz a seus carrascos do regime totalitário no qual tentava se rebelar “faz a ela” (a tortura), faz no outro e não em mim... É um mecanismo humano o de projeção e de querer isso no outro e não em si. Não inofensivo, mas humano. Não gentil, nem solidário, nem altruísta, nem louvável,  mas humano.


Eu mesma não repassei a piada do Lula, mas acho que o direito à livre expressão é precioso. Senão iremos para o regime totalitário de 1984 todos regidos e dominados por uma verdade única e absoluta. A teletela que nos controlará e punirá será a nossa “rede de amigos” ao nos denunciar ao Grande Irmão Mark Zuckenberg para nos excluir do Facebook. Aprovou o Rafinha? Exclui! Fez piada com o câncer do Lula? Exclui!


Cada um poder se expressar através de uma piada ou de uma brincadeira não deveria ser tão incômodo. Respeito o próximo, seja ele quem for, negro (ariano, índio  ou judeu), gay (ou hetero ou trans ou pan!) umbandista (evangélico, judeu, ateu) mas também entendo que o riso é subversivo, ele questiona, ele incomoda e é um gesto de liberdade.


Lembro do prazer de ler o Pasquim nos tempos da ditadura, as tirinhas do Henfil ou do Quino com sua Mafalda. Rir é libertar. O riso, o humor, a ironia fazem parte da natureza humana, como o velho Freud já tematizou há décadas atrás, faz parte do funcionamento psíquico, da inteligência humana e é uma das formações do inconsciente.


O texto é célebre, O chiste e sua relação com o inconsciente (1905) e depois de Freud outros autores se dedicaram a explorar a relação entre os sintomas neuróticos, os atos falhos e os chistes. O Freud colecionava piadas, principalmente judaicas. Ele mesmo tinha um humor cáustico, pois por ocasião de uma entre as inúmeras operações – mais de 30 - que fez para combater o câncer de maxilar ele disse a seguinte piada: "o único problema das operações na mandíbula é que tenho que parar de fumar por duas horas".


O limite do respeito à dignidade do próximo é tênue e pessoal. Acho que depois de milhares de décadas de “civilização” esse respeito ao outro e à diferenças ainda é muito deficiente. Mas a nossa grande evolução do hominídeo pré-histórico foi quando ao invés de batalhas com pedras e tacapes passamos à dominar a palavra e com ela argumentar. O humor, o riso fazem parte desse repertório ligado à argumentação, metonímias, metáforas, à inteligência enfim. E é, para mim, um dos símbolos da liberdade.