segunda-feira, 31 de março de 2014

SOBRE O SILÊNCIO E O DESMENTIDO

Importante lembrar:  houve uma ditadura sim, chamada de regime de exceção, mas foi realmente uma ditadura violenta que durou muitos anos no Brasil. Em 64 começou um período de muita repressão e perseguição a todos aqueles que se opusessem ao regime e que perdurou longo tempo. 
Isso é fato inegável. Ditadura que fez inúmeras vítimas. Isso também é um fato inegável.  E ainda existem muitos silêncios traumáticos que ecoam em nossa vida social e política. E é sobre isso que precisamos falar. Sobre o silêncio e sobre o desmentido.
O que busca-se resgatar agora – o mais importante de tudo – é que seja revelado o que aconteceu com as centenas de desaparecidos e mortos durante esse período triste da história. É que a história seja revelada.
Longe dos maniqueísmos de bom ou mau, de direita ou de esquerda, temos que admitir que numa ditadura só existe uma verdade e que a imposição da verdade dos militares de direita nos anos de chumbo foram bastantes danosos para nossa cidadania e patriotismo. Digo militares de direita, pois existiam também os militares de esquerda. É disso que estou falando: as coisas eram e são bem mais complexas do que parece.
Da herança do silêncio e da opressão vemos a nossa dificuldade na conscientização politica, da discussão de direitos e deveres do estado e do cidadão, na ojeriza à politica e coisas do gênero. Anos de silêncio imposto sobre a liberdade de se pensar que deixaram sequelas graves nos brasileiros.
As atitudes foram extremas de ambos os lados, alguns argumentam, afinal os “terroristas”  de esquerda roubavam bancos para financiar suas lutas, sequestravam embaixadores para trocá-los pela vida dos presos políticos torturados e mortos nos porões da repressão,  assassinavam quem atravessava suas ações.  Ações radicais sem dúvida.
Mas o que dizer da prisão, morte e tortura daqueles que simplesmente discordavam do regime? Quantos relatos e histórias de pessoas que simplesmente por serem “de esquerda”, sem jamais terem pego numa arma, sem jamais terem se engajado em nenhum grupo de luta armada sofreram nas mãos desse regime, simplesmente por simpatizar com a idéia de um estado de direito com justiça e igualdade social?
Imagine um novelista que tem que mudar a história da novela das oito pois os censores disseram que um dos personagens estava insuflando rebeldia na trama? Essa foi Janete Clair. Imagine um  cantor com musicas censuradas por incitar a questionar? Escolha um da MPB nos anos 60... Imagine um professor universitário que tinha espião em suas turmas para evitar que qualquer nome de autor ou pensamento perigoso ao regime fosse mencionado? Escolha qualquer um na década de 60 e 70. E assim vai.
Esqueça por uns minutos os terroristas e lembre de pessoas comuns, como eu e você. Éramos nós, é de nós que estou falando. Pessoas como eu e você que do nada sumiam, morriam. Sem se saber direito onde, como ou porque.
Imagine não saber exatamente a confirmação do óbito de alguém de sua estima: pai, mãe, filho, filha, irmã, irmão... Imagine nunca saber de um corpo que confirme essa morte. A dor desse morto vivo sendo atualizada diariamente. Esse silêncio é traumático.
Conforme explica Aldir Blan, autor junto com Joao Bosco da música “o bêbado e o equilibrista” choram “marias e clarisses” choraram por décadas sem saber, viúvas Manoel Fiel e de Vladimir Herzog. Se a dor da perda de um amado já é imensa, torna-se incomensurável sem um corpo para velar, chorar, se despedir. É uma despedida que nunca se acaba, dor que se atualiza sem nunca ficar no passado.
Em 1979 veio a anistia “ampla, geral e irrestrita”, uma negociação para que todos os acusados de crimes políticos, exilados, presos e etc pudessem ter direito à liberdade de retornar à vida suprimida no Brasil – pelo exílio, pela cadeia, pela cassação dos direitos de cidadão. Isso quer dizer que de ambos os lados foi combinado que não haveriam sanções pelo passado.
Se foi o combinado, deve valer para ambos os lados, Mas não punir não significa silenciar, calar, omitir ou mentir.  Pois, como se diz, um povo que não conhece seu passado está condenado a repeti-lo.
A idealização de uma ditadura militar é um exemplo disso . Com a censura as informações às quais o brasileiro tinha acesso eram filtradas: não se noticiava violência, crime ou corrupção. O falseamento da realidade inventa uma nostalgia de uma realidade que não existiu, quase de um idílico – como todo passado nostálgico é – mundo de faz de conta.
Não repetir a ditadura. Sim, porque não vivemos uma ditadura: temos a liberdade de expressão e uma democracia em um estado de direito. Não importa o quão ruim é o nosso governo, ou se nossa presidente foi terrorista, não vivemos uma ditadura. Quem fala isso não sabe o que é uma ditadura.
Mas vivemos por décadas uma ditadura que foi devastadora, é devastadora para todos que foram direta e indiretamente atingidos por ela. Dizer que não existiu é mais danoso que tudo que se viveu. 
Conforme afirma o psicanalista Sandor Ferenczi em sua teoria do trauma, é o desmentido do ocorrido que se torna mais traumático que o fato em si, a negação da violência vivida pelo sujeito é que se torna desestruturante.
Por isso que temos que falar – muito e ainda-  sobre isso, nomear, significar, traduzir aquilo que ficou silenciado, não dito, sufocado, negado, para que possamos prosseguir. E superar . E não repetir. 
Conforme afirma Hannah Arendt, toda a dor pode ser suportada se sobre ela puder se contar uma história. E é sobre a nossa história que temos que falar.

terça-feira, 23 de julho de 2013

SOBRE A OBEDIÊNCIA


Um dos textos que mais me impressionou no começo de minha graduação foi o relato da experiência realizada por Stanley Milgran, em 1961. Milgran, cientista social e doutor em psicologia, conduziu em Yale uma pesquisa para verificar como pessoas comuns, sem antecedentes de violência poderiam cometer atos cruéis e atrozes.

A partir dos questionamentos sobre as pessoas “de bem” que haviam colaborado com os horrores do  holocausto, Milgran criou a suposição de que qualquer pessoa seria obediente a pressão de uma autoridade.

Para verificar sua hipótese, selecionou 40 voluntários homens para sua pesquisa que deveriam fazer o papel de um professor que arguiria um aluno. Explicando que a pesquisa era sobre punição no aprendizado, Milgran instruiu que a cada resposta errada o professor deveria dar um choque elétrico no aluno, em intensidades crescentes, incentivado por um cientista que coordenava esta pesquisa.  O aluno e o cientista eram contratados e  parte da pesquisa.

A sessão de tortura era uma encenação, mas o voluntário “professor” não sabia disso, o ator fingia levar choques cada vez mais potentes e implorava para o “professor” parar. Mas 65% desses participante chegaram a dar “choques” de  450 volts, média mantida em testes posteriores em outros países e com mulheres.

Nunca nenhum voluntário, em nenhuma das repetições da pesquisa, interrompeu o teste para ajudar o “aluno” e apenas uma pequena percentagem abandonou a pesquisa mas sem prestar auxilio ou denunciar os torturadores.

A pesquisa “os perigos da obediência” apresentou assim os riscos da submissão a uma autoridade, pois os sujeitos não conseguiam romper com a pressão de uma hierarquia, bem como revelou a não responsabilidade do sujeito pelo seus atos, uma vez que este alegava estar obedecendo a um terceiro, seguindo e submetido ao desejo deste. Afirma o autor que:

“O problema da obediência não é somente psicológico. A forma e a configuração da sociedade (...) Logicamente, toda sociedade tem de incutir hábitos de obediência em seus cidadãos já que não podemos ter uma sociedade sem alguma estrutura de autoridade. Aprendemos o que significa a obediência na família e na escola, mas principalmente quando passamos a integrar o mundo do trabalho. Trabalhando num escritório, numa fábrica ou no exército tem-se, necessariamente, de abandonar um grau de julgamento individual para que esses sistemas maiores possam operar com eficiência. Em tais situações de trabalho, a pessoa não se considera responsável pelas suas próprias ações, mas sim como um agente que executa os desejos de uma outra pessoa.”

Lembrei desse texto impressionante a partir da recentes manifestações e dos fenômenos que se iniciaram no Brasil a partir do pleito pela suspensão do aumento da passagem de ônibus e o seu bordão “não é pelos 20 centavos” e toda a insatisfação de uma nação desgastada pela corrupção, pelos desserviços do estado na saúde, na educação e na sociedade como um todo.

Imediatamente lembrei desse texto e associei o perigo dessa obediência ao desempenho da PM no Rio de Janeiro ante às manifestações. É uma instituição militar e hierárquica, formada para o combate e repressão ao crime. É isso que eles aprendem em sua formação no curso do CFAP: a seguir ordens da autoridade, de seu superior sem questionar e aprendem também a reagir com violência. E são obedientes.

Lembro também de um filme também impressionante: “A morte e a donzela” (1994) , filme de Roman Polanski que se passa em um país qualquer da América Central saído da ditadura e versa sobre Pauline, mulher que se auto exclui da sociedade refugiando-se em sua isolada depois de sua experiência traumática como presa e torturada política.

Um dia seu marido auxilia um médico cujo pneu fura na estrada, que vai devolver estepe emprestado. É quando Pauline ouve a voz do visitante e reconhece a voz de seu maior torturador. A trama toda se desenvolve no embate entre Pauline e o médico, ela afirmando que ele é o seu algoz e ele negando veementemente sê-lo. Invertendo os papéis, Pauline torna-se a algoz daquele que julga seu seu torturador. É um filmaço, Sigourney Weaver dá um banho e o médico é Ben Kingsley, impecável. QUEM QUISER PRESERVAR O DESENROLAR DA TRAMA PARE DE LER OU PULE O PRÓXIMO PARÁGRAFO!

            Na apresentação do personagem do médico, sua doçura, educação, a vida que ele apresenta vemos a dúvida se instaurar no espectador: como aquela pessoa pode ser um torturador tão cruel? Voltamos ao texto de Milgran e aos perigos da obediência: a servidão ao outro autoridade... Sim, o médico era obediente...

            É complexo e paradoxal que uma pessoa de bem, decente, com princípios assuma a posição de um cruel algoz de outro ser humano. Se Stanley Milgran constata essa obediência psicológica, Sigmund Freud complementa a compreensão dessas violências ao afirmar a inerente existência de pulsões antissociais no individuo e a necessidade de contê-las em prol da sociedade.
   
           Em textos como Totem e tabu, Futuro de uma ilusão e Mal estar na civilização podemos encontrar as principais explicações de Freud sobre o sujeito e a cultura.  Resumidamente, Freud explica que a civilização se constrói sobre a renúncia pulsional, a renúncia dos desejos incestuosos, parricidas, homicidas, violentos e etc.

No mito de Totem e tabu Freud supõe uma mítica civilização ancestral parricida e luxuriosa que a partir da instituição do tabu do incesto e da exogamia organiza-se como sociedade construída sobre a lei simbólica. A renúncia desses desejos é o próprio Mal estar na civilização do qual sofre o sujeito, mas que entende que é necessário para sua proteção e sobrevivência na cultura. Mas estes textos, junto com o Psicologia das massas e análise do eu, trazem para o primeiro plano uma figura importantíssima: a figura do líder.

O líder é uma figura fundamental para entendermos a adesão cega, obediência e submissão a uma ideologia ou instituição. Cabe assim nos questionarmos sobre os lideres que promovem essa obediência em nosso momento social.

Amplio assim minha questão para outros lideres que não um governador, prefeito ou presidente, das autoridades como vemos nas situações que relatei da PM ou do torturador do filme, que não as situações somente de violência. Estamos em plena Jornada Mundial da Juventude, com o Papa Francisco participando do evento no Rio de Janeiro, com cerca de dois milhões de inscritos no evento. Manifestações religiosas, manifestações politicas, todas elas seguem o líder, pacificamente.

Como pensar as lideranças em nosso momento histórico, onde a adesão a qualquer movimento parece ser tão impulsiva e frágil, próprio das massas. Como pensar cada sujeito e sua sôfrega necessidade de adesão quando vemos o crescimento absurdo de religiões fundamentalistas, bem como o crescimento de xenofobias, homofobias e outros posicionamentos de grupos contrários a outro grupos em lideranças radicais?

Como nos tornamos tão desejosos de obediências que aderimos cegamente a um líder, seja um chefe de operações do Bope, a um grupo como o Anonymous, a uma religião, replicando mandamentos sem questionar, sem subjetivar?  

Você é obediente?


quarta-feira, 27 de março de 2013

SOBRE O ASSÉDIO OU YES, NÓS TEMOS BANANAS


 
Entro no elevador e me deparo com a extravagante e serelepe vizinha que inicializa um monólogo onde enaltece seus 72 anos, se compara à atriz Susana Vieira e sua animação. O monólogo se estende à garagem e quando ela está acabando de contar que a atriz idosa só “pega garotões” ela se volta para o garagista e diz:

- “Fulano vc quer ser meu garotão?”
O rapaz olha desconcertado para mim sem saber o que responder, sorri sem graça, abaixa a cabeça e nada fala. Um motorista ali sentado esperando a madame reproduz o mesmo olhar perplexo ante ao non sense da cena.

Na sequência ela me diz:
- "Você não está achando o clima entre os funcionários mais descontraído?"

Eu:
- "Não, estou achando o mesmo clima agradável de sempre, porque?"

 Aí me lembrei que ela acabou de ser eleita para o novo staff que vai gerenciar o condomínio do prédio onde moramos!

Então captei a mensagem: ela estava se autoelogiando e dando a entender como o clima de brincadeiras proporciona um melhor gerenciamento de funcionários, é isso mesmo?!

Eu já tinha achado a cena com o jovem mancebo desnecessária e constrangedora, mas quando entendi que quem tinha se dirigido ao garagista fazendo uma brincadeira de cunho sexual foi a subsíndica fiquei realmente preocupada. Não somente pela cena em si, que poderia passar por uma simples brincadeira. Mas pela crescente disseminação e naturalização de situações como essa de desrespeitoso assédio...

Ando escutando nos mais diversos âmbitos de nossa sociedade (acadêmicos, institucionais e etc) descrições semelhantes a essa, caracterizadas pelo assédio moral: assimetria de poder, abordagem constrangedora e desagradável por parte de pessoa que ocupa posição hierarquicamente superior, situação de opressão.

A falta de profissionalismo, a informalidade, a descontração, a falta de limitação dos papéis, a simpatia e sensualização de tudo nos mais diversos contextos, todo esse clima enfim provoca um profundo mal estar mas que fica de alguma maneira “diluído” em uma cultura como a nossa tão acolhedora e descontraída.

No ambiente profissional, acadêmico, social, as pessoas estão perdendo a noção do que é público e o que é privado, daquilo que é particular e do que é do social. Assedio moral, assédio sexual, como discernir o que são esses constrangimentos em uma cultura cada vez mais erotizada e voltada para a espetacularização de si mesmo e da intimidade?

Passa ser normal assediar sexualmente seu porteiro em uma cultura onde o sexo é banalizado e tornado uma mercadoria presente em todos os espaços de convívio.

Explico em exemplos cotidianos: vou em uma festa infantil em uma dessas casas especializadas para este público, com brinquedos e animadores para entreter os pequenos. Ou seja: uma casa especializada e voltada para o público infantil. E na trilha musical meus filhos - crianças! - escutam:

“Uísque àgua de côco pra mim tanto faz... eu fico louco de tesão e cada vez eu quero mais... corpo quente suado vem melar e vem lamber” (Naldo)
Na sequência:
“Cheguei na balada doidinho para biritar... faz o tchu tcha tcha (sic) ... é uma dança sensual...” (Gustavo Lima)
 
Lamber, melar, biritar: que explicações que se dá a uma criança que quer "entender" a letra com 6-8 anos? Como assim, casa infantil de festas? Porque em minha casa ainda posso controlar o que é visto-ouvido filtrando as diversas mídias. Mas estamos no mundo, como censurar o modus vivendi de uma cultura?
 
Nessa bagunça e confusão, pego um taxi à noite para ir à festa e sou obrigada a escutar o taxista contar "causos" sobre a mulher, a sogra e a igreja o qual insere os mais cabeludos palavrões que existem em nosso vocabulário na conversa com um cliente. Nada de mais, certo? Errado. Muito errado ao meu ver. Não sou obrigada a ouvir baixarias e palavrões quando estou contratando algum serviço. Mas cada vez mais cotidiano.
 
Valores que se perdem, como educação, respeito à intimidade e à privacidade, passam a imperar em nosso dia a dia. Não se trata de tabus ou de moralismos. Trata-se de regras mínimas de boa convivência e respeito ao próximo que vão caindo em desuso, tornando-se obsoletas e caretas.
Como afirma Paula Sibilia em O show do eu: a intimidade como espetáculo, assistimos agora a um declínio da interioridade. A autora, partindo de Richard Sennet em Corrosão  caráter quando este trabalha a "tirania da visibilidade", explica que os eixos que sustentam o sujeito contemporâneo passam a ser deslocados para um processo de globalização,  digitalização e espetacularização da vida.
 
Em que momento a conquista da liberdade sexual se tornou uma tirania da sexualidade é uma questão que venho me fazendo...

Sabemos como a sexualidade tornou-se um discurso e dispositivo de controle no social, como aponta Michel Foucault na História da sexualidade, desde o século XVIII. A psicanálise está entre estas disciplinas que vão normatizar e legitimar o "uso dos prazeres". Legitimar que somos seres sexuais, que somos todos perversos polimorfos, uma vez que nosso desejo e prazer infantis se satisfazem das mais diversas formas: pulsão oral, anal e etc.

Mas parece que nos tornamos cada vez mais perversos: exibcionistas, voyeuristas, impondo a sexualidade ao olhar e submissão do outro. No Brasil, com toda a nossa malemolência, exotismo e sensualidade para exportação, "yes, nós temos bananas", isto vai assumindo contornos cada vez mais estranhos e perigosos...
 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

SOBRE A DOR


O post inaugural desse blog foi sobre o riso, motivado pelo episódio do câncer do ex-presidente Lula. Agora me vejo novamente perplexa com a movimentação e críticas em torno do choro da presidente Dilma. A repercussão, majoritariamente negativa, “bombou” nas redes sociais.

Em meio à recente tragédia do incêndio na boate Kiss em Santa Maria (RS) que vitimou 236 pessoas, a presidente deixou seu encontro no Chile e foi prestar solidariedade aos sofredores familiares e moradores da cidade. E pranteou em meio ao cenário de tristeza, dor e desolação que todos nós acompanhamos pelos noticiários.

Não consigo imaginar uma pessoa com sentimentos que - presenciando essa tragédia e horror ao vivo - não se emocionasse. Nós, mulheres e mães, com toda a empatia e comoção da cena, certamente choraríamos ao consolar pais enlutados. Alguns homens certamente chorariam também. E esta mulher-presidenta chorou.  

E aí foi uma saraivada de acusações e agressões alegando que ela estaria se promovendo de forma oportunista e etc. Mas o pior foi o compartilhar sem fim da carta de uma cidadã que “manda” Dilma engolir as lágrimas, pois ela não teria o direito de chorar. Como assim?!

Entendo a revolta, dor, mágoa, raiva que esta situação provoca. Muito já se falou sobre isso: uma boate, sem alvará, sem fiscalização, a corrupção em várias instâncias de governança que permite que tantos locais funcionem assim aqui no Brasil. As manchetes dos jornais anunciam hoje o fechamento de centenas de casas noturnas no Brasil, a fiscalização está mostrando serviço no a posteriori: como sempre é preciso que o grito da morte se faça ouvir para que algo seja feito.

Não estou discutindo a legitimidade de todas as cobranças cabíveis no contexto, absolutamente. Muito pelo contrário, considero que nesse momento de comoção as pessoas podem se sensibilizar e se engajar em causas realmente importantes para todos nós. Podem e devem. E se fazer justiça de modo a responsabilizar cada omissão de cada pessoa, órgão, entidade envolvidas nesse crime. Isso é inquestionável.

Mas estranho esse oportunismo de utilizar a tragédia de Santa Maria como uma maneira de agredir um governo. Fazendo menção aos mortos de Santa Maria, a carta que vi reproduzida em espaços diversos questiona impostos, estádios e usuários de crack, esvaziando a legitimidade da dor e dos questionamentos relativos às vítimas do incêndio. Que desrespeito e que oportunismo! Como se desvirtua assim uma dor e uma causa para discursos pseudo  políticos?!

Não sou eleitora da presidente , não milito a causa petista. Não quero aqui discutir o governo. Sou herdeira de uma geração que clama “hay governo? Soy contra!”. Mas sou cidadã e ser politico. Quero sim questionar essas rasas e superficiais pseudo militâncias vazias, tão típicas de uma era do “compartilhar”, onde o sujeito reproduz a indignação oca, vazia e estéril.

As questões são maiores e mais profundas, a corrupção antecede e sucede esse governo com a conivência de cada brasileiro que adora o seu “jeitinho” de sempre burlar e manipular as leis da justiça ou as leis mais diversas e sutis que regem os relacionamentos humanos. Devemos questionar o presidente, o governador, o prefeito e assim por diante, mas também parece que funcionamos no a posteriori... É quando lembramos de fiscalizar, cobrar, exigir...

Ao invés de culpar o governo, hábito tão arraigado do psiquismo infantil de culpar o outro, cabe a cada um de nós assumir seu papel de cidadão, a nossa cota de engajamento e a nossa parcela de responsabilidade pelo nosso cotidiano. Nas nossas vidas. Sem isentar os responsáveis nos setores diversos que regem nossa organização social, é claro. Mas quem aqui verifica se a saída de incêndio do cinema está funcionando antes de assistir o filme? 

Freud, em Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância (1910) sustenta que o ser humano tem a necessidade de se apoiar em alguma autoridade, visto que nasce em um estado de completa dependência e desamparo . Este desamparo persiste de alguma maneira em nossas vidas e Freud justifica que a necessidade de figuras de autoridade e ou de uma religião corresponderia à persistência de algum tipo de infantilismo psíquico. Até quando vamos ficar infantilmente relegando a uma “autoridade” todas as responsabilidades e culpas de tudo?

Essa tragédia em Santa Maria dói em cada um de nós de varias maneiras, pela empatia, identificação, transferência, projeção. Não saberia nem começar a falar da mobilização que esta situação toda me provocou, mesma comoção que escutei no discurso dos familiares, pacientes, amigos, pois coisas horríveis assim quando acontecem remanejam o modo de olhar a vida e os ambientes que frequentamos, a fragilidade da nossa existência, enfim. O post não é sobre essa dor, pois poetas como Carpinejar e outros tantos conseguiram recobrir esse sentimento com palavras que traduzem tão bem essa pluralidade de emoções.

Pontuo a solidariedade e o luto como norteadores principais de minhas colocações, respeito isso acima de tudo. Mas acho medíocre o oportunismo e infantilismo de certas colocações a partir de uma desgraça dessas...

Esse post é sobre o infantilismo que persiste em nós. E pretendi aqui falar disso através principalmente do direito e da legitimidade do choro da presidente. Aliás, não foi o primeiro e provavelmente não será o ultimo, ela já chorou em contextos diversos desde que assumiu a presidência. Mas acho sinceramente que ela deve poder chorar: é a humanidade e o desconcerto que nos incomoda na cena.

O filosofo e sociólogo Helmuth Plessner afirma que o riso e o choro revelam a incapacidade do sujeito em lidar com a situação com a qual se depara, pois ante ao insólito estas seriam estas as respostas possíveis em um primeiro momento: “quando  a  razão  e  o  entendimento  não conseguem  responder,  é  o  corpo  que  assume  a  tarefa  de  expressar  a  impossibilidade de resposta” (in O riso e o choro: uma investigação sobre os limites do comportamento humano, 1941).

Assim sendo, chore, presidente. Se rasgue, se arraste, sofra. É isso que nos faz humanos, sensíveis e solidários ao outro. Mas sofra muito, mesmo, para que esse sentimento assuma algum efeito transformador. E depois desta resposta humana e impotente, que venha a razão e o entendimento de toda a tragédia. Pelo sofrimento advindo do incêndio sim, principalmente, mas também pelo sofrimento e dor que sentem aqueles que ambicionam e assumem o papel de líderes, que adquirem cargos cujo poder transformador afeta a vida de milhões de sujeitos. Que este choro e dor sejam locus para mudanças maduras e necessárias.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

SOBRE OS CINQUENTA TONS DE CINZA



Finalmente li o tal livro que tanto ouvi falar em 2012. Um feriado, alguém que me emprestou o volume I e resolvi saciar a curiosidade. Minha sensação foi que nem ler Paulo Coelho: reconheço o mérito mas definitivamente não tenho vontade de ler outro livro dele...

A primeira vez que ouvi falar do best seller foi através de uma paciente – uma senhora de quase 70 anos – empolgadíssima com o livro, depois foi a falação dos amigos (na verdade amigas) até chegar na mídia como um todo: claro que foi inevitável conhecer a história do livro antes mesmo de ler a contracapa. Curiosa ma non tropo fui lendo o romance quase que antropologicamente, tentando compreender o fenômeno de vendas e comoção da mulherada.

Assim que comecei a leitura já achei super inverossímil a personagem Anastacia uma jovem universitária americana de 21 anos que não tem nem computador e nem um smartphone?! Fala sério! O fato dela ser virgem, nunca se masturbar e nem desejar ser beijada até então tornaram-se elementos secundários antes essa inacreditável e pouco crível exclusão digital!!!

Resumindo o roteiro, jovem mocinha com baixa auto-estima conhece jovem ricaço bem neurótico e vivem um relacionamento amoroso-sexual no qual ele desvela seus fetiches e perversões. E ela a-do-ra. E o público também de-li-ra. A descrição das cenas sexuais foram relatadas como instigantes e eróticas, mas a sensação que eu tive é que lia um daqueles romances que foram moda na minha adolescência: Bianca, Julia, Sabrina. Sério. (e isso talvez explique o desdém e deboche dos homens em relação ao livro, sei lá...)

Obviamente não vou contar o livro, mas chamou minha atenção essa comoção causada pelo personagem masculino, Christian Gray: lindo, milionário, atencioso, gentil, cheio de fetiches e perversões sexuais. Pelo jeito “as mina pira” com esse modelito... Mas o principal do pacote é a combinação dos seguintes elementos: ele se APAIXONA, é fiel e sensível! Ou seja, o cara pode ser completamente freak, mas só com o “pacote” completo e se apaixonar!

Sem me alongar muito – até porque o livro é raso e não se presta a mergulhos tão profundos -  o que realmente me impressionou foi o clichê burguês e convencional na qual a perversão do personagem foi alocada. É uma perversão asséptica e psicologizada (me contaram que nos próximos dois volumes – sim é uma trilogia!!! – ele discorre sobre a mãe viciada-abusiva e Freud sempre tinha razão...), completamente arrumada dentro de um romance convencional e careta-baunilha... Aliás, pelo que soube, o livro acaba com um “final feliz”: eles se casam coroando o romance. Perversão asséptica e palatável, quase que um romance “à la Disney’!

É uma perversão muito diversa, por exemplo, de um clássico dos anos 50,  ícone da literatura erótica, A História de O, de Anne Desclos (sob o pseudônimo de Pauline Réage), o relato fictício de uma jovem fotógrafa que escolhe se tornar uma escrava sexual. Livro que descreve cruamente a submissão sexual da qual “O” é voluntária, mas sem o “final feliz”.  Fica a indicação da leitura, mas em outro momento retomo esse livro que se presta a análises mais profundas sobre o sadomasoquismo inclusive psicanaliticamente...

Fica o registro que em termos de literatura erótica, outras referências são tão mais interessantes em sua riqueza, como Os 120 dias de Sodoma do Marquês de Sade, Decameron do Boccacio, a Vênus das peles do Sacher-Masoch, autores nacionais como Nelson Rodrigues ou João Ubaldo com A casa dos budas ditosos e outros tantos enfim.

Sobre o Tons, fiquei reflexiva sobre a necessidade de uma literatura desse tipo no contemporâneo: recorde de vendas e vai virar filme! Depois da revolução sexual e de todos os avanços da liberdade da mulher, da queda de tabus como a virgindade, o usufruto e posse da mulher sobre o próprio corpo  com o advento da pílula, com a entrada mais igualitária no mercado de trabalho e assim por diante, por que cargas d’àgua uma menina virgem que aprende que pode ter um orgasmo amarrada numa corda num quarto vermelho desperta tanto fascínio nas leitoras?!

Sem dúvida que a encenação do livro permite que o leitor projete sua própria sexualidade polimorfa infantil, pois como Freud nos ensinou neuroticamente recalcamos nossa perversão: “a neurose é o negativo da perversão”. Freud também nos explica sobre fetiches e sua função de negar a castração e assim por diante, mas tudo isso é bem alocado em um romance no estilo pornografia light, que as pessoas podem ler até no metrô: perversão enlatada para consumo.

Relembro Freud em Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna (1908) na qual argumenta que a civilização exige que os indivíduos sublimem seus desejos sexuais por causas socialmente uteis, sustentando que “a influência prejudicial da civilização reduz-se principalmente à repressão nociva da vida sexual dos povos civilizados através da  moral sexual ‘civilizada’ que os rege.” Nesse texto, entre vários outros fatores, Freud explica como a sexualidade regulada pelo casamento é um sofrimento para o sujeito. Parece que apesar da quebra desse vínculo casamento-sexo e de toda liberdade sexual que vivemos no ocidente - mais de cem anos  depois – a sexualidade continua atravessada pelo recalque...

Mas louvo os méritos do livro que mobilizam milhões de pessoas para a leitura, seja essa E. L. James ou Paulo Coelho. Louvo também que possa mobilizar o desejo e a fantasia que movem o sujeito. Mas...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A gente não nasce mulher, a gente se torna mulher. E homem. E malabarista circense também.


Estive no circo. Achei divertido, mas confesso que senti falta dos animais: os elefantes enormes e suas impressionantes presenças, os leões com a imponência e garbo, os macacos que em tanto se assemelham a nós, enfim, senti falta de ver e desfrutar do fascínio que a bicharada sempre provocou nos humanos.

Fui em busca de um circo que não existe mais, o circo de minha infância – que nem gostava tanto, cá entre nós – com palhaços, poodles de sainha de tule, pessoas portadoras de nanismo. Eu sei que não é politicamente correto, mas eram essas coisas que esperava apresentar para meus filhos. Agora temos circos high tec, telões, banda de rock ao vivo, tudo muito estilizado, genéricos do Cirque Du Soleil. Que achei sensacional. Mas que também não é exatamente um circo.

Enfim, isso tudo é para dizer que eu vi o número dos pratos rodando no ar, todos ao mesmo tempo e há séculos não via isso. Imediatamente me lembrei da metáfora que ouço de tantas mulheres que se sentem estas malabaristas da vida, tentando dar conta de vários pratos rodando no ar, sem deixar cair nenhum.

Não que os homens não sejam ou se sintam sobrecarregados com as exigências da vida pós-moderna, óbvio que sim. Mas considero que a figura feminina é a maior representante do aumento de tarefas, encargos, funções e papéis sociais que o ser humano vem acumulando nos últimos séculos.

Mapeando muito brevemente esse cenário, até pouco tempo, a mulher permaneceu restrita ao âmbito doméstico e privado de nossa sociedade. Embora no Oriente as mudanças sejas mínimas, no Ocidente esta transformação foi radical e hoje a mulher usufrui do espaço público praticamente nas mesmas condições que os homens. Ainda em desvantagem, é bem verdade, de reconhecimento e de salário, mas cada vez mais equiparada.

Na base dessas transformações podemos marcar, desde a Revolução Industrial até o advento da pílula anticoncepcional, diversas mudanças que permitiram à mulher o direito ao trabalho e uma possível independência advinda deste, até o domínio de seu corpo, natalidade e sexualidade. Essas últimas sem dúvida conquistas revolucionárias.

São séculos de história e de opressão atravessadas por questões profundas que envolvem diversos campos de saber.  De “costela de Adão”, vistas como um ser totalmente dependente das leis implícitas ou explicitas do falocentrismo, evoluímos até a autonomia e independência do masculino para uma identidade própria, singular e independente.

Cuidar da casa, cuidar dos filhos, cuidar dos idosos, dos desvalidos, dos animais domésticos, do lar: vida privada da mater, da palavra matrimônio constituía o destino da mulher. Desbravar o mundo para buscar o sustento da família, cuidar das provisões para a casa, empreender, pater, o patrimônio, era o destino do homem. Houve época em nossa cultura onde estes papéis eram muito bem demarcados. Eram...

O que quero destacar aqui é como exige-se da mulher de hoje a encarnação do duplo registro da figura feminina: o lado doméstico e o lado público. Ou seja, multiplicação de papéis: além do âmbito doméstico – que continua sendo da alçada do feminino, agora a mulher tem que abarcar as conquistas da vida pública. E ser bem sucedida nesta empreitada...

Para além de um discurso feminista que acuse a dupla ou tripla jornada que a mulherada vive, quero aqui problematizar o sofrimento e a sobrecarga que esse modo de vida traz para a mulher contemporânea. Já apontei que esse fenômeno é extensivo ao masculino: hoje é cobrado ao homem que ele seja mais “feminino”, cuide da casa, cuide dos filhos, se cuide e etc e etc. Mas em proporção e alcance muito menores em relação às cobranças ao feminino.

A mulher encarna a malabarista equilibrando os pratos no ar, todos rodando e sem quebrar. Que escolha essa nossa, de fazer coexistir o mater e o pater! Por um lado, muito prazer e satisfação advindas de diferentes fontes de investimento e alegria. É bem verdade que o retorno é bem maior. Por outro, um certo desgaste que vai engolfando o dia a dia em funções sem fim e uma sensação de tarefas inacabadas, demandas insatisfeitas e assim por diante.

Compre uma revista voltada para o público feminino, folheie e você vai entender do que estou falando! Nesse pot pourri daquilo que é atribuído ao universo “delas” encontramos as sugestões para otimizar a vida nos mais diversos campos. Para listar alguns: corpo, saúde, vida sexual, relacionamento afetivo, filhos, família, amizades, vida acadêmica, casa, funcionários, trabalho, vida social,  pets, ufa!!!!!!!!!!

                O que quero ressaltar também é que isso tudo gera um desmapeamento nos indivíduos de hoje que são compelidos a significar e resignificar o que é ser homem ou o que é ser mulher no contemporâneo. É fato que o deslocamento do feminino também desalojou o masculino de seu lugar: estamos todos desbussolados! O homem de hoje tem que assistir ao parto do filho, fazer faxina, cozinhar: do público ao privado....

                A máxima de Simone de Beauvoir, de que a gente não nasce, a gente se torna mulher pode atualmente ser estendida aos homens, pois eles hoje também precisam aprender a se tornarem homens. Essa é a parte positiva deste desmapeamento: as inéditas e ricas possibilidades de reconstruções das subjetividades. Enquanto isso, segurem seus bastões e façam os pratos girarem...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

VOCÊ USA DROGAS?

                                                                  Baco, de Caravaggio


     Pergunta complicada essa... Imediatamente a maior parte das pessoas responderá que não, pensando nas chamadas “drogas pesadas”:  crack, heroína, cocaína.  Uns poucos admitirão um “de vez em quando” mais timidamente, pensando no baseado ou no “e” (ecstasy) ou no “a” (ácido) que tomou em alguma festinha.
     Aquele que refletir um pouco mais antes de responder provavelmente  irá desenvolver algum tipo de senso crítico em relação â questão e pensará nas chamadas “drogas leves”: bebida, tabaco, medicação receitada por um médico e perceberá a complexidade do tema. E aí talvez responda que use drogas sim, já inserido em uma visão macro da problematização.
     Esse tema vem convocando a sociedade como um todo a refletir sobre a questão do uso de drogas, mas creio que essa discussão mal começou: temos ainda um longo caminho a percorrer. E pelo amplo espectro de subtemas aí envolvidos não existe um campo de saber que não tenha a contribuir para este debate. E a sociedade como um todo também.
     Mas quero aqui sublinhar basicamente a nossa absoluta imersão em uma cultura atravessada pelo consumo de drogas legais e ilegais, leves ou pesadas, como recreação ou como dependência, enfim, sobre uma certa “naturalização” do uso de drogas em nossa sociedade.
     Sem recorrer a estatísticas, visto que sabemos que os números sao impressionante e crescentes, vale lembrar que cada vez mais e mais cedo os jovens experimentam e utilizam drogas;  a dependência à drogas é uma vivência que atravessa todas as faixas etárias, as diversas classe econômicas e quase todas as culturas, assumindo contornos diversos conforme a regionalidade.
     As drogas datam de milharem de anos na história do mundo e os primeiros relatos referem-se principalmente ao uso medicinal ou ritualístico em religiões primitivas, mesmo há poucas décadas atrás utilizava-se as drogas como um favorecedor da abertura e expansão da mente, como um ato quase que político, um protesto inserido na contracultura. Até então, as drogas se encontravam referidas a algum tipo de contexto de cura, de fé ou em uma ideologia.
     A feição das drogas utilizadas majoritariamente como prazer possui poucas centenas de anos e sua grande explosão – há poucas décadas atrás - vai coincidir com  um momento histórico social que conflui a influência da cultura do narcisismo, a valorização do individualismo, à lógica do consumo capitalista e ode ao hedonismo.  Realizando muito brevemente essa rápida visada histórica que percorre milhares de anos em poucas linhas, quero principalmente destacar como o uso das drogas é hoje principalmente referido ao prazer e alienação da dor/sofrimento humanos, outrora melhor suportados  Quero destacar o quanto a cultura que vivemos favorece e estimula um modo de relação imediatista do sujeito com suas relações/objetos onde a frustração ou a postergação do prazer não possuem mais lugar.
     Nesse modo hedonista e imediatista de funcionamento da cultura, o indivíduo deve ser feliz e agora. As pessoas não devem mais sofrer. Por nada.  A dor de um sofrimento, frustração, perda, luto, enfim, os males do humano devem ser imediatamente extirpados como algo da ordem do insuportável. O mal-estar inerente à condição humana pode e deve ser anestesiado: compre, consuma, beba, coma, fume, essas são as palavras de ordem. Vigora o imperativo do “faça qualquer coisa para ser feliz”. Mesmo.  E assim nos tornamos vorazes consumidores de substâncias e de obetos que promovam – momentânea e fugazmente – essa anestesia.
     Recentemente defendi em um artigo apresentado com Marília Gabriela Brecha chamado Drogadicção no contemporâneo: reflexões sobre a cultura do consumo e a compulsão pelo objeto droga o quanto existe algo específico do modo de funcionamento da cultura atual que torna este consumo de drogas exacerbado - cultura esta regida pelo consumo e inserida na lógica da falta e do vazio. Não há nada de inédito nisso, pois Freud tematizava a busca do prazer/ alívio do sofrimento psíquico no uso de drogas como um recurso defensivo contra a dor e a infelicidade desde 1930. Questionamos é como isso agora tornou-se um modus vivendi da atualidade.
     É importante remover o véu de hipocrisia sobre o uso de drogas, pois – sem nenhum tipo de apologia, que fique claro – é comprovadamente mais nocivo a um indivíduo consumir assiduamente álcool e tabaco do que um outro sujeito que duas ou três vezes por ano uma droga “pesada”, como meio comprimido de “bala”, por exemplo. Potencialmente ambos viciam, deterioram a saúde do sujeito e levam à morte. Porém, quem de nós não frequenta habitualmente inúmeros espaços onde o álcool é consumido livremente e glorificado como a panaceia de todos os males: está feliz? Vamos “bebemorar”! Está infeliz? Vamos “bebemorar” também!
     Vale lembrar que mais do que o objeto em droga em si, o que está em jogo é o modo de relação que o sujeito estabelece com o seu objeto; inclusive quem tiver mais interesse no tema eu publiquei um livro pela Editora Juruá, que explora bem isso, intitulado Adicção: um estudo sobre passividade e violência psíquica. Mas, retomando a compreensão do modo de relacionamento do sujeito com seu objeto-droga, as gradações de utilização das drogas vão da recreação, passando para o uso habitual até chegar à dependência. Como delimitar essa linha tênue que discrimina essa gradação do domínio e controle desta relação até a completa e absoluta servidão a este objeto?
     Vivemos uma cultura adicta e estamos naturalizando isto de tal maneira que este se torna o modo de vida adotado em nossa cultura. Um exemplo disso, que tem sido bastante debatido, é o absurdo aumento da medicação controlada, o uso de drogas receitadas por médicos. Remédio para depressão, para ansiedade, para déficit de atenção, para dormir, para estimular e assim vai. Claro fique que apoio e recomendo o uso de remédios devidamente receitados conforme o determinado quadro clínico. Mas também fico bastante surpreendida que qualquer tristeza ou mesmo depressão reativa a uma perda que deve ser elaborada são prontamente anestesiadas com remédio, sem a menor preocupação com o manejo dos sentimentos e das elaborações subjetivas necessárias e funcionais para a superação do quadro.
     O mesmo vale para a ritalina, citando um exemplo, a grande “febre” da medicação infantil. Às vezes tenho a impressão que não existem mais crianças “agitadas”, “espoletas”, “pilha duracell”, existem agora crianças patologizadas: são “hiperativas”, possuem “déficit de atenção” e por aí vai. Como se essa questão também não fosse afetada pela nova formatação da criança ao urbano, confinada em espaços reduzidos, sem ter onde dispender sua energia e como se o nosso universo não fosse cada vez mais impregnados de estímulos e demandas que gradativamente afetam a nossa concentração – sejamos crianças ou adultos! Mas isso já é papo para outro “post”....
     Quero pontuar o quanto é imenso o desafio de lidar com as drogas em cada sujeito, em cada família, em cada cultura. As políticas de saúde públicas atualmente entendem que o uso de drogas é um problema da Saúde e não somente do Judiciário e é por aí que se constrói a descriminalização do usuário de drogas e a compreensão da complexidade do tema: mais do que um infrator da lei, o usuário de drogas é alguém que padece de uma doença. Doença esta que afeta toda a cultura, nas famílias, nos usuários de crack que marginalizam o crime, no alcoólatra que atropelam e mata dezenas de trabalhadores no ponto de ônibus e assim por diante.
     Nesse sentido temos que louvar o quanto a política de Redução de Danos adotada no Brasil é pioneira na estratégia na Rede de Atenção à Saúde Mental: trata-se de admitir que este é um processo que envolve inúmeros elementos e onde se almeja uma gradativa transformação da relação do usuário dependente de drogas em um sujeito que se aproprie de sua história e que possa reduzir os danos de sua drogadicção em si mesmo e em seu entorno até adquirir um domínio sobre ela  nas qual dela possa prescindir.
     Um exemplo de campanha de redução de danoso está estampado no slogan: “se for dirigir, não beba”, sem cinismos, ao se admitir que as pessoas vão beber, estimula-se uma utilização mais conscientizada do álcool e de seus efeitos no sistema nervoso central de tal maneira que dirigir se torna uma ato que oferece risco ao sujeito e aos demais. Não dirigir é reduzir o dano, é admitir que o dano existe e encontrar maneiras de minimizá-lo. Mas temos um longo caminho por aí...
     Não podemos deixar de evocar também a questão financeira envolvida no uso de drogas: do tráfico às indústrias farmacêuticas, passando pelas fábricas de cigarros e bebidas: é muito dinheiro aí envolvido, que envolve instâncias diversas. Para isso sempre recomendo os filmes “Tropa de Elite”, o primeiro – focado no Capitão Nascimento, seus dramas morais, a corrupção da policia, a ignorância dos usuários dos tentáculos do uso de drogas, o preconceito, a alienação, o “varejo” das drogas e o segundo filme da série, que vai desloca sua ótica e vai para o “atacado”: as drogas na política, a mídia e as tramas e lucros aí envolvidos. É o capital e no capitalismo tardio a droga é uma mercadoria de grande valor...
     Mas e você? Você drogas?