quarta-feira, 11 de julho de 2012

A gente não nasce mulher, a gente se torna mulher. E homem. E malabarista circense também.


Estive no circo. Achei divertido, mas confesso que senti falta dos animais: os elefantes enormes e suas impressionantes presenças, os leões com a imponência e garbo, os macacos que em tanto se assemelham a nós, enfim, senti falta de ver e desfrutar do fascínio que a bicharada sempre provocou nos humanos.

Fui em busca de um circo que não existe mais, o circo de minha infância – que nem gostava tanto, cá entre nós – com palhaços, poodles de sainha de tule, pessoas portadoras de nanismo. Eu sei que não é politicamente correto, mas eram essas coisas que esperava apresentar para meus filhos. Agora temos circos high tec, telões, banda de rock ao vivo, tudo muito estilizado, genéricos do Cirque Du Soleil. Que achei sensacional. Mas que também não é exatamente um circo.

Enfim, isso tudo é para dizer que eu vi o número dos pratos rodando no ar, todos ao mesmo tempo e há séculos não via isso. Imediatamente me lembrei da metáfora que ouço de tantas mulheres que se sentem estas malabaristas da vida, tentando dar conta de vários pratos rodando no ar, sem deixar cair nenhum.

Não que os homens não sejam ou se sintam sobrecarregados com as exigências da vida pós-moderna, óbvio que sim. Mas considero que a figura feminina é a maior representante do aumento de tarefas, encargos, funções e papéis sociais que o ser humano vem acumulando nos últimos séculos.

Mapeando muito brevemente esse cenário, até pouco tempo, a mulher permaneceu restrita ao âmbito doméstico e privado de nossa sociedade. Embora no Oriente as mudanças sejas mínimas, no Ocidente esta transformação foi radical e hoje a mulher usufrui do espaço público praticamente nas mesmas condições que os homens. Ainda em desvantagem, é bem verdade, de reconhecimento e de salário, mas cada vez mais equiparada.

Na base dessas transformações podemos marcar, desde a Revolução Industrial até o advento da pílula anticoncepcional, diversas mudanças que permitiram à mulher o direito ao trabalho e uma possível independência advinda deste, até o domínio de seu corpo, natalidade e sexualidade. Essas últimas sem dúvida conquistas revolucionárias.

São séculos de história e de opressão atravessadas por questões profundas que envolvem diversos campos de saber.  De “costela de Adão”, vistas como um ser totalmente dependente das leis implícitas ou explicitas do falocentrismo, evoluímos até a autonomia e independência do masculino para uma identidade própria, singular e independente.

Cuidar da casa, cuidar dos filhos, cuidar dos idosos, dos desvalidos, dos animais domésticos, do lar: vida privada da mater, da palavra matrimônio constituía o destino da mulher. Desbravar o mundo para buscar o sustento da família, cuidar das provisões para a casa, empreender, pater, o patrimônio, era o destino do homem. Houve época em nossa cultura onde estes papéis eram muito bem demarcados. Eram...

O que quero destacar aqui é como exige-se da mulher de hoje a encarnação do duplo registro da figura feminina: o lado doméstico e o lado público. Ou seja, multiplicação de papéis: além do âmbito doméstico – que continua sendo da alçada do feminino, agora a mulher tem que abarcar as conquistas da vida pública. E ser bem sucedida nesta empreitada...

Para além de um discurso feminista que acuse a dupla ou tripla jornada que a mulherada vive, quero aqui problematizar o sofrimento e a sobrecarga que esse modo de vida traz para a mulher contemporânea. Já apontei que esse fenômeno é extensivo ao masculino: hoje é cobrado ao homem que ele seja mais “feminino”, cuide da casa, cuide dos filhos, se cuide e etc e etc. Mas em proporção e alcance muito menores em relação às cobranças ao feminino.

A mulher encarna a malabarista equilibrando os pratos no ar, todos rodando e sem quebrar. Que escolha essa nossa, de fazer coexistir o mater e o pater! Por um lado, muito prazer e satisfação advindas de diferentes fontes de investimento e alegria. É bem verdade que o retorno é bem maior. Por outro, um certo desgaste que vai engolfando o dia a dia em funções sem fim e uma sensação de tarefas inacabadas, demandas insatisfeitas e assim por diante.

Compre uma revista voltada para o público feminino, folheie e você vai entender do que estou falando! Nesse pot pourri daquilo que é atribuído ao universo “delas” encontramos as sugestões para otimizar a vida nos mais diversos campos. Para listar alguns: corpo, saúde, vida sexual, relacionamento afetivo, filhos, família, amizades, vida acadêmica, casa, funcionários, trabalho, vida social,  pets, ufa!!!!!!!!!!

                O que quero ressaltar também é que isso tudo gera um desmapeamento nos indivíduos de hoje que são compelidos a significar e resignificar o que é ser homem ou o que é ser mulher no contemporâneo. É fato que o deslocamento do feminino também desalojou o masculino de seu lugar: estamos todos desbussolados! O homem de hoje tem que assistir ao parto do filho, fazer faxina, cozinhar: do público ao privado....

                A máxima de Simone de Beauvoir, de que a gente não nasce, a gente se torna mulher pode atualmente ser estendida aos homens, pois eles hoje também precisam aprender a se tornarem homens. Essa é a parte positiva deste desmapeamento: as inéditas e ricas possibilidades de reconstruções das subjetividades. Enquanto isso, segurem seus bastões e façam os pratos girarem...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

VOCÊ USA DROGAS?

                                                                  Baco, de Caravaggio


     Pergunta complicada essa... Imediatamente a maior parte das pessoas responderá que não, pensando nas chamadas “drogas pesadas”:  crack, heroína, cocaína.  Uns poucos admitirão um “de vez em quando” mais timidamente, pensando no baseado ou no “e” (ecstasy) ou no “a” (ácido) que tomou em alguma festinha.
     Aquele que refletir um pouco mais antes de responder provavelmente  irá desenvolver algum tipo de senso crítico em relação â questão e pensará nas chamadas “drogas leves”: bebida, tabaco, medicação receitada por um médico e perceberá a complexidade do tema. E aí talvez responda que use drogas sim, já inserido em uma visão macro da problematização.
     Esse tema vem convocando a sociedade como um todo a refletir sobre a questão do uso de drogas, mas creio que essa discussão mal começou: temos ainda um longo caminho a percorrer. E pelo amplo espectro de subtemas aí envolvidos não existe um campo de saber que não tenha a contribuir para este debate. E a sociedade como um todo também.
     Mas quero aqui sublinhar basicamente a nossa absoluta imersão em uma cultura atravessada pelo consumo de drogas legais e ilegais, leves ou pesadas, como recreação ou como dependência, enfim, sobre uma certa “naturalização” do uso de drogas em nossa sociedade.
     Sem recorrer a estatísticas, visto que sabemos que os números sao impressionante e crescentes, vale lembrar que cada vez mais e mais cedo os jovens experimentam e utilizam drogas;  a dependência à drogas é uma vivência que atravessa todas as faixas etárias, as diversas classe econômicas e quase todas as culturas, assumindo contornos diversos conforme a regionalidade.
     As drogas datam de milharem de anos na história do mundo e os primeiros relatos referem-se principalmente ao uso medicinal ou ritualístico em religiões primitivas, mesmo há poucas décadas atrás utilizava-se as drogas como um favorecedor da abertura e expansão da mente, como um ato quase que político, um protesto inserido na contracultura. Até então, as drogas se encontravam referidas a algum tipo de contexto de cura, de fé ou em uma ideologia.
     A feição das drogas utilizadas majoritariamente como prazer possui poucas centenas de anos e sua grande explosão – há poucas décadas atrás - vai coincidir com  um momento histórico social que conflui a influência da cultura do narcisismo, a valorização do individualismo, à lógica do consumo capitalista e ode ao hedonismo.  Realizando muito brevemente essa rápida visada histórica que percorre milhares de anos em poucas linhas, quero principalmente destacar como o uso das drogas é hoje principalmente referido ao prazer e alienação da dor/sofrimento humanos, outrora melhor suportados  Quero destacar o quanto a cultura que vivemos favorece e estimula um modo de relação imediatista do sujeito com suas relações/objetos onde a frustração ou a postergação do prazer não possuem mais lugar.
     Nesse modo hedonista e imediatista de funcionamento da cultura, o indivíduo deve ser feliz e agora. As pessoas não devem mais sofrer. Por nada.  A dor de um sofrimento, frustração, perda, luto, enfim, os males do humano devem ser imediatamente extirpados como algo da ordem do insuportável. O mal-estar inerente à condição humana pode e deve ser anestesiado: compre, consuma, beba, coma, fume, essas são as palavras de ordem. Vigora o imperativo do “faça qualquer coisa para ser feliz”. Mesmo.  E assim nos tornamos vorazes consumidores de substâncias e de obetos que promovam – momentânea e fugazmente – essa anestesia.
     Recentemente defendi em um artigo apresentado com Marília Gabriela Brecha chamado Drogadicção no contemporâneo: reflexões sobre a cultura do consumo e a compulsão pelo objeto droga o quanto existe algo específico do modo de funcionamento da cultura atual que torna este consumo de drogas exacerbado - cultura esta regida pelo consumo e inserida na lógica da falta e do vazio. Não há nada de inédito nisso, pois Freud tematizava a busca do prazer/ alívio do sofrimento psíquico no uso de drogas como um recurso defensivo contra a dor e a infelicidade desde 1930. Questionamos é como isso agora tornou-se um modus vivendi da atualidade.
     É importante remover o véu de hipocrisia sobre o uso de drogas, pois – sem nenhum tipo de apologia, que fique claro – é comprovadamente mais nocivo a um indivíduo consumir assiduamente álcool e tabaco do que um outro sujeito que duas ou três vezes por ano uma droga “pesada”, como meio comprimido de “bala”, por exemplo. Potencialmente ambos viciam, deterioram a saúde do sujeito e levam à morte. Porém, quem de nós não frequenta habitualmente inúmeros espaços onde o álcool é consumido livremente e glorificado como a panaceia de todos os males: está feliz? Vamos “bebemorar”! Está infeliz? Vamos “bebemorar” também!
     Vale lembrar que mais do que o objeto em droga em si, o que está em jogo é o modo de relação que o sujeito estabelece com o seu objeto; inclusive quem tiver mais interesse no tema eu publiquei um livro pela Editora Juruá, que explora bem isso, intitulado Adicção: um estudo sobre passividade e violência psíquica. Mas, retomando a compreensão do modo de relacionamento do sujeito com seu objeto-droga, as gradações de utilização das drogas vão da recreação, passando para o uso habitual até chegar à dependência. Como delimitar essa linha tênue que discrimina essa gradação do domínio e controle desta relação até a completa e absoluta servidão a este objeto?
     Vivemos uma cultura adicta e estamos naturalizando isto de tal maneira que este se torna o modo de vida adotado em nossa cultura. Um exemplo disso, que tem sido bastante debatido, é o absurdo aumento da medicação controlada, o uso de drogas receitadas por médicos. Remédio para depressão, para ansiedade, para déficit de atenção, para dormir, para estimular e assim vai. Claro fique que apoio e recomendo o uso de remédios devidamente receitados conforme o determinado quadro clínico. Mas também fico bastante surpreendida que qualquer tristeza ou mesmo depressão reativa a uma perda que deve ser elaborada são prontamente anestesiadas com remédio, sem a menor preocupação com o manejo dos sentimentos e das elaborações subjetivas necessárias e funcionais para a superação do quadro.
     O mesmo vale para a ritalina, citando um exemplo, a grande “febre” da medicação infantil. Às vezes tenho a impressão que não existem mais crianças “agitadas”, “espoletas”, “pilha duracell”, existem agora crianças patologizadas: são “hiperativas”, possuem “déficit de atenção” e por aí vai. Como se essa questão também não fosse afetada pela nova formatação da criança ao urbano, confinada em espaços reduzidos, sem ter onde dispender sua energia e como se o nosso universo não fosse cada vez mais impregnados de estímulos e demandas que gradativamente afetam a nossa concentração – sejamos crianças ou adultos! Mas isso já é papo para outro “post”....
     Quero pontuar o quanto é imenso o desafio de lidar com as drogas em cada sujeito, em cada família, em cada cultura. As políticas de saúde públicas atualmente entendem que o uso de drogas é um problema da Saúde e não somente do Judiciário e é por aí que se constrói a descriminalização do usuário de drogas e a compreensão da complexidade do tema: mais do que um infrator da lei, o usuário de drogas é alguém que padece de uma doença. Doença esta que afeta toda a cultura, nas famílias, nos usuários de crack que marginalizam o crime, no alcoólatra que atropelam e mata dezenas de trabalhadores no ponto de ônibus e assim por diante.
     Nesse sentido temos que louvar o quanto a política de Redução de Danos adotada no Brasil é pioneira na estratégia na Rede de Atenção à Saúde Mental: trata-se de admitir que este é um processo que envolve inúmeros elementos e onde se almeja uma gradativa transformação da relação do usuário dependente de drogas em um sujeito que se aproprie de sua história e que possa reduzir os danos de sua drogadicção em si mesmo e em seu entorno até adquirir um domínio sobre ela  nas qual dela possa prescindir.
     Um exemplo de campanha de redução de danoso está estampado no slogan: “se for dirigir, não beba”, sem cinismos, ao se admitir que as pessoas vão beber, estimula-se uma utilização mais conscientizada do álcool e de seus efeitos no sistema nervoso central de tal maneira que dirigir se torna uma ato que oferece risco ao sujeito e aos demais. Não dirigir é reduzir o dano, é admitir que o dano existe e encontrar maneiras de minimizá-lo. Mas temos um longo caminho por aí...
     Não podemos deixar de evocar também a questão financeira envolvida no uso de drogas: do tráfico às indústrias farmacêuticas, passando pelas fábricas de cigarros e bebidas: é muito dinheiro aí envolvido, que envolve instâncias diversas. Para isso sempre recomendo os filmes “Tropa de Elite”, o primeiro – focado no Capitão Nascimento, seus dramas morais, a corrupção da policia, a ignorância dos usuários dos tentáculos do uso de drogas, o preconceito, a alienação, o “varejo” das drogas e o segundo filme da série, que vai desloca sua ótica e vai para o “atacado”: as drogas na política, a mídia e as tramas e lucros aí envolvidos. É o capital e no capitalismo tardio a droga é uma mercadoria de grande valor...
     Mas e você? Você drogas?

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Sobre Barbies, Replicantes e outros “bonecos”



A recente repercussão das fotos da modelo russa Valeria Lukyanova, aquela que deseja ser igual à boneca Barbie, foi postada em diversos sites.  A foto acima é uma das muitas, na grande maioria das fotos a modelo imita poses de boneca inanimada e sustenta um olhar vítreo, desvitalizado e imóvel como um objeto.

Não há nada de surpreendente ou de inédito em uma mocinha querer ser bonita como uma boneca ou mesmo de querer ser a boneca. Mas estranho, patológico até, é a pessoa se moldar e criar uma existência em torno disso, construindo sua identidade sobre uma boneca. E não apenas a russa, pois em várias partes do mundo existem outras inúmeras moças e mulheres buscando nas cirurgias estéticas esse assemelhamento à Barbie, como a norte-americana Kota Koti.

A situação, em um primeiro momento, remete imediatamente à "ditadura da beleza", do padrão do belo associado ao cabelo loiro, olho azul, cintura fina, seios fartos e etc. Esse é um dos aspectos subjacentes ao fenômeno, sem dúvida, o de uma estética padronizada que se torna referência de beleza. Mas creio que a situação nos remete a um mais além e sugere a metaforização de um movimento de “objetificação” do ser humano, do esvaziamento do desejo.

Vou daqui a pouco explorar essa objetificação do ser humano, mas antes quero abordar a questão do fascínio e mal estar que nos provoca a visão do boneco vivo, sensação que temos com robôs e determinados brinquedos que transitam nesse limiar do sujeito/objeto.

Existe um texto freudiano, chamado “O estranho”, Das Unheimlich (1919), que menciona a incômoda sensação que pode nos trazer o movimento mecânico no inanimado, a “vida” onde ela não existe. A palavra alemã “heimlich” possui a conotação de familiar, de algo de casa e um segundo sentido que se refere aquilo que é oculto, secreto, escondido por Unheimlich entende-se: misterioso, sobrenatural, que desperta horrível temor, sombrio.

É nesse contexto que Freud explora a idéia do estranho como “aquela categoria do assustador que remete ao que é  'conhecido, velho e há muito familiar" e quandoo familiar pode tornar-se estranho e assustador”. O autor explica que o sentimento de estranheza aparece em determinadas circunstâncias, quando a realidade e a fantasia se mesclam e o limite entre elas fica nebuloso. Objetos inanimados que ganham vida são um exemplo disso.

O texto é riquíssimo, pois Freud a partir do conto “Homem de areia” de E.T.A. Hoffman trabalha a castração, o duplo, narcisismo e a compulsão à repetição. Mas quero destacar aqui esse estranhamento e fascínio que o boneco animado provoca e nesse conto conhecemos o apaixonamento de Nataliel, o protagonista, por Olímpia, a robô.

Nataliel se encanta por uma vizinha que sempre se senta imóvel na janela e posteriormente a conhece na festa onde é apresentada à sociedade. Apesar de nada dizer, praticamente apenas emitir interjeições de concordância e de dançar de maneira peculiar, sua beleza é perfeita.

Nosso protagonista despreza a opinião de seus amigos que ela é estranha até a descoberta de que Olímpia é uma boneca. Não vou aqui esmiuçar o conto explorado por Freud, quero sim ressaltar esse sentimento evocado por Freud com os bonecos que ganham vida, fascínio e um certo horror: a foto da russa provoca essa estranheza.

Na pluralidade de questões que a Barbie russa me induziu a pensar, a partir da “objetificação” para a qual se oferece, me vi remetida ao contraponto desse movimento através da recordação dos Replicantes do belíssimo filme Blade Runner, e dos robôs que desejavam desesperada e violentamente se tornarem humanos.

Para relembrar, em Blade Runner (1982) Ridley Scott apresenta um cenário futurista de Los Angeles, no remoto ano de 2019, mesclando elementos da ficção científica com policial noir para contar a história do caçador de Replicantes Rick Deckard, interpretado por Harrison Ford. O livro que inspira o filme é de Philip Dick, Do androids dream of eletric sheep?

No início do filme o telespectador é informado que:

“No início do século XXI a Tyrel Corporation criou os robôs da série Nexus virtualmente idênticos aos seres humanos. Eram chamados de replicantes. Os replicantes Nexus 6 eram mais ágeis e fortes e no mínimo tão inteligentes quanto os Engenheiros genéticos que os criaram. Eles eram usados fora da Terra como escravos em tarefas perigosas da colonização planetária. Após motim sangrento de um grupo de Nexus 6, os replicantes foram declarados ilegais sob pena de morte. Policiais especiais, os blade runners, tinham ordens de atirar para matar qualquer replicante. Isto não era chamado execução, mas sim ‘aposentadoria’.”

No magnífico roteiro, Deckard caça os replicantes para “aposentá-los”, enquanto a trama desvenda um sujeito que busca a si mesmo, busca o amor de uma replicante, questiona seu entorno, enfim, o filme é sensacional em sua remissão ao humano, ao pós humano, ao identitário, ao individualismo, à solidão, ao capitalismo e à hipermodernidade, escreveria diversos posts só sobre esse filme!

Mas aonde eu quero chegar aqui é que os Nexus 6 buscam desesperadamente alongar seu tempo de vida, pois possuiriam somente cerca de 4 anos de funcionabilidade. Os Replicantes, produtos da avançada engenharia genéticas, são bonecos com prazo de validade: enquanto mercadoria estão submetidos ao valor do capital e possuem restrita vida útil.

Lutando contra o tempo e sua obsolescência, os Replicantes brigam pelas suas vidas e pela humanização, desvelam o desejo de longevidade e envelhecimento, pleiteiam suas próprias memórias, suas próprias emoções, a subjetivação.

Retorno então à  reflexão sobre a Barbie Valeria e os demais humanos que desejam se desumanizar e se objetificar – em um sentido diametralmente inverso ao dos Replicantes - em um movimento de esvaziamento de suas subjetividades e de “coisificação” de si.

Enquanto os andróides ascendem ao desejo da subjetividade, cada vez mais os sujeitos de hoje desejam se tornar objeto, mercadoria. Aliás, fenômeno muito bem descrito por Zygmunt Bauman e sua visão pós-moderna da sociedade do consumo.

Na sociedade do consumo, para se ser é preciso se ter. Essa “coisificação”, a metamorfose do sujeito em objeto perverte ainda mais e distorce essa lógica para “para se ser, é preciso se fazer objeto” para consumo. Do desejo da ascensão dos androides à subjetivação para o desejo da decadência do sujeito a objeto. Parece bem noir o nosso horizonte...

No confronto do replicante Roy Batty com Deckard, na cena final de Blade Runner, o androide anuncia sua morte e obsolescência: “somos apenas um instante na brevidade de nossas vidas, na transitoriedade de tudo”. Somos igualmente transitórios, embora nossa vida possa ser bastante longeva, mas nossas memórias, desejos, afetos, vivências são produções que nos atravessam e sobrevivem a nós.

Torno a trazer a questão da historicidade, da construção de um discurso e de uma narrativa no tempo  e na continuidade como importantes fatores na construção identitária e de humanização em nossos dias.

quinta-feira, 1 de março de 2012

SOBRE A CARNIS VALLES E O OCASO DA QUARESMA


Começo explicando que este não é um post sobre religião católica, quero falar sobre um modus vivendi que observo no contemporâneo e esses termos vieram de encontro a alguns pensamentos. Metaforicamente creio que eles ajudam a expressar algumas idéias que me ocorrem.

Na rebordosa do carnaval – cada vez mais extenso com o pré e o pós carnaval frenéticos que espalham pelo Brasil – fico pensando sobre a dificuldade das pessoas retornarem para seus cotidianos. Explorando a simbologia dos termos posso avançar um pouco nessa reflexão.

A expressão “carnis valles” em latim significa os prazeres da carne, a palavra “carnaval” encontra aí sua origem. O Carnaval data da Grécia Antiga, mas é com a instituição da Semana Santa pelo Catolicismo, no século IX, que a celebração dos prazeres da carne será sofregamente desfrutada no período que antecede a penitência da Quaresma. A conhecida terça feira “gorda” seria o ápice da orgia dos apetites da carne e despedida da luxúria e hedonismo precedendo a quarta feira de Cinzas.

Durante o festim romano, os padrões de moralidade eram relaxados em prol dos prazeres da comida, bebida e da carne, o trabalho era suspenso e até os escravos ganhavam liberdade provisória. Parece que nem mudou muito esse costume para os nossos dias...

No Renascimento, o Carnaval ganhou novos ares com o uso de fantasias, bailes de máscaras e carros alegóricos, exemplo disso são as representações dos bailes de Veneza. Reis e rainhas fictícios eram eleitos, trocava-se presente.  Somos herdeiros desses modelos no Brasil, o carnaval carioca com seus desfiles das Escolas de Samba é considerado a maior festa mundial, temos o Rei Momo e as Rainhas.

Recentemente o Rio de Janeiro “ressuscitou”  o carnaval de rua e neste ano milhões – literalmente! – de foliões seguiram bandas e blocos diversos. Inspiração no modelo do Norte/Nordeste do país: o carnaval de Salvador (Bahia)  é bastante famoso e renomado pelos seus trios elétricos e blocos de rua, enquanto que em Recife (Pernambuco) o Galo da Madrugada é recordista mundial de público.

Como país católico - e ecumênico - que somos,vivemos intensamente o Carnaval e os prazeres que precedem a Quaresma, mas quando afinal que chega o mardis gras ou a terça feira gorda, data simbólica onde abdicamos dos prazeres e nos dedicamos a um longo período de reclusão de quarenta dias para a Ressurreição de Cristo, na Páscoa?

Não quero aqui discutir os dogmas ou a Igreja Católica, é parco meu conhecimento sobre liturgia e mesmo sobre a doutrina. Mas sabemos como a Igreja Católica sofreu grandes transformações em sua prática e há muito que não se professa a fé como antes, desde o cumprimento do jejum até entrar na Igreja com roupas apropriadas, prática hoje quase abandonada pela maioria dos católicos.

Já mencionei anteriormente como a Igreja é uma das instituições que sofreram grandes transformações durante a transição da Modernidade para a Pós Modernidade, a perda dos valores e preceitos advindos de seus dogmas diluiu-se bastante, mas isso é parte da questão que quero discutir.

O foco aqui é pensarmos sobre a contínua e ininterrupta celebração da carnis valles em nossos dias. Simbolicamente, parece que nossa cultura não realiza mais o tempo da reflexão, retiro, introspecção, representados pela Quaresma do Catolicismo que prega um tempo de penitência e privação para o crescimento espiritual.

Somos cada vez mais carnais, exteriorizados e imediatistas, o tempo de nosso prazer é o agora, sem postergações ou adiamentos. Parece que vivemos o ocaso da Quaresma em seu sentido simbólico: a capacidade não apenas de postergar os prazeres como deles abdicar é quase uma heresia em nossa cultura, assim como a capacidade introspectiva – ler, refletir, estudar, contemplar – está na contramão da ação, da sensação e da evitação da frustração atuais.

Freud afirmou que a busca humana visa a satisfação, a obtenção de prazer e o organismo se move nesse sentido. O célebre psicanalista concebeu o id, o ego e o superego para explicar nosso funcionamento psíquico através dessas instâncias, já conhecidas pelo senso comum e pelo anedotário popular.

Explicando brevemente, seríamos regidos inicialmente pelo princípio do prazer, onde o id reinaria soberano, com o contato com a alteridade e a cultura formar-se-ia o ego do sujeito: o principio de realidade substituiria o princípio de prazer, tolerando o desprazer pela segurança, subsistência e aprovação do outro. A internalização das leis corresponderia à formação do superego, conhecido pela função de juiz ou censor do ego.

Podemos entender que a idéia de Freud de que a civilização não seria possível se não houvesse por parte e cada sujeito a repressão e recalque de seus desejos, bem como a capacidade de frustração e de adiamento da satisfação do principio do prazer. Essa seria a condição para se viver em sociedade, saber abrir mão de seus desejos e de seus prazeres.

Aprendemos assim que devemos nos ajustar à realidade, sendo nosso desejo restrito e possível de ser satisfeito sob determinadas condições. Imaginemos assim o quanto uma época como o carnaval nos permite que possamos, legitimados pelo social, dar vazão ao nosso desejo desenfreado e ao princípio de prazer que reina em todos nós. Podemos assim desfrutar, sem supressão, censura ou postergação os carnis valles...

                Mas a sensação que tenho é que esse usufruto do carnis valles vem se tornando um evento permanente em nosso cotidiano. Em tempos de uma sociedade narcísica, auto-referendada e herdeiros de uma cultura do individualismo, o projeto do sujeito parece restrito a gozar, o gozo e a satisfação tornam-se assim quase que uma “ideologia” no contemporâneo.

                É nesse sentido que falo em um ocaso da Quaresma, em alusão a um tempo de interiorização e de aprofundamento que o sujeito parece não mais conseguir vivenciar, pois de fora para dentro existe o imperativo do gozar: não contemple, aja e desfrute intensamente cada momento.

Aliás, essa situação me remete também a impressão de um progressivo desaparecimento do trabalho de luto em nossos dias.  Parece que as pessoas não dispõem mais de tempo para o processo de elaborar perdas, reais ou simbólicas, de suas vidas, não existe a possibilidade de se poder sofrer. Se a pessoa encerra uma relação amorosa, prontamente a frase que ouve é “a fila anda!”, não há “tempo” para isso.

Aprendemos com Freud, Luto e Melancolia (1917) é um belo texto no qual aborda a questão, que o luto é um afeto/estado normal no qual o sujeito deve realizar um trabalho psíquico de renúncia do objeto perdido – pessoa, ideal, etc. De certa maneira, passamos a vida elaborando trabalhos diversos de luto pelos mais variados objetos perdidos, faz parte da realidade psíquica de todo sujeito.

Mas essa foi uma pequena digressão da associação livre... Outro aspecto sobre o Carnaval para o qual essas reflexões me encaminharam foi o quanto a nossa cultura, quiça identidade até, está ligada a esses momentos de puro prazer  e me recordo de um excelente livro do psicanalista Octavio de Souza, chamado Fantasias de Brasil: as identificações na busca da identidade nacional, da Escuta.

Neste livro o autor trabalha, a partir de autores como Roberto DaMatta, Renato Ortiz e outros, a nossa identidade brasileira extraída do exotismo e da visão do novo mundo.  Ao explicar o título do livro, Souza diz que na busca de uma identidade nacional teríamos confeccionado “uma fantasia cujo o exotismo dificulta qualquer tentativa de nos apresentarmos em trajes civis”.

Ao meu ver, esta “fantasia” de pais exótico e carnavalesco é agora, cada vez mais, acrescida de atributos hedonistas e maníacos, sempre alegres, sempre festivos, e assim, na carnis valles ficamos agora fantasiados o ano inteiro...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sobre o sujeito, a identidade e cultura corpólatra


Para começar nossa conversa de hoje, vou descrever o anúncio que foi veiculado na televisão do produto Nestfit, no começo do verão. A protagonista  do comercial é uma moça e a trama se desenvolve a partir de sua chegada à praia quando começa a se despir; neste momento o narrador do comercial questiona se ela está pronta para ficar de biquíni. E aí ela silenciosamente decide que não está, ficando então vestida e sentada na cadeira de praia enquanto os demais se divertem, em diversas atividades, em trajes de banho.

Prosseguindo no desenrolar do comercial, depois de nossa protagonista consumir o Nestfit e fazer a tal da “Operação biquíni”, ela retorna a praia e a última cena do comercial é ela jogando vôlei com os amigos, finalmente desnuda e podendo fazer parte do grupo.

Assim encaminhado, o comercial induz o telespectador a concordar que aquele que não está com o perfeito corpo padronizado pelo social – e pelo comercial porta voz desse discurso – não pode usufruir da praia, das brincadeiras e nem ser feliz. Somos convocados a sermos cúmplices dessa “operação”.

A interpretação que faço desse comercial é que, se o telespectador não seguir o padrão imposto, ele não pode usufruir da praia, da diversão, da interação com os amigos, deve se esconder sob as roupas e só “viver” a vida se estiver em condições de nela exibir um corpo padrão socialmente construído que exige magreza, juventude e beleza.

A Nestlé afirma que a campanha é sobre reeducação alimentar, mas a mensagem subliminar que é veiculada é outra: esconda seu corpo se você não estiver nos moldes socialmente exigidos. Desta maneira se massacra a auto-imagem e auto-estima de todas as pessoas em formação emocional - e mesmo aquelas já formadas mas inseguras - que assistem ao anúncio, aliás, um dos muitos veiculados com o mesmo teor.

Podemos assim entender a construção de um pertencimento ou exclusão do grupo social - e da correlata felicidade - veiculadas a um corpo padrão. E assim se modela também a proliferação de distúrbios como a anorexia, a vigorexia e outras patologias ensejadas pela nossa cultura.

Conforme nos explica Mirian Goldemberg, antropóloga dedicada ao estudo do corpo em diversas culturas, o corpo é um capital simbólico, econômico e social e, nesta construção social, cada cultura vai valorizar determinados atributos e comportamentos em detrimento de outros.

O corpo padrão idealizado no contemporâneo traduz aquilo que hoje se torna um bem valorizado e aceito socialmente, e, embora existam variações de uma cultura para outra, existe em comum atributos como beleza, magreza, juventude. Aliás o livro da pesquisadora é imperdível - Coroas: corpo, envelhecimento, casamento - e nos ajuda a entender como no Brasil “o corpo é a roupa”, diferindo de outras localizações geográficas e históricas.

Para termos idéia desta padronização do corpo social ideal, uma recente campanha européia simplesmente copiou um mesmo corpo para todas as modelos de um anúncio de biquíni, colando diferentes cabeças nesta montagem. É esta a foto que se encontra ilustrando esse texto, concebida para uma campanha de uma rede de lojas de origem sueca, H & M. Um corpo cabide, livre de excessos e marcas indesejáveis: gorduras, flacidez, estrias, celulites, rugas.

Em época de carnaval, verão e de realities shows, me vem a sensação de que nossa sociedade já faz essa manipulação de corpos na vida real e não apenas em montagens de fotos. As madrinhas de bateria, destaques, passistas, sisters, parecem todas formatadas no mesmo padrão, com cabelos, seios (silicones), glúteos, pernas e bíceps identicamente modelados. Nesta “ala” da escola de samba, parecem todas que colocaram a mesma fantasia...

Os números apontam que cerca de 70% das cirurgias realizadas no Brasil são estéticas, somos os terceiros no ranking mundial, precedidos pelos Estados Unidos e Japão. Vale observar que as mulheres são as principais consumidoras de procedimentos cirúrgicos, são cerca de 80% de mulheres e de 20% de homens que compõe a clientela.

Como afirma Liana Riscado em sua dissertação de mestrado na Eicos (UFRJ), Culto ao corpo: o significado da cirurgia estética entre mulheres jovens no Rio de Janeiro, o corpo da atualidade é um objeto de design, um cartão de visitas, um corpo atravessado pelos imperativos da sociedade publicizada.

Esse corpo “cartão de visitas” em nossa cultura corpólatra passou a ser objeto de adoração, bem como passível de inúmeras manipulações e modificações em busca do ideal projetado pela sociedade. Este modelo de subjetivação referenciado ao corpo ideal atravessa toda a cultura ocidental e alguns países orientais, atingindo indiscriminadamente os gêneros e as faixas etárias. Vale lembrar que, com a globalização, começou a existir uma certa pasteurização ou homogeinização dos parâmetros de beleza.

Em recente trabalho apresentado em Congresso, em co-autoria com Livia Suisso Lourenço[1], observamos como nossa cultura está a serviço do corpo: com o surgimento das novas técnicas e procedimentos cirúrgicos ou estéticos ampliaram-se as possibilidades de intervenção, manipulação e artificialização sobre o corpo.

Neste trabalho, desenvolvemos a idéia de que na cultura midiática e imagética, o corpo – superfície e aparência – assumiu lugar soberano: o sujeito é aquilo que ele parece ser e esta aparência torna-se objeto de grande investimento de tempo e dinheiro. E o subsequente esvaziamento subjetivo do indivíduo e de sua capacidade de interiorização apenas fomentam que o sujeito permaneça nas aparências, no superficial e no imediato: o corpo vai ocupando o cenário psíquico do indivíduo, que passa a agir e funcionar a partir deste corpo-sujeito.

Sem me alongar, entendo que esse corpo tornou-se quase que o único “bem” do indivíduo da atualidade, pois mediando as transformações da relação do sujeito com seu corpo/imagem, encontramos uma radical modificação nos valores econômicos, sociais, políticos e ideológicos que sustentaram subjetivamente os sujeitos da Modernidade.

Considero também que essa corpolatria é, majoritariamente, “herdeira” da perda de utopias e ideologias do sujeito pós-moderno. O maciço investimento narcísico e a concepção de si mesmo como um “projeto” tornaram característicos do sujeito da Pós Modernidade e, nesse sentido, o corpo assumiu posição de destaque nesse projeto.

Por um lado, o corpo passou a ser objeto de adoração a partir da projeção da imagem de um corpo idealizado construído pela cultura pós-moderna, por outro lado, esse corpo passou a ser também cenário onde se proliferam diversas psicopatologias ligadas ao corpo, como síndromes do pânico, drogadicção, anorexias, bulimias, entre outras. Corpo idealizado por um lado e corpo angustiado por outro, com o corpo se tornando cada vez mais a expressão de sofrimentos pessoais e sociais, mas esse já é tema para outra conversa...



[1]Adolescência no contemporâneo: considerações sobre a cultura do consumo e a corpolatria” - Trabalho apresentado em Goiânia e enviado para publicação dos Anais do VIII Encontro Nacional da ABEP (Associação Brasileira de Ensino em Psicologia)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Mendigos, índios, prostitutas e similares: sobre o (nosso) “expurgo”


O recente caso de espancamento de um mendigo no Rio de Janeiro ganhou grande repercussão na mídia, creio eu que principalmente devido ao fato de um rapaz e seu amigo terem interferido na cena para defender a vítima. Os dois rapazes foram em socorro do mendigo e, enquanto um deles foi imobilizado, o outro rapaz foi violentamente espancado, com mais virulência ainda do que na primeira vítima, o pedinte. O segundo rapaz, Vítor, implantou sessenta e três pinos de titânio na face, oito placas, uma tela e risco de perda de visão do olho direito.
Em nossos tempos o que deveria ser um nobre e natural gesto de solidariedade ante a uma covarde cena tornou-se um gesto heróico a ser celebrado. A tal ponto de quase ofuscar o espancamento do mendigo, essa sim uma cena cada vez mais usual. Sequer achei o nome do mendigo defendido no Google, acho que este já é um sintoma...
O rapaz em sua alta do hospital fazia questão de dizer que não foi um ato heróico. Será que não? Quantos de nós imitaríamos este gesto? Esse vazio de heróis em nossos tempos é um outro tema que me gera várias questões, mas agora quero me focar na notícia do espancamento do mendigo.
Ao ler a reportagem, imediatamente fui remetida à lembrança do índio Pataxó que foi incendiado em Brasília ou à empregada doméstica que foi espancada em um ponto de ônibus no Rio porque os espancadores acharam – essa foi a alegação dos criminosos - que ela seria uma prostituta. Em seqüência me recordo da chacina dos menores ocorrida na Candelária e de outras tantas ocorrências lamentáveis envolvendo segmentos sociais menos favorecidos ou “invisíveis” socialmente.
Em comum, na violência generalizada dirigida a mendigos, índios, prostitutas, menores, enfim, está a invisibilidade, o chamado “refugo humano” da sociedade, conforme coloca Zygmunt Bauman, ao teorizar sobre os “produtos rejeitados da globalização”. Ou aquilo que não queremos ver: mendigos, menores, prostitutas...
Bauman é bastante conhecido principalmente por suas teorizações sobre a modernidade líquida e sobre a fluidez da vida contemporânea, globalizada e atravessada pelo “derretimento” das sólidas estruturas na Pós Modernidade.
Falei em post anterior como a perda do “sólido” das ideologias e instituições que  sustentavam/orientavam a vida e subjetividades humanas estão fomentando um sujeito mergulhado em incertezas e fragilidades ante perdas de parâmetros, costumes , modos de vida. Usando a terminologia de Bauman, a “liquidez”  explica o  “derretimento ” das “sólidas” ideologias da Modernidade que se tornaram fluidas, incertas, cambiantes, precárias.
Para entender os conceitos de liquidez e fluidez, o autor explica que entre os acontecimentos que favoreceram o desmoronamento da “solidez” da Modernidade encontra-se o Holocausto, o fracasso do modelo econômico proposto pelo ocidente, o corrente processo de globalização e a transformação de uma cultura da socialização para a individuação.
Sobre este último ponto, vale pontuar como os valores individuais passaram a prevalecer sobre os valores sociais e coletivos, naquilo que outros autores mencionam como o esvaziamento da esfera pública. Esse é outro fator importantíssimo de compreensão de nosso funcionamento pessoal/social que pretendo explorar em outro momento.

    Essa individuação narcísica implica também apenas a aceitação do semelhante, do idêntico e especular. O outro, o diferente, torna-se assim uma ameaça, ou, como diria Caetano Veloso: “o narciso acha feio o que não é espelho”...
O pensamento do sociólogo polonês é bem mais complexo do que mencionei e envolve a cultura de consumo, a identidade de consumidor relacionada à cidadania, a globalização e outros tantos relevantes temas. Quero aqui destacar do autor a afirmação de que - mais do que em outro momento histórico – a nossa cultura “produz expurgos” para relacionar esta idéia com o espancamento do mendigo.
Para quem se interessar em conhecer a teoria de Bauman, são diversos os textos onde encontramos o aprofundamento deste pensamento: Modernidade Líquida, Modernidade e Ambivalência, Vida Líquida, Ética da Pós Modernidade....
Se, por um lado, podemos realizar uma leitura sociológica desses fenômenos, entendendo que o social de alguma maneira produz e exclui o refugo humano do qual estamos falando, por outro lado podemos questionar o que subjaz emocionalmente a estes comportamentos tão violentos.
 O que leva um indivíduo a espancar violentamente um outro indivíduo, sem motivos desencadeadores ou explícitos? Amplio agora estes exemplos de violência gratuita referentes a outras agressões que também são frequentes: homossexuais, nordestinos, torcedor de um time rival e etc.
Quando um indivíduo considera que mendigos, índios, prostitutas, gays, nordestinos, alguém da torcida de outro time não são semelhantes a si mesmos, são outros, estranhos, intrusos, esvaziando assim o outro de humanidade.  Vemos em ação um mecanismo de objetificação e desumanização de indivíduos que não são reconhecidos como sujeitos pelos espancadores: são coisas, coisas desprezíveis.
Sociologicamente, entendemos a teoria que sustenta que esses sujeitos não correspondem ao ideal do consumidor forjado por uma cultura e pelo marketing/mídia. Esses indivíduos que agridem aqueles que consideram diferentes de si –  indivíduos doentes sem dúvida - reproduzem o mecanismo de expurgo, de purgar a “ferida” que estas pessoas explicitam existir na globalizada sociedade do consumo e o fazem através dessa aniquilação/destruição do outro.
Por outro lado, psicologicamente, por que esses sujeitos incomodam tanto um indivíduo, de tal maneira que este precisa destruir, aniquilar este outro?  O que existe nesse outro diferente que incita e mobiliza dentro do sujeito tanta raiva e horror, tamanha vontade de negar essa existência até a morte?
Talvez estes sujeitos apontem para a possibilidade de cada um de nós sermos excluídos e expurgados pelo social, aponta para a nossa imperfeição, falta... E isso causa um profundo mal estar, uma vez que expõe a nossa condição humana de falibilidade e fragilidade.

    Em determinadas pessoas isso pode se traduzir em um preconceito discreto, em um discurso intelectual, já em outras, renegar e atacar violentamente – física e moralmente - o que lhe causa horror evidencia a precariedade psíquica de lidar com a diferença, a falha, as feridas narcísicas inerentes ao humano.
Aponta para o primitivo em nós, o não simbolizado, não significado, não mediado pela linguagem, pela lei e pelo outro.
Evidencia também a nossa falha como cultura em conseguir subjetivar, tornar sujeitos aqueles com os quais não conseguimos nos identificar, aponta para o nosso medo de lidar com a alteridade e a diferença, assim como com aquilo que expõem as nossas próprias purgações, pessoais e sociais.
O caminho da evolução do selvagem hominídeo para o homo sapiens apresenta a aquisição da linguagem, do simbólico, da capacidade de abstração e relativização. O que estará nos faltando em plena Era do Informacionismo e da cultura midiática? Tanta informação, tantas palavras e imagens não tornaram o homem pós-moderno tão “civilizado” quanto se imaginaria...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

As crianças no contemporâneo ou sobre o reinado da infância


Começo essa reflexão lembrando uma frase clássica de Freud no texto “O narcisismo” (1914) onde se refere à “sua majestade o bebê” para explicar como os pais investem nos filhos o seu próprio narcisismo primário abandonado por eles na infância. Sem me aprofundar na teoria freudiana sobre o narcisismo, quero destacar aqui como um filho pode assumir o lugar de um ideal e como ele permite que os pais revivam seu ego ideal nesta relação.


Isto posto, acho que fica mais claro entender porque os pais colocam seus filhos em um “trono” e tornam esta criança um pequeno rei tirano. Podemos compreender como se explica também a dificuldade dos pais em negarem alguma coisa a estas crianças, projeções narcísicas de si mesmo, a quem não podem frustrar ou decepcionar, para não frustrar a si mesmos.


A foto que ilustra este post é a capa da revista sobre crianças, cuja matéria eu não li, mas cuja chamada ilustrava essa tirania que tantas crianças de hoje impõem aos adultos. São vários fatores aí envolvidos, espero levantar uma discussão sobre alguns deles, não ambiciono conseguir de fato desenvolvê-los devidamente...


Marco então como a projeção narcísica de si mesmo sobre um filho pode assumir contornos assustadores em uma sociedade como a nossa, tão bem anunciada por Christopher Larsch em seu livro “Cultura do narcisismo”, de 1983, onde chega a insinuar um cunho patológico do narcisismo na América, bem como nas sociedades afins.


Larsch analisa a sociedade americana, os efeitos de uma sociedade industrializada, a superficialidade emocional do indivíduo, o declínio do âmbito público e a progressiva acentuação do individual, desenhando a figura de uma pessoa autocentrada e  indiferente a tudo e a todos que não lhe dizem respeito diretamente.


Somando então a teoria freudiana sobre o narcisismo dos pais reeditado nos filhos à fala de Larsch de uma sociedade que cultua o narcisismo, podemos inferir como essa combinação enseja que, cada vez mais, as crianças estejam sendo idealizadas e idolatradas.


Creio também existe algo de excessivo na “realeza” infantil em nossa cultura, o brasileiro de uma maneira geral adora os pequenos. O psicanalista italiano Contardo Calligaris escreveu há muitos anos um livro chamado “Hello Brasil: notas de um psicanalista europeu viajando ao Brasil”, ótimo por sinal, onde descrevia seu espanto em como as crianças eram tratadas por aqui, como reis. É interessante esse olhar estrangeiro sobre aquilo que naturalizamos.


Penso que um outro aspecto importante concerne à transformação da tradicional família nuclear burguesa, parâmetro das disciplinas tão bem exploradas por Michel Foucault e reguladoras da sociedade. Novas configurações familiares vêm desmapeando os modelos tradicionais, a compreensão dos papéis sociais dentro da instituição família, as funções da própria família, bem como expõe o declínio social da função paterna (que para Jacques Lacan, brevemente falando, está atrelada à marca da lei no psiquismo).


Importantes parâmetros de outras instituições tradicionais - como a escola e a igreja - sofreram grandes transformações, os cânones a serem seguidos se esfacelaram, pulverizando assim modelos e certezas anteriormente existentes.


Como palestrante em diversas escolas, como clínica, na esfera social, encontro freqüentemente pais e mães que não sabem discernir ou circunscrever quais as “coordenadas” para assumir essas funções. Nesse sentido evoco o desmapeamento que mencionei: se antes estas funções vinham delimitadas pelo social, agora a pluralidade de parâmetros desnorteia qual o rumo “certo” a se seguir.


Vazio, desproteção, confusão, fragilidade das instituições e laços sociais, acirramento do narcisismo. E aí nascem os filhos, partes potencialmente ideais do sujeito, em um mundo onde as regras são diversas e os laços com a alteridade frouxos. E assim se institui um rei, que em um segundo tempo torna-se um tirano egocêntrico, fonte de sofrimento dos pais, da escola, da sociedade.


As majestades são impulsivas, com baixa tolerância à frustração, individualistas, egoístas, imediatistas, imperativas: esse parece ser o preço a se pagar pelo renascimento do narcisismo parental em uma cultura do narcisismo. Que reinado que estamos vivendo...


Reconhecer a necessidade de negar, frustrar, proibir, limitar, “castrar” o filho implica que os pais possam castrar a si mesmos para que a criança possa adivir como alguém capaz de se engajar em relações alteritárias e com um olhar do outro como tal. Conforme nos ensina Winnicott, a criança entende o “não” – dito correta e adequadamente - como uma forma de amor e cuidado: os limites acondicionam e protegem também.


Psicólogos, educadores, fonoaudiólogos, todos são evocados por pais desesperados com a criação de seus filhos. É grande o desamparo que faz com que alguns pais – os mais conscientes provavelmente – comecem a se preocupar seriamente com a subjetividade em formação que está sob seus cuidados. Que esta angústia seja bem vinda e que fomente um novo olhar sobre o reinado infantil pois senão... o que me vem à cabeça é a foto de Jáder Barbalho com seu filho de terno idêntico ao pai fazendo sinais obscenos à platéia de jornalistas...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eu vejo tudo em quadrados: sobre realities shows, novelas, internet e etc...

O Big Brother Brasil está em sua 12ª edição, desconheço os números do Ibope e a audiência, mas o fato que o programa ainda tem fôlego e público. Na verdade esse tipo de programa vem se multiplicando em variações sobre o mesmo tema tanto no Brasil quanto no exterior.

Contando com participantes anônimos ou com pessoas conhecidas através da mídia, os realities shows se multiplicam, monitorando grupos de pessoas confinadas em um determinado ambiente ou outras pessoas cujas vidas são acompanhadas pelas câmeras em seu cotidiano: viciados, anões, obesos, noivas, famílias, etc.


A recente “polêmica” do programa – que obviamente alavancou a audiência – foi por conta de um dos participantes ter cometido atos sexuais com uma moça desacordada pela excessiva ingestão de bebida.  De inédito na repercussão do episódio aponto o poder das redes sociais e seu impressionante poder de mobilização e repercussão - que culminou na expulsão do rapaz do programa. Esse foi um grande diferencial na mobilização ante uma ocorrência dentro da “casa” devido ao poder multiplicador das redes.

Não quero aqui explorar o tema BBB e abuso, pois envolve muitos elementos complexos e como não assisto o programa não sou uma comentadora competente ou abalizada. Mas sabe-se que o BBB é um programa com roteiro e edição, existe direção, elenco escolhido, patrocinadores. Sabe-se, pelas edições anteriores, que o álcool é estimulado de modo a permitir mais “ação”, com o nível de censura dos participantes nocauteado pela droga. Sabe-se também que o sexo - apelo poderoso em nossa cultura - é um mote bastante explorado no BBB.

Homens e mulheres são expostos como mercadorias sexuais - vi uma chamada em um site de notícias dizendo que fulana e fulana hoje conversavam sobre posarem nuas depois do programa – acho que isso já ilustra o “tom” do programa. Não assisti essa edição, mas de uma maneira geral parece um açougue, com as carnes em exposição em closes ginecológicos. Quem se inscreve para participar do programa sabe do que se trata. E quem assiste também. E isso é livre arbítrio.


Essa breve descrição é para esboçar o cenário onde ocorreu o abuso. Fica difícil filtrar isso tudo sem a manipulação do canal e o poder da massa pressionando, não sabemos o todo do ocorrido, talvez no pay per view, mas ainda assim acho que devemos manter cuidado nos julgamentos. Mas acho estranho que os telespectadores só tenham “percebido” isso agora, depois de tantas edições e repetições similares. O programa é mesmo um abuso ao telespectador, é sobre isso que se sustenta o programa, mas essa é outra discussão...

Claro fique que, independente do cenário,  abuso sexual ou estupro é uma coisa muito séria que deve ser denunciada e criminalizada. Acho também muito grave que a mulher continue sendo acusada por todos os pecados relacionados ao sexo - desde Eva que o feminino carrega essa pecha! O homem ainda é uma pobre vítima, um Adão engendrado nos ardis da Eva pecadora.

Sem dúvida que a moça bolinada não é inocente sobre o significado de participar do BBB, de se embriagar até chapar e etc, mas não pode ser culpada por incitar um abuso, isso é retrocedermos violentamente em todas as conquistas que as mulheres penaram para conseguir em séculos de opressão.

Na verdade, todo esse preâmbulo sobre o BBB foi para falar sobre o fascínio que estes programas exercem sobre o público.  Sem juízo de valores, acho importante refletirmos o que leva o ser humano a assistir apaixonadamente esses programas, independente de faixa etária, sexo, nível de instrução, poder aquisitivo, religião ou afiliação política.


A democracia sustenta que somos livres para que possamos fazer nossas escolhas na sociedade sejam elas quais forem. A TV a cabo incrementou o espectro de escolhas de canais, a internet criou um novo universo a ser explorado, DVDs de filmes e músicas, livros e outras inúmeras atividades estão disponíveis ao sujeito. Mas as pessoas escolhem assistir avidamente esses realities shows.

Em outra linha, mas com um fundamento semelhante, se multiplicam noticiários que exploram longa e exaustivamente casos policiais ou dramas de vida real na televisão aberta. Existe um vasto público que consome esses programas. Ainda em outra perspectiva de análise, consumimos também muitas novelas, um de nossos canais exibe cerca de cinco por dia! São vidas e histórias que arrebatam o amor e o ódio do telespectador, que vive aquelas ficções intensamente, como fossem reais ou como se fizessem parte de suas vidas.

Tem um filme que gosto muito, “O show de Truman”, com o Jim Carrey, que ilustra muito bem esse fascínio em viver a vida alheia. Nesta ficção um bebê é adotado pelo diretor/produtor de um reality show e colocado no cenário de uma cidade fictícia, onde todos – família, amigos, moradores - são atores contratados. A vida do personagem desde o “nascimento“, infância, adolescência até a adultez é televisionada e compartilhada com os telespectadores. Vale assistir e atentar para o comportamento dos telespectadores ao final do filme, sem estragar surpresas para quem não assistiu.

Mas qual a função que estes programas assumem na vida do telespectador? Entretenimento apenas? O que será que o telespectador quer/precisa ver nesses programas? Voyeurismo e exibicionismo são faces de um mesmo desejo... O que irá ser desvendado nessa espiadinha voyeur que somos convidados a fazer?

Chego assim a uma frase que me veio à cabeça, de Adriana Calcanhoto, em uma música que diz “eu vejo tudo em quadrado, remoto controle”.  É algo dessa “vida em quadrado”, no monitor da televisão ou do computador que fico pensando que reside o fascínio de viver projetivamente a vida dos outros, dramas, sucessos, fracassos, amores, sexualidade, torcer, vibrar, viver de alguma maneira uma outra vida. E também, quiça, ilusoriamente manipular e controlar as dinâmicas e mistérios da vida.

A idéia da tragédia grega com sua função catártica e identificatória – tão bem analisada por Freud na leitura do “Édipo Rei” de Sófocles e do desejo parricida de cada espectador  no drama de Édipo/Laio/Jocasta– permite que possamos compreender a nossa identificação com as ficções e com os realities shows.  Vivemos pelo “quadrado” a vida alheia com controle, controle remoto e remoto controle.

Inspirada por outra cena, de um filme meio trash, “Invasão de privacidade” que tem Sharon Stone como protagonista, ela descobre que foi morar em um apartamento monitorado pelo proprietário de todo prédio, um voyeur com quem se envolve. O filme vale unicamente pela última cena, na qual Sharon se volta para a câmera, aponta o controle remoto em nossa direção e diz  get a life!”. E fim. Tradução livre: viva/tenha uma vida.
Get a life...