quinta-feira, 1 de março de 2012

SOBRE A CARNIS VALLES E O OCASO DA QUARESMA


Começo explicando que este não é um post sobre religião católica, quero falar sobre um modus vivendi que observo no contemporâneo e esses termos vieram de encontro a alguns pensamentos. Metaforicamente creio que eles ajudam a expressar algumas idéias que me ocorrem.

Na rebordosa do carnaval – cada vez mais extenso com o pré e o pós carnaval frenéticos que espalham pelo Brasil – fico pensando sobre a dificuldade das pessoas retornarem para seus cotidianos. Explorando a simbologia dos termos posso avançar um pouco nessa reflexão.

A expressão “carnis valles” em latim significa os prazeres da carne, a palavra “carnaval” encontra aí sua origem. O Carnaval data da Grécia Antiga, mas é com a instituição da Semana Santa pelo Catolicismo, no século IX, que a celebração dos prazeres da carne será sofregamente desfrutada no período que antecede a penitência da Quaresma. A conhecida terça feira “gorda” seria o ápice da orgia dos apetites da carne e despedida da luxúria e hedonismo precedendo a quarta feira de Cinzas.

Durante o festim romano, os padrões de moralidade eram relaxados em prol dos prazeres da comida, bebida e da carne, o trabalho era suspenso e até os escravos ganhavam liberdade provisória. Parece que nem mudou muito esse costume para os nossos dias...

No Renascimento, o Carnaval ganhou novos ares com o uso de fantasias, bailes de máscaras e carros alegóricos, exemplo disso são as representações dos bailes de Veneza. Reis e rainhas fictícios eram eleitos, trocava-se presente.  Somos herdeiros desses modelos no Brasil, o carnaval carioca com seus desfiles das Escolas de Samba é considerado a maior festa mundial, temos o Rei Momo e as Rainhas.

Recentemente o Rio de Janeiro “ressuscitou”  o carnaval de rua e neste ano milhões – literalmente! – de foliões seguiram bandas e blocos diversos. Inspiração no modelo do Norte/Nordeste do país: o carnaval de Salvador (Bahia)  é bastante famoso e renomado pelos seus trios elétricos e blocos de rua, enquanto que em Recife (Pernambuco) o Galo da Madrugada é recordista mundial de público.

Como país católico - e ecumênico - que somos,vivemos intensamente o Carnaval e os prazeres que precedem a Quaresma, mas quando afinal que chega o mardis gras ou a terça feira gorda, data simbólica onde abdicamos dos prazeres e nos dedicamos a um longo período de reclusão de quarenta dias para a Ressurreição de Cristo, na Páscoa?

Não quero aqui discutir os dogmas ou a Igreja Católica, é parco meu conhecimento sobre liturgia e mesmo sobre a doutrina. Mas sabemos como a Igreja Católica sofreu grandes transformações em sua prática e há muito que não se professa a fé como antes, desde o cumprimento do jejum até entrar na Igreja com roupas apropriadas, prática hoje quase abandonada pela maioria dos católicos.

Já mencionei anteriormente como a Igreja é uma das instituições que sofreram grandes transformações durante a transição da Modernidade para a Pós Modernidade, a perda dos valores e preceitos advindos de seus dogmas diluiu-se bastante, mas isso é parte da questão que quero discutir.

O foco aqui é pensarmos sobre a contínua e ininterrupta celebração da carnis valles em nossos dias. Simbolicamente, parece que nossa cultura não realiza mais o tempo da reflexão, retiro, introspecção, representados pela Quaresma do Catolicismo que prega um tempo de penitência e privação para o crescimento espiritual.

Somos cada vez mais carnais, exteriorizados e imediatistas, o tempo de nosso prazer é o agora, sem postergações ou adiamentos. Parece que vivemos o ocaso da Quaresma em seu sentido simbólico: a capacidade não apenas de postergar os prazeres como deles abdicar é quase uma heresia em nossa cultura, assim como a capacidade introspectiva – ler, refletir, estudar, contemplar – está na contramão da ação, da sensação e da evitação da frustração atuais.

Freud afirmou que a busca humana visa a satisfação, a obtenção de prazer e o organismo se move nesse sentido. O célebre psicanalista concebeu o id, o ego e o superego para explicar nosso funcionamento psíquico através dessas instâncias, já conhecidas pelo senso comum e pelo anedotário popular.

Explicando brevemente, seríamos regidos inicialmente pelo princípio do prazer, onde o id reinaria soberano, com o contato com a alteridade e a cultura formar-se-ia o ego do sujeito: o principio de realidade substituiria o princípio de prazer, tolerando o desprazer pela segurança, subsistência e aprovação do outro. A internalização das leis corresponderia à formação do superego, conhecido pela função de juiz ou censor do ego.

Podemos entender que a idéia de Freud de que a civilização não seria possível se não houvesse por parte e cada sujeito a repressão e recalque de seus desejos, bem como a capacidade de frustração e de adiamento da satisfação do principio do prazer. Essa seria a condição para se viver em sociedade, saber abrir mão de seus desejos e de seus prazeres.

Aprendemos assim que devemos nos ajustar à realidade, sendo nosso desejo restrito e possível de ser satisfeito sob determinadas condições. Imaginemos assim o quanto uma época como o carnaval nos permite que possamos, legitimados pelo social, dar vazão ao nosso desejo desenfreado e ao princípio de prazer que reina em todos nós. Podemos assim desfrutar, sem supressão, censura ou postergação os carnis valles...

                Mas a sensação que tenho é que esse usufruto do carnis valles vem se tornando um evento permanente em nosso cotidiano. Em tempos de uma sociedade narcísica, auto-referendada e herdeiros de uma cultura do individualismo, o projeto do sujeito parece restrito a gozar, o gozo e a satisfação tornam-se assim quase que uma “ideologia” no contemporâneo.

                É nesse sentido que falo em um ocaso da Quaresma, em alusão a um tempo de interiorização e de aprofundamento que o sujeito parece não mais conseguir vivenciar, pois de fora para dentro existe o imperativo do gozar: não contemple, aja e desfrute intensamente cada momento.

Aliás, essa situação me remete também a impressão de um progressivo desaparecimento do trabalho de luto em nossos dias.  Parece que as pessoas não dispõem mais de tempo para o processo de elaborar perdas, reais ou simbólicas, de suas vidas, não existe a possibilidade de se poder sofrer. Se a pessoa encerra uma relação amorosa, prontamente a frase que ouve é “a fila anda!”, não há “tempo” para isso.

Aprendemos com Freud, Luto e Melancolia (1917) é um belo texto no qual aborda a questão, que o luto é um afeto/estado normal no qual o sujeito deve realizar um trabalho psíquico de renúncia do objeto perdido – pessoa, ideal, etc. De certa maneira, passamos a vida elaborando trabalhos diversos de luto pelos mais variados objetos perdidos, faz parte da realidade psíquica de todo sujeito.

Mas essa foi uma pequena digressão da associação livre... Outro aspecto sobre o Carnaval para o qual essas reflexões me encaminharam foi o quanto a nossa cultura, quiça identidade até, está ligada a esses momentos de puro prazer  e me recordo de um excelente livro do psicanalista Octavio de Souza, chamado Fantasias de Brasil: as identificações na busca da identidade nacional, da Escuta.

Neste livro o autor trabalha, a partir de autores como Roberto DaMatta, Renato Ortiz e outros, a nossa identidade brasileira extraída do exotismo e da visão do novo mundo.  Ao explicar o título do livro, Souza diz que na busca de uma identidade nacional teríamos confeccionado “uma fantasia cujo o exotismo dificulta qualquer tentativa de nos apresentarmos em trajes civis”.

Ao meu ver, esta “fantasia” de pais exótico e carnavalesco é agora, cada vez mais, acrescida de atributos hedonistas e maníacos, sempre alegres, sempre festivos, e assim, na carnis valles ficamos agora fantasiados o ano inteiro...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sobre o sujeito, a identidade e cultura corpólatra


Para começar nossa conversa de hoje, vou descrever o anúncio que foi veiculado na televisão do produto Nestfit, no começo do verão. A protagonista  do comercial é uma moça e a trama se desenvolve a partir de sua chegada à praia quando começa a se despir; neste momento o narrador do comercial questiona se ela está pronta para ficar de biquíni. E aí ela silenciosamente decide que não está, ficando então vestida e sentada na cadeira de praia enquanto os demais se divertem, em diversas atividades, em trajes de banho.

Prosseguindo no desenrolar do comercial, depois de nossa protagonista consumir o Nestfit e fazer a tal da “Operação biquíni”, ela retorna a praia e a última cena do comercial é ela jogando vôlei com os amigos, finalmente desnuda e podendo fazer parte do grupo.

Assim encaminhado, o comercial induz o telespectador a concordar que aquele que não está com o perfeito corpo padronizado pelo social – e pelo comercial porta voz desse discurso – não pode usufruir da praia, das brincadeiras e nem ser feliz. Somos convocados a sermos cúmplices dessa “operação”.

A interpretação que faço desse comercial é que, se o telespectador não seguir o padrão imposto, ele não pode usufruir da praia, da diversão, da interação com os amigos, deve se esconder sob as roupas e só “viver” a vida se estiver em condições de nela exibir um corpo padrão socialmente construído que exige magreza, juventude e beleza.

A Nestlé afirma que a campanha é sobre reeducação alimentar, mas a mensagem subliminar que é veiculada é outra: esconda seu corpo se você não estiver nos moldes socialmente exigidos. Desta maneira se massacra a auto-imagem e auto-estima de todas as pessoas em formação emocional - e mesmo aquelas já formadas mas inseguras - que assistem ao anúncio, aliás, um dos muitos veiculados com o mesmo teor.

Podemos assim entender a construção de um pertencimento ou exclusão do grupo social - e da correlata felicidade - veiculadas a um corpo padrão. E assim se modela também a proliferação de distúrbios como a anorexia, a vigorexia e outras patologias ensejadas pela nossa cultura.

Conforme nos explica Mirian Goldemberg, antropóloga dedicada ao estudo do corpo em diversas culturas, o corpo é um capital simbólico, econômico e social e, nesta construção social, cada cultura vai valorizar determinados atributos e comportamentos em detrimento de outros.

O corpo padrão idealizado no contemporâneo traduz aquilo que hoje se torna um bem valorizado e aceito socialmente, e, embora existam variações de uma cultura para outra, existe em comum atributos como beleza, magreza, juventude. Aliás o livro da pesquisadora é imperdível - Coroas: corpo, envelhecimento, casamento - e nos ajuda a entender como no Brasil “o corpo é a roupa”, diferindo de outras localizações geográficas e históricas.

Para termos idéia desta padronização do corpo social ideal, uma recente campanha européia simplesmente copiou um mesmo corpo para todas as modelos de um anúncio de biquíni, colando diferentes cabeças nesta montagem. É esta a foto que se encontra ilustrando esse texto, concebida para uma campanha de uma rede de lojas de origem sueca, H & M. Um corpo cabide, livre de excessos e marcas indesejáveis: gorduras, flacidez, estrias, celulites, rugas.

Em época de carnaval, verão e de realities shows, me vem a sensação de que nossa sociedade já faz essa manipulação de corpos na vida real e não apenas em montagens de fotos. As madrinhas de bateria, destaques, passistas, sisters, parecem todas formatadas no mesmo padrão, com cabelos, seios (silicones), glúteos, pernas e bíceps identicamente modelados. Nesta “ala” da escola de samba, parecem todas que colocaram a mesma fantasia...

Os números apontam que cerca de 70% das cirurgias realizadas no Brasil são estéticas, somos os terceiros no ranking mundial, precedidos pelos Estados Unidos e Japão. Vale observar que as mulheres são as principais consumidoras de procedimentos cirúrgicos, são cerca de 80% de mulheres e de 20% de homens que compõe a clientela.

Como afirma Liana Riscado em sua dissertação de mestrado na Eicos (UFRJ), Culto ao corpo: o significado da cirurgia estética entre mulheres jovens no Rio de Janeiro, o corpo da atualidade é um objeto de design, um cartão de visitas, um corpo atravessado pelos imperativos da sociedade publicizada.

Esse corpo “cartão de visitas” em nossa cultura corpólatra passou a ser objeto de adoração, bem como passível de inúmeras manipulações e modificações em busca do ideal projetado pela sociedade. Este modelo de subjetivação referenciado ao corpo ideal atravessa toda a cultura ocidental e alguns países orientais, atingindo indiscriminadamente os gêneros e as faixas etárias. Vale lembrar que, com a globalização, começou a existir uma certa pasteurização ou homogeinização dos parâmetros de beleza.

Em recente trabalho apresentado em Congresso, em co-autoria com Livia Suisso Lourenço[1], observamos como nossa cultura está a serviço do corpo: com o surgimento das novas técnicas e procedimentos cirúrgicos ou estéticos ampliaram-se as possibilidades de intervenção, manipulação e artificialização sobre o corpo.

Neste trabalho, desenvolvemos a idéia de que na cultura midiática e imagética, o corpo – superfície e aparência – assumiu lugar soberano: o sujeito é aquilo que ele parece ser e esta aparência torna-se objeto de grande investimento de tempo e dinheiro. E o subsequente esvaziamento subjetivo do indivíduo e de sua capacidade de interiorização apenas fomentam que o sujeito permaneça nas aparências, no superficial e no imediato: o corpo vai ocupando o cenário psíquico do indivíduo, que passa a agir e funcionar a partir deste corpo-sujeito.

Sem me alongar, entendo que esse corpo tornou-se quase que o único “bem” do indivíduo da atualidade, pois mediando as transformações da relação do sujeito com seu corpo/imagem, encontramos uma radical modificação nos valores econômicos, sociais, políticos e ideológicos que sustentaram subjetivamente os sujeitos da Modernidade.

Considero também que essa corpolatria é, majoritariamente, “herdeira” da perda de utopias e ideologias do sujeito pós-moderno. O maciço investimento narcísico e a concepção de si mesmo como um “projeto” tornaram característicos do sujeito da Pós Modernidade e, nesse sentido, o corpo assumiu posição de destaque nesse projeto.

Por um lado, o corpo passou a ser objeto de adoração a partir da projeção da imagem de um corpo idealizado construído pela cultura pós-moderna, por outro lado, esse corpo passou a ser também cenário onde se proliferam diversas psicopatologias ligadas ao corpo, como síndromes do pânico, drogadicção, anorexias, bulimias, entre outras. Corpo idealizado por um lado e corpo angustiado por outro, com o corpo se tornando cada vez mais a expressão de sofrimentos pessoais e sociais, mas esse já é tema para outra conversa...



[1]Adolescência no contemporâneo: considerações sobre a cultura do consumo e a corpolatria” - Trabalho apresentado em Goiânia e enviado para publicação dos Anais do VIII Encontro Nacional da ABEP (Associação Brasileira de Ensino em Psicologia)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Mendigos, índios, prostitutas e similares: sobre o (nosso) “expurgo”


O recente caso de espancamento de um mendigo no Rio de Janeiro ganhou grande repercussão na mídia, creio eu que principalmente devido ao fato de um rapaz e seu amigo terem interferido na cena para defender a vítima. Os dois rapazes foram em socorro do mendigo e, enquanto um deles foi imobilizado, o outro rapaz foi violentamente espancado, com mais virulência ainda do que na primeira vítima, o pedinte. O segundo rapaz, Vítor, implantou sessenta e três pinos de titânio na face, oito placas, uma tela e risco de perda de visão do olho direito.
Em nossos tempos o que deveria ser um nobre e natural gesto de solidariedade ante a uma covarde cena tornou-se um gesto heróico a ser celebrado. A tal ponto de quase ofuscar o espancamento do mendigo, essa sim uma cena cada vez mais usual. Sequer achei o nome do mendigo defendido no Google, acho que este já é um sintoma...
O rapaz em sua alta do hospital fazia questão de dizer que não foi um ato heróico. Será que não? Quantos de nós imitaríamos este gesto? Esse vazio de heróis em nossos tempos é um outro tema que me gera várias questões, mas agora quero me focar na notícia do espancamento do mendigo.
Ao ler a reportagem, imediatamente fui remetida à lembrança do índio Pataxó que foi incendiado em Brasília ou à empregada doméstica que foi espancada em um ponto de ônibus no Rio porque os espancadores acharam – essa foi a alegação dos criminosos - que ela seria uma prostituta. Em seqüência me recordo da chacina dos menores ocorrida na Candelária e de outras tantas ocorrências lamentáveis envolvendo segmentos sociais menos favorecidos ou “invisíveis” socialmente.
Em comum, na violência generalizada dirigida a mendigos, índios, prostitutas, menores, enfim, está a invisibilidade, o chamado “refugo humano” da sociedade, conforme coloca Zygmunt Bauman, ao teorizar sobre os “produtos rejeitados da globalização”. Ou aquilo que não queremos ver: mendigos, menores, prostitutas...
Bauman é bastante conhecido principalmente por suas teorizações sobre a modernidade líquida e sobre a fluidez da vida contemporânea, globalizada e atravessada pelo “derretimento” das sólidas estruturas na Pós Modernidade.
Falei em post anterior como a perda do “sólido” das ideologias e instituições que  sustentavam/orientavam a vida e subjetividades humanas estão fomentando um sujeito mergulhado em incertezas e fragilidades ante perdas de parâmetros, costumes , modos de vida. Usando a terminologia de Bauman, a “liquidez”  explica o  “derretimento ” das “sólidas” ideologias da Modernidade que se tornaram fluidas, incertas, cambiantes, precárias.
Para entender os conceitos de liquidez e fluidez, o autor explica que entre os acontecimentos que favoreceram o desmoronamento da “solidez” da Modernidade encontra-se o Holocausto, o fracasso do modelo econômico proposto pelo ocidente, o corrente processo de globalização e a transformação de uma cultura da socialização para a individuação.
Sobre este último ponto, vale pontuar como os valores individuais passaram a prevalecer sobre os valores sociais e coletivos, naquilo que outros autores mencionam como o esvaziamento da esfera pública. Esse é outro fator importantíssimo de compreensão de nosso funcionamento pessoal/social que pretendo explorar em outro momento.

    Essa individuação narcísica implica também apenas a aceitação do semelhante, do idêntico e especular. O outro, o diferente, torna-se assim uma ameaça, ou, como diria Caetano Veloso: “o narciso acha feio o que não é espelho”...
O pensamento do sociólogo polonês é bem mais complexo do que mencionei e envolve a cultura de consumo, a identidade de consumidor relacionada à cidadania, a globalização e outros tantos relevantes temas. Quero aqui destacar do autor a afirmação de que - mais do que em outro momento histórico – a nossa cultura “produz expurgos” para relacionar esta idéia com o espancamento do mendigo.
Para quem se interessar em conhecer a teoria de Bauman, são diversos os textos onde encontramos o aprofundamento deste pensamento: Modernidade Líquida, Modernidade e Ambivalência, Vida Líquida, Ética da Pós Modernidade....
Se, por um lado, podemos realizar uma leitura sociológica desses fenômenos, entendendo que o social de alguma maneira produz e exclui o refugo humano do qual estamos falando, por outro lado podemos questionar o que subjaz emocionalmente a estes comportamentos tão violentos.
 O que leva um indivíduo a espancar violentamente um outro indivíduo, sem motivos desencadeadores ou explícitos? Amplio agora estes exemplos de violência gratuita referentes a outras agressões que também são frequentes: homossexuais, nordestinos, torcedor de um time rival e etc.
Quando um indivíduo considera que mendigos, índios, prostitutas, gays, nordestinos, alguém da torcida de outro time não são semelhantes a si mesmos, são outros, estranhos, intrusos, esvaziando assim o outro de humanidade.  Vemos em ação um mecanismo de objetificação e desumanização de indivíduos que não são reconhecidos como sujeitos pelos espancadores: são coisas, coisas desprezíveis.
Sociologicamente, entendemos a teoria que sustenta que esses sujeitos não correspondem ao ideal do consumidor forjado por uma cultura e pelo marketing/mídia. Esses indivíduos que agridem aqueles que consideram diferentes de si –  indivíduos doentes sem dúvida - reproduzem o mecanismo de expurgo, de purgar a “ferida” que estas pessoas explicitam existir na globalizada sociedade do consumo e o fazem através dessa aniquilação/destruição do outro.
Por outro lado, psicologicamente, por que esses sujeitos incomodam tanto um indivíduo, de tal maneira que este precisa destruir, aniquilar este outro?  O que existe nesse outro diferente que incita e mobiliza dentro do sujeito tanta raiva e horror, tamanha vontade de negar essa existência até a morte?
Talvez estes sujeitos apontem para a possibilidade de cada um de nós sermos excluídos e expurgados pelo social, aponta para a nossa imperfeição, falta... E isso causa um profundo mal estar, uma vez que expõe a nossa condição humana de falibilidade e fragilidade.

    Em determinadas pessoas isso pode se traduzir em um preconceito discreto, em um discurso intelectual, já em outras, renegar e atacar violentamente – física e moralmente - o que lhe causa horror evidencia a precariedade psíquica de lidar com a diferença, a falha, as feridas narcísicas inerentes ao humano.
Aponta para o primitivo em nós, o não simbolizado, não significado, não mediado pela linguagem, pela lei e pelo outro.
Evidencia também a nossa falha como cultura em conseguir subjetivar, tornar sujeitos aqueles com os quais não conseguimos nos identificar, aponta para o nosso medo de lidar com a alteridade e a diferença, assim como com aquilo que expõem as nossas próprias purgações, pessoais e sociais.
O caminho da evolução do selvagem hominídeo para o homo sapiens apresenta a aquisição da linguagem, do simbólico, da capacidade de abstração e relativização. O que estará nos faltando em plena Era do Informacionismo e da cultura midiática? Tanta informação, tantas palavras e imagens não tornaram o homem pós-moderno tão “civilizado” quanto se imaginaria...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

As crianças no contemporâneo ou sobre o reinado da infância


Começo essa reflexão lembrando uma frase clássica de Freud no texto “O narcisismo” (1914) onde se refere à “sua majestade o bebê” para explicar como os pais investem nos filhos o seu próprio narcisismo primário abandonado por eles na infância. Sem me aprofundar na teoria freudiana sobre o narcisismo, quero destacar aqui como um filho pode assumir o lugar de um ideal e como ele permite que os pais revivam seu ego ideal nesta relação.


Isto posto, acho que fica mais claro entender porque os pais colocam seus filhos em um “trono” e tornam esta criança um pequeno rei tirano. Podemos compreender como se explica também a dificuldade dos pais em negarem alguma coisa a estas crianças, projeções narcísicas de si mesmo, a quem não podem frustrar ou decepcionar, para não frustrar a si mesmos.


A foto que ilustra este post é a capa da revista sobre crianças, cuja matéria eu não li, mas cuja chamada ilustrava essa tirania que tantas crianças de hoje impõem aos adultos. São vários fatores aí envolvidos, espero levantar uma discussão sobre alguns deles, não ambiciono conseguir de fato desenvolvê-los devidamente...


Marco então como a projeção narcísica de si mesmo sobre um filho pode assumir contornos assustadores em uma sociedade como a nossa, tão bem anunciada por Christopher Larsch em seu livro “Cultura do narcisismo”, de 1983, onde chega a insinuar um cunho patológico do narcisismo na América, bem como nas sociedades afins.


Larsch analisa a sociedade americana, os efeitos de uma sociedade industrializada, a superficialidade emocional do indivíduo, o declínio do âmbito público e a progressiva acentuação do individual, desenhando a figura de uma pessoa autocentrada e  indiferente a tudo e a todos que não lhe dizem respeito diretamente.


Somando então a teoria freudiana sobre o narcisismo dos pais reeditado nos filhos à fala de Larsch de uma sociedade que cultua o narcisismo, podemos inferir como essa combinação enseja que, cada vez mais, as crianças estejam sendo idealizadas e idolatradas.


Creio também existe algo de excessivo na “realeza” infantil em nossa cultura, o brasileiro de uma maneira geral adora os pequenos. O psicanalista italiano Contardo Calligaris escreveu há muitos anos um livro chamado “Hello Brasil: notas de um psicanalista europeu viajando ao Brasil”, ótimo por sinal, onde descrevia seu espanto em como as crianças eram tratadas por aqui, como reis. É interessante esse olhar estrangeiro sobre aquilo que naturalizamos.


Penso que um outro aspecto importante concerne à transformação da tradicional família nuclear burguesa, parâmetro das disciplinas tão bem exploradas por Michel Foucault e reguladoras da sociedade. Novas configurações familiares vêm desmapeando os modelos tradicionais, a compreensão dos papéis sociais dentro da instituição família, as funções da própria família, bem como expõe o declínio social da função paterna (que para Jacques Lacan, brevemente falando, está atrelada à marca da lei no psiquismo).


Importantes parâmetros de outras instituições tradicionais - como a escola e a igreja - sofreram grandes transformações, os cânones a serem seguidos se esfacelaram, pulverizando assim modelos e certezas anteriormente existentes.


Como palestrante em diversas escolas, como clínica, na esfera social, encontro freqüentemente pais e mães que não sabem discernir ou circunscrever quais as “coordenadas” para assumir essas funções. Nesse sentido evoco o desmapeamento que mencionei: se antes estas funções vinham delimitadas pelo social, agora a pluralidade de parâmetros desnorteia qual o rumo “certo” a se seguir.


Vazio, desproteção, confusão, fragilidade das instituições e laços sociais, acirramento do narcisismo. E aí nascem os filhos, partes potencialmente ideais do sujeito, em um mundo onde as regras são diversas e os laços com a alteridade frouxos. E assim se institui um rei, que em um segundo tempo torna-se um tirano egocêntrico, fonte de sofrimento dos pais, da escola, da sociedade.


As majestades são impulsivas, com baixa tolerância à frustração, individualistas, egoístas, imediatistas, imperativas: esse parece ser o preço a se pagar pelo renascimento do narcisismo parental em uma cultura do narcisismo. Que reinado que estamos vivendo...


Reconhecer a necessidade de negar, frustrar, proibir, limitar, “castrar” o filho implica que os pais possam castrar a si mesmos para que a criança possa adivir como alguém capaz de se engajar em relações alteritárias e com um olhar do outro como tal. Conforme nos ensina Winnicott, a criança entende o “não” – dito correta e adequadamente - como uma forma de amor e cuidado: os limites acondicionam e protegem também.


Psicólogos, educadores, fonoaudiólogos, todos são evocados por pais desesperados com a criação de seus filhos. É grande o desamparo que faz com que alguns pais – os mais conscientes provavelmente – comecem a se preocupar seriamente com a subjetividade em formação que está sob seus cuidados. Que esta angústia seja bem vinda e que fomente um novo olhar sobre o reinado infantil pois senão... o que me vem à cabeça é a foto de Jáder Barbalho com seu filho de terno idêntico ao pai fazendo sinais obscenos à platéia de jornalistas...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eu vejo tudo em quadrados: sobre realities shows, novelas, internet e etc...

O Big Brother Brasil está em sua 12ª edição, desconheço os números do Ibope e a audiência, mas o fato que o programa ainda tem fôlego e público. Na verdade esse tipo de programa vem se multiplicando em variações sobre o mesmo tema tanto no Brasil quanto no exterior.

Contando com participantes anônimos ou com pessoas conhecidas através da mídia, os realities shows se multiplicam, monitorando grupos de pessoas confinadas em um determinado ambiente ou outras pessoas cujas vidas são acompanhadas pelas câmeras em seu cotidiano: viciados, anões, obesos, noivas, famílias, etc.


A recente “polêmica” do programa – que obviamente alavancou a audiência – foi por conta de um dos participantes ter cometido atos sexuais com uma moça desacordada pela excessiva ingestão de bebida.  De inédito na repercussão do episódio aponto o poder das redes sociais e seu impressionante poder de mobilização e repercussão - que culminou na expulsão do rapaz do programa. Esse foi um grande diferencial na mobilização ante uma ocorrência dentro da “casa” devido ao poder multiplicador das redes.

Não quero aqui explorar o tema BBB e abuso, pois envolve muitos elementos complexos e como não assisto o programa não sou uma comentadora competente ou abalizada. Mas sabe-se que o BBB é um programa com roteiro e edição, existe direção, elenco escolhido, patrocinadores. Sabe-se, pelas edições anteriores, que o álcool é estimulado de modo a permitir mais “ação”, com o nível de censura dos participantes nocauteado pela droga. Sabe-se também que o sexo - apelo poderoso em nossa cultura - é um mote bastante explorado no BBB.

Homens e mulheres são expostos como mercadorias sexuais - vi uma chamada em um site de notícias dizendo que fulana e fulana hoje conversavam sobre posarem nuas depois do programa – acho que isso já ilustra o “tom” do programa. Não assisti essa edição, mas de uma maneira geral parece um açougue, com as carnes em exposição em closes ginecológicos. Quem se inscreve para participar do programa sabe do que se trata. E quem assiste também. E isso é livre arbítrio.


Essa breve descrição é para esboçar o cenário onde ocorreu o abuso. Fica difícil filtrar isso tudo sem a manipulação do canal e o poder da massa pressionando, não sabemos o todo do ocorrido, talvez no pay per view, mas ainda assim acho que devemos manter cuidado nos julgamentos. Mas acho estranho que os telespectadores só tenham “percebido” isso agora, depois de tantas edições e repetições similares. O programa é mesmo um abuso ao telespectador, é sobre isso que se sustenta o programa, mas essa é outra discussão...

Claro fique que, independente do cenário,  abuso sexual ou estupro é uma coisa muito séria que deve ser denunciada e criminalizada. Acho também muito grave que a mulher continue sendo acusada por todos os pecados relacionados ao sexo - desde Eva que o feminino carrega essa pecha! O homem ainda é uma pobre vítima, um Adão engendrado nos ardis da Eva pecadora.

Sem dúvida que a moça bolinada não é inocente sobre o significado de participar do BBB, de se embriagar até chapar e etc, mas não pode ser culpada por incitar um abuso, isso é retrocedermos violentamente em todas as conquistas que as mulheres penaram para conseguir em séculos de opressão.

Na verdade, todo esse preâmbulo sobre o BBB foi para falar sobre o fascínio que estes programas exercem sobre o público.  Sem juízo de valores, acho importante refletirmos o que leva o ser humano a assistir apaixonadamente esses programas, independente de faixa etária, sexo, nível de instrução, poder aquisitivo, religião ou afiliação política.


A democracia sustenta que somos livres para que possamos fazer nossas escolhas na sociedade sejam elas quais forem. A TV a cabo incrementou o espectro de escolhas de canais, a internet criou um novo universo a ser explorado, DVDs de filmes e músicas, livros e outras inúmeras atividades estão disponíveis ao sujeito. Mas as pessoas escolhem assistir avidamente esses realities shows.

Em outra linha, mas com um fundamento semelhante, se multiplicam noticiários que exploram longa e exaustivamente casos policiais ou dramas de vida real na televisão aberta. Existe um vasto público que consome esses programas. Ainda em outra perspectiva de análise, consumimos também muitas novelas, um de nossos canais exibe cerca de cinco por dia! São vidas e histórias que arrebatam o amor e o ódio do telespectador, que vive aquelas ficções intensamente, como fossem reais ou como se fizessem parte de suas vidas.

Tem um filme que gosto muito, “O show de Truman”, com o Jim Carrey, que ilustra muito bem esse fascínio em viver a vida alheia. Nesta ficção um bebê é adotado pelo diretor/produtor de um reality show e colocado no cenário de uma cidade fictícia, onde todos – família, amigos, moradores - são atores contratados. A vida do personagem desde o “nascimento“, infância, adolescência até a adultez é televisionada e compartilhada com os telespectadores. Vale assistir e atentar para o comportamento dos telespectadores ao final do filme, sem estragar surpresas para quem não assistiu.

Mas qual a função que estes programas assumem na vida do telespectador? Entretenimento apenas? O que será que o telespectador quer/precisa ver nesses programas? Voyeurismo e exibicionismo são faces de um mesmo desejo... O que irá ser desvendado nessa espiadinha voyeur que somos convidados a fazer?

Chego assim a uma frase que me veio à cabeça, de Adriana Calcanhoto, em uma música que diz “eu vejo tudo em quadrado, remoto controle”.  É algo dessa “vida em quadrado”, no monitor da televisão ou do computador que fico pensando que reside o fascínio de viver projetivamente a vida dos outros, dramas, sucessos, fracassos, amores, sexualidade, torcer, vibrar, viver de alguma maneira uma outra vida. E também, quiça, ilusoriamente manipular e controlar as dinâmicas e mistérios da vida.

A idéia da tragédia grega com sua função catártica e identificatória – tão bem analisada por Freud na leitura do “Édipo Rei” de Sófocles e do desejo parricida de cada espectador  no drama de Édipo/Laio/Jocasta– permite que possamos compreender a nossa identificação com as ficções e com os realities shows.  Vivemos pelo “quadrado” a vida alheia com controle, controle remoto e remoto controle.

Inspirada por outra cena, de um filme meio trash, “Invasão de privacidade” que tem Sharon Stone como protagonista, ela descobre que foi morar em um apartamento monitorado pelo proprietário de todo prédio, um voyeur com quem se envolve. O filme vale unicamente pela última cena, na qual Sharon se volta para a câmera, aponta o controle remoto em nossa direção e diz  get a life!”. E fim. Tradução livre: viva/tenha uma vida.
Get a life...

domingo, 27 de novembro de 2011

DEMÊNCIA E O LUTO DE CORPO PRESENTE


Rola uma piadinha na internet atribuída a Drauzio Varela que as pessoas viverão cada vez mais com suas próteses de silicone e se entupindo de Viagra, mas quando chegar o Alzheimer vão se perguntar: “mas para quê serve isso mesmo”? 


Começo com essa piada tragicômica para que possamos refletir como a preocupação em nossa cultura se volta majoritariamente para o externo, para aquilo que é aparente no envelhecimento físico do indivíduo, sem o mesmo afinco e dedicação ao problematizar aquilo que concerne ao funcionamento interno do sujeito humano.


Falei anteriormente sobre o envelhecimento e agora quero me dedicar a pensar sobre as vicissitudes do envelhecimento, especificamente no que concerne à memória e as perdas diversas aí envolvidas. Uma vez que o indivíduo contemporâneo  está vivendo mais do que em qualquer outro tempo da história, começamos agora de maneira mais intensa e inegável a nos deparar com o declínio do funcionamento mental advindo das diversas formas de demências que se apresentam.


Cada vez mais se prolonga a qualidade de vida, com os novos recursos da medicina, com a contribuição de outras ciências e com a informação que o sujeito passou a possuir sobre seu funcionamento como um todo. Esses fatores aliados aumentaram em muito a expectativa de vida. Para termos idéia dessa transformação,  hoje a expectativa de vida do brasileiro é de 73 anos de idade, índice que varia conforme as condições de vida de cada lugar – no caso somos o 8oº no ranking mundial  - mas é um número impressionante se levarmos em conta que no ano de 1900 a expectativa de vida era de  33 anos!


Se antes no ocaso da vida, hoje os indivíduos na terceira década de vida são jovens que ainda elaboram questões de identidade típicas da adolescência em relação à profissão, a vida amorosa, a sexualidade. Muitos destes ainda permanecem com suas vidas ainda referidas e atreladas à sua família de origem, como a chamada “geração canguru” exemplifica muito bem. Em outro momento iremos conversar sobre esse fenômeno, tema interessantíssimo para retomarmos. 


Por exemplo, se há bem pouco tempo a mulher com 50/60 anos era vista como uma senhora, possível avó, cujo destino seria fazer tricô e cuidar dos netos , hoje observamos estas mulheres em plena atividade e se descolando da imagem de anciã. Figuras públicas como a cantora Madonna ou apresentadora Ana Maria Braga mostram como a despeito da passagem do tempo permanecem joviais, femininas, ativas, produtivas, sexuais. A nossa visão de juventude e da própria vida útil e prazerosa vai assim se estendendo.


Por um lado, parece que vivemos uma espécie de “rejuvenescimento” das faixas etárias, pois com o aumento da longevidade humana observamos uma transformação na visão das idades, das expectativas e dos estigmas até então relacionados a estas faixas.


Por outro lado, essa longevidade física proporciona o surgimento das transformações e  declínio do corpo, pois o tempo e a degeneração caminham em sua marcha inexorável e embora possamos postergar, a velhice necessariamente chega e com ela algumas perdas . Aquela mais grave e irreversível – ao meu ver - se refere ao nosso funcionamento mental, particularmente com a chegada da perda de memória e de identidade que acompanham as demências, antigamente conhecidas popularmente pelo abrangente nome de “esclerose”.


Palavra estigmatizada e utilizada pejorativamente, a esclerose foi até bem pouco tempo um “saco de gatos” onde se depositava toda a sorte de doenças degenerativas ligadas à idade, memória, esquecimentos, confusões mentais.


Hoje a evolução da medicina, da neurologia, dos recursos tecnológicos – tomografias, mapeamentos e etc -, vem permitindo a sofisticação de diagnósticos e ajudando a construir quadros nosográficos mais precisos, favorecendo a terapêutica medicamentosa e o tratamento das doenças. Discernir o mal de Alzheimer de uma demência por múltiplos enfartos, or exemplo, torna-se um diferencial no acolhimento e no trato do sofrimento que daí advém.


Esse sofrimento atinge aquele vai demenciando, sem dúvida, mas afeta principalmente os seres queridos do entorno do sujeito que pouco a pouco vai perdendo suas faculdades mentais. Se para o sujeito acometido pela doença, a perda da memória e o desligamento do mundo externo torna-se uma “benesse” que poupa o sujeito de um sofrimento maior, aqueles no entorno do demenciado não são poupados. E quando a doença se inicia vem junto com este processo um dificílimo trabalho daquilo que chamo de um “luto de corpo presente”.


Quero dizer com isso que a pessoa de nosso afeto que conhecemos está ali fisicamente: é seu rosto, sua voz, sua risada, seu cheiro, seu modo de sentar e outras tantas características que fazem parte de uma pessoa. Mas, pouco a pouco, com as dispersões, as ausências, as perdas de memória, as perdas cognitivas – que afetam a forma de caminhar, de raciocinar, de se recordar de um vocabulário para se comunicar – a pessoa que até então conhecemos começa a se transformar quase em um estranho. E é nesse momento que começa para a gente um processo de luto, de perda e de manejo do fim de um modo de relação que até então tínhamos com esta pessoa. Temos assim que reinventar este relacionamento, quase que construir uma nova relação com alguém que conhecemos de longa data.


Com as perdas neuronais, perda da massa cinzenta, a própria pessoa vai se distanciando daquilo que foi. Se somos constituídos por nossas vivências através de nossas memórias afetivas e de nossa história, essa perda implica que a nossa identidade aí se perca também. O demente não reconhece sua casa, seus filhos, seus netos, não sabe se almoçou, não se interessa em se banhar, em ler o jornal que tanto gostava, em acompanhar a novela tão ansiada anteriormente...


São gradações e quadros diferentes, mas tenho a impressão que existe uma benéfica alienação e ausência de consciência que deixa pouquíssimo espaço para o sofrimento do próprio sujeito, que costuma ser pontual até desaparecer com a evolução da doença. O sofrimento lúcido e cotidiano acaba sendo travado por aquele que vai se despedindo diariamente de alguém que não ocupa mais o corpo outrora habitado pelo seu afeto.


Sentimentos como negação, frustração, raiva, incompreensão são algumas das vivências comuns à dor desse luto por alguém que vamos perdendo em vida. Manejar a relação com alguém de seu afeto que horas de nada se lembra na alternância com outros momentos - que vão se tornando cada vez mais raros - de lucidez é mesmo angustiante. Sofremos com essa perda e temos que elaborar nosso luto por alguém cujo o corpo se encontra presente, mas cuja mente começa a se ausentar.


Faz parte da condição humana, mas talvez este se transforme em um dos grandes males que tenhamos que enfrentar em relação ao envelhecimento. Sabemos que a indústria farmacêutica/cosmética cada vez mais investe em produtos que otimizam o desempenho físico e aparência do ser humano na performance. Mas o investimento no cérebro, no intelecto, no domínio das faculdades mentais?


São muitos ainda os mistérios e é soberba a evolução da  medicina, muitas contribuições daí virão. Mas o desafio maior talvez seja individual e intransferível: o cuidado, o zelo por um de nossos bens mais preciosos que é a nossa memória e a nossa capacidade de historicizar, narrar, compartilhar a nossa existência.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

SOBRE A VISÃO DO AMOR ROMÂNTICO OU O MITO DA CARA METADE

Para compreender um pouco o mito do amor em nossa cultura e a busca da cara metade, da metade da laranja, do chinelo velho para o pé cansado, da cama para o corcunda se deitar, da tampa da panela e outras metáforas que falam do amor como uma relação complementar, creio que temos que remontar ao célebre livro de Platão escrito cerca de 380 a.C.
É em um dos diálogos de O Banquete que Aristófanes discursa que para conhecer um deus tão poderoso como Eros devemos conhecer primeiro a natureza do amor e o mito de nossa unidade primitiva. Dessa maneira, ele inicia seu diálogo apresentando os seres proto-humanos Andros, Gynos e Androgynos.
Andros seria a entidade masculina composta de oito membros (braços e pernas) e duas cabeças, ambas masculinas, Gynos entidade feminina mas com características semelhantes de dois seres femininos fundidos e Androgynos seria metade masculino, metade feminino. Segundo Aristófanes, eles desagradaram os deuses - pois se bastavam em si mesmos - que então os separou em dois, pela metade para assim enfraquecer seus poderes.  De Andros, originaram-se dois homens com seus corpos agora separados mas com suas almas ligadas e mutuamente atraídos um pelo outro . E o mesmo se sucederia  com Gynos  - na separação das duas metades femininas - e com  Androgynos - formando um metade homem e a outra mulher.

Neste mito, quando estas metades separadas finalmente se reencontram, encontram uma parte de si perdida e o subsequente desejo de fusão - e novamente a sensação de completude. O amor para Aristófanes traduz a busca e o desejo de reencontro da metada perdida, arrancada, castrada pelos deuses do Olimpo ao seres um dia unos e completos.

Esse mito foi disseminado de tal maneira na cultura que encontramos um fudamento semelhante em nossa representaçaõ social do amor romântico. A nossa cultura é atravessada por esta idéia de um (re) encontro com a nossa “alma gêmea” em best sellers que vendem milhões de exemplares ao ensinar como favorecer este reencontro e reconhecer a sua metade. Nesta e em outras vidas.
Da mesma maneira, novelas, filmes, livros são impregnados e reproduzem esta idéia da busca de sua cara metade. Causa grande fascínio que cinquenta anos depois contos e filmes da Branca de Neve, a Bela Adormecida, a Cinderela ou Rapunzel façam tamanho sucesso com suas cópias remasteurizadas pela Disney  em seus relançamentos. A espera do príncipe ou prinesa encantada predestinados é o mote dessas fábulas. Vale lembrar que Walt Disney modificou as histórias originais de maneira a construir esse mito, pois sabemos que os contos originais são bem mais trágicos, conforme conhecemos nos originais dos irmãos Grimm por exemplo.

O fato é que, décadas depois, continuamos reproduzindo os mesmos mitos para as nossas crianças: da felicidade relacionada a um encontro amoroso e de que no final você – a despeito de todos os obstáculos – encontra o seu par. Ou variações do mesmo tema, pois sempre achei que o filme “Uma linda mulher” com Julia Roberts era uma versão adulta e prostituída de Cinderela...
E assim, décadas, séculos se passam e cada um de nós parece fadado a passar a sua existência buscando a sua metade amputada. Na psicanálise encontramos uma idéia semelhante de uma completude anterior que teria sido rompida e autores diversos vão enfocar diferentes ângulos, embora subsista a idéia da falta, da incompletude, da promessa de um reencontro com outro que em algum momento já completou o sujeito.


Otto Rank sustenta a idéia da existência de um “trauma do nascimento”, conceito com o qual explica que o ato de nascer é traumático fisica e psiquicamente, devido à expulsão de um universo intra-uterino feliz e livre de conflitos. Rank afirma que alguns indivíduos neuróticos vivenciariam esse trauma do nascimento de uma maneira mais intensa que os demais.
Freud discordava de Rank, afirmando que ao nascer o infante não possuiria a discriminação de si e de um objeto, de tal maneira que não existiria a falta. Aliás, o privilégio que Rank dava ao trauma do nascimento em detrimento do conflito edipico foi motivo de ruptura entre eles. Mas Donald Winnicott vai discordar da idéia ano-objetal freudiana e afirmar que o bebê pode não possuir recursos simbólicos para traduzir sua relação objetal com a mãe, mas por outro lado, ele só existe na relação com a mãe.  Winnicott concebe a “capacidade de estar só”  - em texto homônimo - como a possibilidade de discriminação e constituição subjetiva rumo à maturidade do indivíduo.

Vemos em Rank e em Winnicott a idéia de uma existência vinculada física e psiquicamente a um outro como condição de advento do sujeito e motivo de sofrimento. Esse outro aparece em Freud com outra configuração, destaco aqui brevemente a questão do édipo, da castração e da falta, assim como a importância do narcisismo e do investimento libidinal do outro na subjetivação humana.
Sem dúvida que uma análise não almeja ensejar o sujeito a uma busca de completude no outro, pelo contrário talvez, o discurso da psicanálise busca exatamente promover no analisando um reconhecimento de sua castração, da inerente falta no sujeito e da possibilidade criativa do ser humano de criar novos destinos pulsionais possíveis para seu desejo. Mas o mito que subjaz em cada sujeito - e mesmo em algumas teorias psicanalíticas - fazem eco à idéia platônica de uma metade vagando por aí no mundo em busca de seu complemento e fusão.

Herdeiros que somos desse mito, como encontrar em meio a 7 bilhões de pessoas encarnadas no planeta a nossa cara-metade?! Talvez começar pela China, que concentra 1,3 bilhão de pessoas... Ou lidar com a nossa condição humana de castrados e faltantes, com a alteridade de fazer par com aquele que não é nosso semelhante, nem idêntico, nem fundido, nem metade. É um outro, inteiro e faltante, como nós. Ou não fazer par...