Começo essa
reflexão lembrando uma frase clássica de Freud no texto “O narcisismo” (1914) onde
se refere à “sua majestade o bebê” para explicar como os pais investem nos
filhos o seu próprio narcisismo primário abandonado por eles na infância. Sem
me aprofundar na teoria freudiana sobre o narcisismo, quero destacar aqui como
um filho pode assumir o lugar de um ideal e como ele permite que os pais
revivam seu ego ideal nesta relação.
Isto posto,
acho que fica mais claro entender porque os pais colocam seus filhos em um “trono”
e tornam esta criança um pequeno rei tirano. Podemos compreender como se
explica também a dificuldade dos pais em negarem alguma coisa a estas crianças,
projeções narcísicas de si mesmo, a quem não podem frustrar ou decepcionar,
para não frustrar a si mesmos.
A foto que
ilustra este post é a capa da revista
sobre crianças, cuja matéria eu não li, mas cuja chamada ilustrava essa tirania
que tantas crianças de hoje impõem aos adultos. São vários fatores aí
envolvidos, espero levantar uma discussão sobre alguns deles, não ambiciono
conseguir de fato desenvolvê-los devidamente...
Marco então
como a projeção narcísica de si mesmo sobre um filho pode assumir contornos
assustadores em uma sociedade como a nossa, tão bem anunciada por Christopher
Larsch em seu livro “Cultura do narcisismo”, de 1983, onde chega a insinuar um
cunho patológico do narcisismo na América, bem como nas sociedades afins.
Larsch analisa
a sociedade americana, os efeitos de uma sociedade industrializada, a superficialidade
emocional do indivíduo, o declínio do âmbito público e a progressiva acentuação
do individual, desenhando a figura de uma pessoa autocentrada e indiferente a tudo e a todos que não lhe
dizem respeito diretamente.
Somando então
a teoria freudiana sobre o narcisismo dos pais reeditado nos filhos à fala de Larsch
de uma sociedade que cultua o narcisismo, podemos inferir como essa combinação
enseja que, cada vez mais, as crianças estejam sendo idealizadas e idolatradas.
Creio também
existe algo de excessivo na “realeza” infantil em nossa cultura, o brasileiro de
uma maneira geral adora os pequenos. O psicanalista italiano Contardo
Calligaris escreveu há muitos anos um livro chamado “Hello Brasil: notas de um
psicanalista europeu viajando ao Brasil”, ótimo por sinal, onde descrevia seu
espanto em como as crianças eram tratadas por aqui, como reis. É interessante
esse olhar estrangeiro sobre aquilo que naturalizamos.
Penso que um
outro aspecto importante concerne à transformação da tradicional família nuclear
burguesa, parâmetro das disciplinas tão bem exploradas por Michel Foucault e
reguladoras da sociedade. Novas configurações familiares vêm desmapeando os
modelos tradicionais, a compreensão dos papéis sociais dentro da instituição
família, as funções da própria família, bem como expõe o declínio social
da função paterna (que para Jacques Lacan, brevemente falando, está atrelada à marca da lei no
psiquismo).
Importantes parâmetros
de outras instituições tradicionais - como a escola e a igreja - sofreram
grandes transformações, os cânones a serem seguidos se esfacelaram,
pulverizando assim modelos e certezas anteriormente existentes.
Como palestrante
em diversas escolas, como clínica, na esfera social, encontro freqüentemente
pais e mães que não sabem discernir ou circunscrever quais as “coordenadas” para
assumir essas funções. Nesse sentido evoco o desmapeamento que mencionei: se
antes estas funções vinham delimitadas pelo social, agora a pluralidade de parâmetros
desnorteia qual o rumo “certo” a se seguir.
Vazio,
desproteção, confusão, fragilidade das instituições e laços sociais,
acirramento do narcisismo. E aí nascem os filhos, partes potencialmente
ideais do sujeito, em um mundo onde as regras são diversas e os laços com a alteridade
frouxos. E assim se institui um rei, que em um segundo tempo torna-se um tirano
egocêntrico, fonte de sofrimento dos pais, da escola, da sociedade.
As majestades
são impulsivas, com baixa tolerância à frustração, individualistas, egoístas,
imediatistas, imperativas: esse parece ser o preço a se pagar pelo renascimento
do narcisismo parental em uma cultura do narcisismo. Que reinado que estamos
vivendo...
Reconhecer a
necessidade de negar, frustrar, proibir, limitar, “castrar” o filho implica que
os pais possam castrar a si mesmos para que a criança possa adivir como alguém
capaz de se engajar em relações alteritárias e com um olhar do outro como tal. Conforme
nos ensina Winnicott, a criança entende o “não” – dito correta e adequadamente
- como uma forma de amor e cuidado: os limites acondicionam e protegem também.
Psicólogos,
educadores, fonoaudiólogos, todos são evocados por pais desesperados com a
criação de seus filhos. É grande o desamparo que faz com que alguns pais – os mais
conscientes provavelmente – comecem a se preocupar seriamente com a subjetividade
em formação que está sob seus cuidados. Que esta angústia seja bem vinda e que
fomente um novo olhar sobre o reinado infantil pois senão... o que me vem à
cabeça é a foto de Jáder Barbalho com seu filho de terno idêntico ao pai
fazendo sinais obscenos à platéia de jornalistas...
Vanuza, muito bom esse tema e seu artigo. Mas o nosso temperamento latino é meio assim, mais amoroso,que as vzs escorrega no exagero.Difícil negar certas coisas aos filhos , sempre vem aquele pensamento-"Ah, ele é meu único filho", ou então_"Daqui a pouco ele cresce , deixa aproveitar agora" e coisas assim...Difícil mesmo. Mais uma vez, "a virtude está no meio" ou "nem tanto a terra, nem tanto ao mar"...rsrsrrsrs Com minha experiência com crianças abandonadas (mas não na rua), com pais em casa, que não as educam, nem se interessam pelos seus estudos , saúde , percebo que mais que um brinquedo caro, um tênis de marca, essas coisas, o que faz uma criança realmente feliz é amor , carinho e atenção. O problema nas classes médias e altas da vida é tentar compensar a falta ou até o excesso desses ítens com liberdade incondicional. Aí fica complicado "consertar" depois...
ResponderExcluirOi Patricia! Que bom que vc gostou do tema. A "justa medida" das coisas é sempre o grande desafio, não é? Você tocou em um ponto crucial na educação de hoje: o consumo. Essa questão é recorrente não apenas nas classes mais abastadas como também nas menos favorecidas, em breve falamos sobre isso. Concordo completamente que o amor, carinho e atenção são fundamentais, mas o negar é também uma forma de amor e cuidado... Grande abraço!
ResponderExcluirA culpa judaico-cristã que os pais no mercado de trabalho acabam sentindo por abandonarem seus filhos durante tantas horas do dia e as novas teorias pedagógicas disseminadas pela mídia a partir da segunda metade do século passado acabaram por mudar completamente a relação entre os pais e filhos. E criando algo que autores como Gilles Lipovetsky, no livro A era do vazio (2005), definem como “educação permissiva”.
ResponderExcluirA cultura pós-moderna é a cultura do feeling e da emancipação individual estendendo a todas as categorias de idade e de sexo. A educação, antes autoritária, tornou-se altamente permissiva, atenta aos desejos das crianças e dos adolescentes enquanto, por toda parte, a onda hedonista elimina a culpa do tempo livre e encoraja a nossa entrega a ele sem entraves e o aumento da quantidade de lazeres. A sedução: uma lógica que segue seu caminho, que não poupa mais nada e que, assim fazendo, cria uma socialização suave e tolerante, dedicada a personalizar-psicologizar o indivíduo. (LIPOVETSKY, 2005: 5)
Perfeita a sua colocação, Vanessa , bem como a referência a Lipovetsky. Em sintonia com suas colocações, acrescento ainda que no Brasil vivemos uma história recente da violenta ditadura militar e penso que essa passagem da educação autoritária para a permissividade ganhou contornos mais acentuados em nosso país. Reativamente a toda a opressão sofrida, creio que passamos quase a que temer qualquer forma de autoridade ou poder, "traumatizados" pelo autoritarismo dos anos de chumbo. Sustento que a autoridade e poder dos pais devem ser investidos e assumidos sem esse ranço, pois os poderes paterno/materno podem e devem ser de outra ordem, legítimos, respeitados, respeitosos, amorosos. Grande abraço!
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirEste deveria ser o tema mestre a ser desenvolvido por todas as áreas do conhecimento em busca de novas formas de se criar e lidar, que alcançassem o tão sutil equilíbrio.
ResponderExcluirSabemos através da teoria da importância das "funções" na família e na clínica, que elas não mais cabem no modelo contemporâneo.
Os fragmentos recolhidos de amor e cuidados hoje, são absorvidos de diversas fontes, reproduzindo assim um "sujeitinho" prepotente e carente simultaneamente, que já sabe e até pede para ser levado à terapia tendo um discurso sobre ela de valor agregado pois seus amiguinhos também vão...
São os novos tempos, antecipando novas práticas!Bjs.
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